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Se alguém quiser entender o que se passa na nova fase da “era da incerteza”, é obrigatório ler a obra completa de Cormac McCarthy.

Em The Counselor (2013), filme dirigido por Ridley Scott, com roteiro de Cormac McCarthy, o personagem interpretado pelo ator espanhol Javier Bardem, Rainer, explica ao personagem-título, feito por Michael Fassbender, o que seria um bolito. O diálogo é reproduzido abaixo, em inglês, para que o leitor entenda as sutilezas de horror (e de humor) da prosa de McCarthy:

REINER  […] Do you know what a bolito is?
COUNSELOR  No. A bolo is one of those skinny neckties. Or is it one of those things you throw.
REINER  Yeah. In this case it’s a mechanical device. It has this small electric motor with this rather incredible compound gear that retrieves a steel cable. Battery-driven. The cable is made out of some unholy alloy, almost impossible to cut it, and it’s in a loop, and you come up behind the guy and drop it over his head and pull the free end of the cable tight and walk away. No one even sees you. Pulling the cable activates the motor and the noose starts to tighten and it continues to tighten until it goes to zero.
COUNSELOR  It cuts the guy’s head off.
REINER  It can.
COUNSELOR  There’s nothing he can do.
REINER  No.
COUNSELOR  Jesus.
REINER  Yeah.
COUNSELOR  How long does it take?
REINER  Three, four minutes. Five maybe. It depends on your collar size.
COUNSELOR  You’re shitting me.
REINER  Nope. Mostly wretched excess of course. It’s just that there’d be no easy way to turn the thing off. Or reason to. It just keeps running until the noose closes completely and then it self-destructs. Actually you’re probably dead in less than a minute.
COUNSELOR  From strangulation.
REINER  No. The wire cuts through the carotid arteries and sprays blood all over the spectators and then everybody goes home.
COUNSELOR  Jesus.
REINER  Yeah, well.
COUNSELOR  Bolito.
REINER  Yeah. Probably a play on words too. Boleto—with an e—is the spanish word for ticket. 
As in yours has just been punched.

Quando revi recentemente esta cena, logo no início deste annus mirabilis de 2017, me perguntei o que aconteceria se Rainer desse a mesma explicação ao presidente brasileiro Michel Temer, especialmente após a explosão de violência ocorrida entre as facções criminosas do PCC (Primeiro Comando da Capital), CV (Comando Vermelho) e FDN (Família do Norte) nos presídios de Manaus e de Natal, ou então no exato instante em que ele recebeu a notícia do acidente que matou o juiz do STF (e relator da operação Lava-Jato), Teori Zavascki, no avião que caiu nas águas da cidade de Paraty. Ao pensar numa variação deste diálogo, imaginei logo depois o rosto de Temer ao ouvir a explicação do que seria um bolito – e tenho quase a certeza de que a sua reação seria a mesma do advogado interpretado por Fassebender: uma mistura de incredulidade, tolice e, sobretudo, temor.

Se alguém quiser entender o que realmente se passa na nova fase da chamada “era da incerteza” (algo que, na verdade, acontece desde a Primeira Guerra Mundial), é obrigatório ler a obra completa de Cormac McCarthy, em especial dois escritos dele que, por coincidência, tornaram-se películas cinematográficas de grande sucesso e que lidam com a tragédia da guerra do narcotráfico na fronteira entre os EUA e o México – uma guerra que tem sinistros paralelos com o que também ocorre no Brasil. Além de The Counselor, temos o que pode ser considerado o livro que narra o início deste drama centrado na sanguinolência eficiente do bolito – o romance No Country For Old Men, transformado em um admirável filme dirigido pelos irmãos de Joel e Ethan Coen. Neste caso, podemos falar que o seu verdadeiro diretor foi McCarthy, pois, assim como aconteceu com Ridley Scott, os Coens tiveram a sapiência de transformar as palavras do escritor americano em imagens e não mexer em mais nada.

Na mesma época em que estreou o filme dos Coen, também teve o surgimento de outra obra que, apesar de não lidar diretamente com o assunto do narcotráfico, também lida, por incrível que pareça, com o mesmo tema abordado por McCarthy: There Will be Blood, de Paul Thomas Anderson, possivelmente uma obra-prima, mesmo sendo uma película difícil, seca, sombria, com um dos finais mais delirantes de todos os tempos, enquanto o filme da trinca Coen-McCarthy é seco, direto, que não alivia em suas pitadas de violência e metafísica. No fundo, ambos falam de um mesmo assunto – e que parece ser a raiz do problema que sintetiza esta fase da “era da incerteza”, em que o narcoestado invade a estrutura do Estado-Nação, o terror da existência permeia cada detalhe do nosso cotidiano, em que o desaparecimento de um juiz tecnocrata ou a morte de uma menina inocente (como foi o que ocorreu com a criança Sofia, de 7 anos, que morreu de uma bala perdida enquanto brincava num parquinho em Irajá, Rio de Janeiro) parece ser o sinal de algo muito mais sinistro: será que Deus desapareceu do nosso mundo?

Tanto The Counselor como No Country for Old Men parecem responder na afirmativa. Contudo, se ninguém for atrás dos outros livros de Cormac McCarthy, um dos grandes escritores do nosso tempo, pode até continuar a imaginar que ele pensa exatamente isso. Entretanto, é só ler Blood MeridianSuttree (o único romance do século XX que fica aos pés do Ulysses, de Joyce) e The Crossing para perceber que No Country The Counselor são misturas subversivas (porque estão disfarçadas de um tom popular) do tema que McCarthy persegue com obstinação há mais de trinta anos: como o ser humano pode suportar tanta iniquidade? Para McCarthy, o homem não consegue mais suportar o Mal porque ele é uma presença que o sufoca e que mata a esperança; porém, a descida aos infernos e o confronto com o abandono divino (dramatizados em Suttree e The Crossing) são as únicas formas de encarar este problema com a sobriedade e o estoicismo necessários. Segundo McCarthy, o mundo não perdoa, e quem pensar o contrário cairá nas garras da vaidade e será derrotado sem misericórdia – como é o que acontece com o advogado interpretado por Fassbender e que desconhece o que é um bolito. Menos Eclesiastes, impossível.

Neste ponto, é provável que os irmãos Coen aproximaram-se mais do tom amargo do seu agridoce Fargo (1995) ao restante da obra de Cormac McCarthy, porque a adaptação de No Country feita por eles, se não fosse pela presença de Tommy Lee Jones no papel do Xerife Bell, seria o atestado de ateísmo que a pós-modernidade (agora, rebatizada de “pós-verdade”) pediu. Esqueçam da trama policialesca entre Llewilyn Moss e Anton Chigurth (por coincidência, também interpretado por Javier Bardem); lembrem-se somente do desiludido Xerife Bill e da tola Carla Jean, verdadeiras ovelhas indo para o abatedouro. Ali está o coração do filme e do livro. Para eles, a vida é uma inevitável derrota, os inocentes perdem, os malvados saem apenas com os ossos quebrados e o que sobra é o seu pai carregando uma tocha em um deserto inóspito – mas apenas em sonho (é interessante ver que McCarthy levaria essa mesma imagem às últimas conseqüências no seu romance mais recente, The Road). Ainda assim, o fato do Xerife Bell afirmar ao seu tio inválido de que não é culpa de Deus o fato de ele não ter percebido Seus sinais e Sua presença no decorrer da vida, foi colocado de escanteio pela crítica do establishment, e assim No Country foi alçado à filme de propaganda da patota de Richard Dawkins.

Tentaram fazer a mesma coisa com There Will be Blood, mas não conseguiram. Em primeiro lugar, porque o filme não é uma crítica ao fundamentalismo religioso; é mais um aviso para que os representantes do espírito não se vendam às tentações do mundo. E, em segundo lugar, também não é uma crítica ao capitalismo. Daniel Plainview, interpretado pelo gênio perturbado de Daniel Day-Lewis, é uma espécie de patriarca do Velho Testamento que, ironia das ironias, não tem filho verdadeiro, mas arruma um que logo depois o deserdará. O seu sobrenome é um alerta da sua psicologia: “Plainview” significa alguém que vê de maneira rasa, plana, ao rés do chão. Contudo, é um patriarca que, por causa da sua libido dominandi, acredita que pode se sobrepujar ao poder espiritual. Este é representado por um pastor fracote, Eli Sunday, que parece estar vivendo o tempo todo no domingo do Senhor; afinal, é o líder da Igreja da Terceira Revelação, que, como o próprio nome indica, é filhote direto dos milenaristas gnósticos dignos de um Joachim de Fiore.

Plainview e Sunday são, respectivamente, o mundo e o espírito em uma luta pelo poder, em que o primeiro tentará esmagar o segundo com todas as suas forças e, depois, com a ajuda do próprio pastor, que comete o pecado maior da apostasia. Quando Plainview berra a Sunday em seu combate final que ele é a Terceira Revelação, eis aí alguém que fala a verdade cruel: Plainview é o Leviatã de Thomas Hobbes transformado em realidade, um homem que não confia em ninguém, que usa os outros e que se isola cada vez mais em uma autodestruição sobre a qual não tem controle algum. Mas isso só acontece porque o representante do espírito se vendeu ao mundo, negou a sua própria vocação. De certa forma, There Will be Blood vai além de No Country for Old Men The Counselor porque ousa ir às últimas conseqüências; sua conclusão lógica é de que, se quem representa o espírito insistir na sua fraqueza, o resultado será o fim do Cristianismo. É como dizia São João Crisóstimo: a culpa de não termos mais cristãos é dos próprios cristãos. Os filmes dos Coen e de Anderson e os escritos de McCarthy mostram exatamente esse problema. Quando os representantes do espírito e da integridade moral fraquejam, como mostram os exemplos do pastor Eli Sunday, do Xerife Bell e do advogado que entra voluntariamente no mundo do crime, podemos esperar mais do que sangue; podemos esperar também choro, ranger de dentes – e que todos ficarão à mercê do próximo bolito que agarrará os nossos pescoços sem misericórdia.

Martim Vasques da Cunha

Autor de Crise e utopia: O dilema de Thomas More (Vide, 2012) e A poeira da glória (Record, 2015). Pós-doutorando pela FGV-EAESP.