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Nunca desde a queda do muro de Berlim o culto a Stalin esteve tão forte quanto agora.

Nos posicionamentos favoráveis ao governo de Maduro, praticamente hegemônicos no campo da esquerda, uma figura aparece com força: Stalin. Nos últimos anos, a esquerda tem perdido a vergonha do grande ditador assassino da União Soviética, vergonha esta que remontava ao discurso secreto de Kruschev no Congresso do Partido Comunista de 1956.

Os padrões de perseguição e paranoia política de Stalin eram escandalosos até mesmo para os burocratas soviéticos. Kruschev afirmava em seu discurso secreto que “o culto à personalidade de Stalin cresceu gradualmente, e em um dado momento se tornou a fonte de sérias perversões”. O filósofo Jean Paul Sartre, que sempre se posicionou como intelectual marxista, dedicou um livro inteiro, “O Fantasma de Stalin”, para denunciá-lo.

Como é que agora acontece esta reabilitação de Stalin no campo da esquerda? A explosão do meme “Stalin matou foi pouco” e suas variantes nas redes sociais nos últimos dez anos é indicativa de uma mudança de status do líder totalitário perante amplos setores da esquerda. O meme tem sido transformado meio que em slogan de uma juventude alinhada à esquerda e envolvida em organizações como PCB e Levante Popular da Juventude – ambos defensores de Maduro.

Esta reabilitação começa na terra do ditador, a própria Rússia – apesar de Stalin ser na verdade georgiano. O governo Putin tem construído bustos em homenagem a Stalin por toda a Rússia, em um esforço de recuperar a memória dos grandes tempos da nação. Assim como o próprio Stalin explorou os grandes czares para alimentar o nacionalismo russo e pan-eslavo, Putin recupera Stalin em seu esforço nacionalista.

No restante do mundo, a ascensão da direita nacionalista tem levado à esquerda à relembrar os seus grandes líderes de outrora. Stalin, desta forma, apareceria como “o cara que derrotou Hitler” – embora só tenha entrado na guerra em 1941, após a invasão alemã, e tenha permanecido aliado de Hitler desde o acordo Ribentropp-Molotov de 1939.

Mais ainda, a recuperação de Stalin acontece porque a esquerda como um todo se afasta das lutas democráticas. Cada vez mais a esquerda se submete a líderes populistas como Lula e Maduro, ou se torna a defensora de um status quo oligárquico perante uma nova direita que lhe roubou a bandeira antissistema.

Não que os métodos stalinistas tenham algum dia sido deixados de lado para esquerda. A forma como o PT capturou as lutas das minorias políticas para legitimar o governo Lula e seus compromissos com o grande capital é apenas um exemplo das práticas stalinistas. Mas agora ela perdeu a vergonha de seu grande mentor.

Por isso a grande tarefa dos democratas neste momento é superar a esquerda que se agarra a Stalin.

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Paulo Roberto Silva

Jornalista e empreendedor. Mestre em Integração da América Latina pela USP.