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Não há consolo maior que o desconsolo

por Lucas Petry Bender (24/08/2019)

Os protagonistas de Houellebecq têm arroubos momentâneos de pulsões místicas, como se procurassem ar para respirar para além do vácuo de suas bolhas.

“Serotonina”, de Michel Houellebecq (Alfaguara, 2019, 240 páginas)

“Não há consolo maior que o desconsolo, como não há esperança mais criadora que a dos desesperados. Os homens buscam a paz, diz-se. Mas será isso verdade? É como quando se diz que os homens buscam a liberdade. Não, os homens buscam a paz em tempo de guerra e a guerra em tempo de paz; buscam a liberdade quando sujeitos à tirania e buscam a tirania quando vivem a liberdade”.
(Miguel de Unamuno, A Agonia do Cristianismo)

 

Em A Imaginação Liberal, publicado em 1950, o crítico e professor universitário norte-americano Lionel Trilling defende o pensamento de Freud contra as suposições de que ele adotara uma visão simplista sobre a natureza humana, argumentando que o célebre psicanalista revelou o “nó inextricável de cultura e biologia” que define o homem, que carrega “uma espécie de inferno no seu íntimo, do qual surgem os duradouros impulsos que ameaçam sua civilização”.

Por mais questionável que seja atribuir a Freud uma intuição que as grandes tradições religiosas e artísticas já possuíam há séculos, o fato é que sua obra e seus desdobramentos influenciaram a cultura e o imaginário do século XX, trazendo à tona a imagem do homem definido por sua “faculdade de imaginar para si, no campo do prazer e da satisfação, mais do que possivelmente conseguirá ter. Tudo o que ganha, ele paga em uma proporção aumentada; o compromisso e a composição com a derrota constituem sua melhor maneira de lidar com o mundo”, conforme definido por Trilling, que conclui: “Suas [do homem] melhores qualidades são o resultado dessa luta, cujo resultado é trágico”.

É no rescaldo dessa luta que o francês Michel Houellebecq adentra o século XXI com sua literatura, sua imaginação moral (ou sua simples humildade, como observou Pedro Sette-Câmara), seus personagens compromissados com a derrota, embora talvez não tenhamos mais a convicção de que as melhores qualidades do homem continuam sendo frutos de sua tragédia existencial.

Em Serotonina, o próprio título já indica que o efeito dos antidepressivos assume um tamanho protagonismo na vida hodierna, que nos resta questionar o que sobrou da luta do homem consigo mesmo e com o mundo; questionar, a partir do que a ficção de Houellebecq revela sobre a nossa condição, o que resta de humano no nó inextricável de cultura e biologia que nos define.

Combate além da conta

Acompanhamos a vida de Florent-Claude, 46 anos, funcionário do Ministério da Agricultura, que rumina as lembranças de seus fracassados relacionamentos amorosos enquanto busca razões para continuar vivendo, amparado no uso de antidepressivos. Ponderando com honestidade e sem autopiedade o seu passado, buscando uma forma de anonimato e isolamento no presente, e projetando um futuro sem nenhuma esperança de felicidade, apenas de “escapar da pura e simples demência”, Florent-Claude é uma variação do típico protagonista houellebecquiano, que encarna o cansaço e o esgotamento de parte significativa da cultura ocidental.

Seu cansaço existencial e o esgotamento de suas potências criativas – abordadas por Houellebecq com franqueza e lucidez, mas também com certas doses de sarcasmo e de ironia que rendem algumas boas (e desesperadas) risadas – poderiam ser efeitos da luta trágica aludida por Trilling, mas o que vemos é um indivíduo exaurido sobretudo pelo tédio, pelo alheamento, pela ausência de qualquer coisa que valha o seu engajamento, a sua confiança, a sua dedicação.

Sua falta de entusiasmo parece justificada diante de certo fatalismo transcendental – “o terceiro milênio havia acabado de começar, e era talvez, para o Ocidente antes qualificado de judaico-cristão, o milênio além da conta, no mesmo sentido em que se fala de um combate além da conta para um boxeador”, reflete Florent-Claude. Mesmo quando pensa nas duas mulheres que amou verdadeiramente, e percebe que se distanciou delas por motivos incompreensíveis, resta um amargor e uma frustração muito mais afeitos a uma debilidade fatalista, simultaneamente pessoal e impessoal, do que a uma derrota nas circunstâncias concretas da vida.

Entusiasmo é artigo raro na caracterização dos protagonistas houellebecquianos; mesmo quando aparece no engajamento ao turismo sexual em Plataforma, ou na apreciação da literatura em Submissão, tem um sentido vicário ou escapista que permanece impermeável à realidade, como se o próprio indivíduo já desconfiasse de antemão que seu entusiasmo está fadado a desaparecer sem deixar rastros, sem deixar frutos ou raízes.

Nesse sentido, o uso de antidepressivos aparece como um recurso natural e normalizado, uma espécie de atalho que evita as penosas travessias pelas frustrações – mas que, por outro lado, anestesia o entusiasmo, ou domestica-o dentro de certos limites funcionais que permitam levar uma vida adiante, embora sem sentido – como mais uma das “coisas que ajudam a viver mas não transformam a vida em destino”.

Por mais solidários que sejamos com o sofrimento desse indivíduo, a ficção de Houellebecq nos provoca a questionar a pertinência dos atalhos, que terminam por abortar a luta agônica que engendra não apenas tragédias, mas também inesperadas alegrias. Um entusiasmo maduro, de posse de si, pode ser justamente o fator que transforma uma luta em bênção, uma agonia em bem-aventurança, uma tragédia em comédia (no sentido clássico, como algo que termina bem).

Desejo nenhum

Pode-se questionar o grau da ênfase que Houellebecq coloca no caráter vulgar e mesquinho do espírito ocidental atual, da social-democracia, do consumo e serviço massificados, da sociedade secular, da liberalização dos costumes – quem de nós seria capaz de abrir mão de todas as suas benesses? -, de como essa “civilização morre simplesmente de lassidão, de nojo de si mesma”, mas é evidente que o protagonismo de drogas como os antidepressivos indicam, no mínimo, que já não acreditamos que a luta possa valer a pena e, assim, revelar nossas melhores qualidades, em que pese a angústia provocada por nossa capacidade de imaginar e de querer mais do que conseguimos obter.

O que move a dinâmica do entusiasmo pela luta é o desejo, ou melhor, o drama do desejo, que também passa pelo crivo da consciência de Florent-Claude, não sem uma pitada de ironia:

Mas nesse momento eu não tinha nenhum desejo, o que muitos filósofos, pelo menos era a minha impressão, consideravam um estado invejável; os budistas estavam todos na mesma longitude de onda. (…) na verdade eu preferiria não ter mais corpo, o fato de ter um, de ser obrigado a lhe dar atenção e cuidados, me parecia cada vez mais insuportável. (p. 65)

A menção ao budismo acentua o contraste com a tradição espiritual e filosófica do Ocidente, em que o desejo tem papel preponderante, dinamizando a vida social e indicando ao indivíduo as coisas que movem o seu coração e, portanto, que lhe indicam por que vale a pena viver – reflexão que Florent-Claude encara com hesitação:

Desprovido tanto de desejos quanto de razões para viver (seriam equivalentes os dois termos?, era uma questão difícil, não tinha uma opinião formada a respeito), eu mantinha o desespero num nível aceitável.

É curioso observar como as rotinas automatizadas da vida cotidiana descritas por Houellebecq – seus protagonistas estão frequentemente lidando maquinalmente com aparelhos de micro-ondas, cafeteiras elétricas, comida congelada, TV a cabo – parecem acompanhar a desconfiança sobre o desejo e sobre o corpo, no sentido de serem veículos de uma praticidade e de um conforto estéreis, na medida em que poupam tempo e energia apenas para que sejam consumidos pelo tédio, aprofundando o desencantamento da vida.

Assim como o corpo dá muito trabalho para ser cuidado e o drama do desejo demanda grande atenção e disposição, o uso de aparelhagens automatizadas e de seus confortos domésticos parece corresponder àquele anseio pelo incorpóreo e pela imaterialidade, que procura separar absolutamente a dimensão material da espiritual. Sintomaticamente, é o comprimido de Captorix (o antidepressivo fictício) que se reveste de uma aura quase espiritual.

Agonia rediviva

Se é verdade que, como diz Peter Kreeft em Três filosofias de vida, a essência do inferno não é o sofrimento, mas a vaidade, ou seja, o caráter do que é vão, o vácuo de sentido, então podemos concluir que a opção pelo Captorix representa uma descida aos infernos, numa roupagem adaptada à sensibilidade do século XXI. O antidepressivo parece consumar o potencial vaidoso-infernal de vários elementos presentes na cultura contemporânea, como a televisão, a política, o binômio diversão&informação, o consumismo, o barulho, a falta de atenção, a ideologia, a religião humanista, o prazer vicário.

Bloqueia-se o sofrimento (essência do purgatório, conforme Kreeft) e, assim, fica-se privado do fruto da luta a que Trilling aludia. Bloqueia-se a inevitável dor de uma vida como destino e, assim, fica barrado o conhecimento agônico que engendra mais vida. Bloqueia-se o entusiasmo e, assim, o espírito vai definhando. É em oposição a esse inferno que os protagonistas de Houellebecq têm arroubos momentâneos de pulsões místicas, como se procurassem ar para respirar para além do vácuo de suas bolhas, pois, como expressado por Unamuno em A Agonia do Cristianismo, a mística é uma “espécie de metaerótica mais além do amor”.

Em Serotonina, como em outros romances de Houellebecq, esses incipientes despertares místicos ocorrem num contexto de viagem ao interior (geográfico, mas também da própria alma do personagem), que correspondem inclusive a um afastamento daquelas rotinas automatizadas, em direção a um contato mais direto e imediato com a realidade.

“Quem me lê pode sentir desespero, mas também a urgente expectativa de uma graça revivificante”, disse Houellebecq em entrevista. As recorrentes referências de cunho místico ou religioso que atravessam a sua obra – e que dão um surpreendente desfecho a Serotonina –, surgem dos recessos mais íntimos como forças profundamente enraizadas na natureza humana, contrapostas às ilusões de controle e administração da vida que estão implícitas na utilização de antidepressivos, de aparelhagens eletrônicas, de serviços ao consumidor, de artificialismos e de válvulas de escape da realidade. As necessidades do coração humano, nos mostra a ficção de Houellebecq, vão muito além das pulsões elementares e das coisas que ajudam a viver.

No entanto, tais necessidades nunca são completamente compreendidas – o coração tem razões que a própria razão desconhece, já disse um seu conterrâneo, Pascal –, nem o drama do desejo pode ser totalmente dominado. Não há nenhuma garantia de que a luta do homem vai revelar as suas melhores qualidades, mas tão somente de que vai revelar o seu verdadeiro nome. Livre do Captorix, pode ser que Florent-Claude passe noites em claro, lutando exaustivamente com um anjo – para então descobrir, grato e espantado, que a luta mesma é uma bênção.

Lucas Petry Bender

Servidor público, nascido em 1985, vive em Porto Alegre. Escreve sobre cinema em personacinema.com.br.