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A beleza sem tradução: O Adolescente, de Dostoiévski

por Lucas Petry Bender (12/05/2020)

Dostoiésvki não tem apreço pelas baixezas, vilanias e mesquinharias do homem, mas sim pela sua liberdade.

É conhecido um pequeno incidente biográfico que diz mais sobre a obra de Dostoiévski do que parece. O grande autor russo teria desmaiado diante de uma jovem beldade a quem fora apresentado, tamanha a impressão causada por sua beleza. Imediatamente somos levados a lembrar do enorme poder que a beleza feminina exerce sobre os personagens de Dostoiévski. Poder caracteristicamente ambíguo, como são as expressões humanas que compõem o universo do autor, mas que inevitavelmente põe em marcha episódios repletos de rivalidade, inveja, orgulho, obsessão, ressentimento e toda sorte de forças demasiado humanas que arrastam homens e mulheres para o caminho do conflito e da perdição. Em contrapartida, surge no coração dos grandes romances do autor o brilho delicado de uma beleza que, ora oculta, se revela em plena luminosidade, não raro nutrida em meio ao grotesco das paixões exaltadas.

Fala-se na Síndrome de Stendhal, perturbação física e mental causada pela beleza de grandes obras de arte ou de paisagens deslumbrantes, mas como poderíamos caracterizar essa síndrome de Dostoiévski, por assim dizer, que, de um lado, afirma que “a beleza salvará o mundo” (aforismo que remonta a O Idiota), e, de outro, faz desfalecer um homem apenas por ver-se diante de uma jovem encantadora? Que, por um lado, arrasta homens e mulheres para os mais ignóbeis desejos e rivalidades, por outro faz surgir o esplendor da criatura humana na simples visão de um sorriso, por exemplo, ou na contemplação de uma criança?

Invadido por uma luz nova

Em O Adolescente (Editora 34, 2015, tradução de Paulo Bezerra), considerado um dos cinco grandes romances da maturidade de Dostoiévski, publicado originalmente em 1875, acompanhamos o relato em primeira pessoa de Arkadi Dolgorúki. Aos 20 anos de idade, chega a São Petersburgo e reencontra seus familiares, motivado pela posse de uma carta que pode lhe ser muito vantajosa, a depender do grau de ambição com que for manipulada. Carrega-a costurada no forro da sobrecasaca, ao passo que traz na cabeça e na alma outro segredo, a sua obsessiva “ideia”: tornar-se milionário e plenamente independente, abandonando, em seguida, os familiares e amigos.

Ao longo do relato – narrado em retrospectiva, mas procurando preservar o calor e o sabor do momento, como esclarece o protagonista – vai se revelando o profundo desejo do jovem em buscar a aproximação e compreensão do seu pai verdadeiro, Viersílov, outrora rico proprietário e de origem aristocrática, mas com uma trajetória de vida confusa e obscura. Entre os muitos personagens que aparecem ao longo da narrativa – a propósito, o trabalho de excelência da Editora 34 conta com um muito oportuno índice de personagens – destaca-se a mãe de Arkadi, Sófia, e o pai de registro, Makar, ambos ex-servos de Viersílov. Não falta, é claro, a bela figura feminina que colocará inclusive pai e filho em rivalidade, a nobre Catierina Akhmákova. Mas o episódio que ora nos inspira ocorre no Capítulo 1 da Terceira Parte, quando o protagonista reencontra o velho Makar, legalmente o seu pai, mas com quem teve muito pouco contato.

Dotado da simplicidade e sabedoria com que Dostoiévski caracteriza suas mais elevadas criações – das quais o stárietz Zossima, de Os Irmãos Karamázov, é o melhor exemplo – Makar é um idoso que já não tem condições físicas de manter suas peregrinações, mas vivencia seus momentos derradeiros com fé, serenidade e alegria. O encontro com o jovem Arkadi ocorre quando estão ambos adoentados, hospedados em quartos contíguos.

O episódio inicia com Arkadi sozinho no quarto, ainda na cama, refletindo a seu modo irritadiço:

O tempo estava claro e eu sabia que depois das três, quando o sol estivesse declinando, um oblíquo raio vermelho cairia direto sobre o canto de minha parede e iluminaria esse lugar com uma mancha viva. Eu sabia disso por tê-lo observado nos dias anteriores, e o fato de que isso se daria infalivelmente dentro de uma hora e, sobretudo, que eu o sabia por antecipação como dois mais dois, irritou-me até à fúria.

A nota de repúdio contra a lógica, tipicamente dostoievskiana, ganha pungência com a rotina de solidão do jovem isolado no quarto, em que tudo o que é previsível provoca certa repugnância existencial. De repente,

Virei-me de corpo inteiro num gesto convulsivo e súbito e, no meio do silêncio profundo, ouvi com clareza as palavras: ‘Senhor Jesus Cristo, Deus nosso, tende piedade de nós’. Tinham sido pronunciadas num meio sussurro, foram seguidas de um profundo suspiro de peito inteiro e depois tudo voltou ao silêncio total. Soergui rapidamente a cabeça.

Arkadi vai ao quarto ao lado, onde, para sua enorme surpresa, depara-se com o velho Makar, que hospedara-se naquele local justamente durante a doença e inconsciência de Arkadi. Não se viam há vários anos, mas ambos ficam imediatamente magnetizados pela presença um do outro. O fascínio do jovem pela figura doce e serena do ancião rende quase duas páginas de uma verdadeira fenomenologia do sorriso, que é concluída com as seguintes frases:

(…) o riso é a amostra mais fiel da alma. Observem uma criança: umas crianças sabem rir com perfeição, por isso são sedutoras. Uma criança chorona é repugnante para mim, mas a que ri e se alegra é um raio do paraíso, uma revelação do futuro, de quando o homem enfim se tornará puro e cândido como uma criancinha. Pois bem, algo de infantil e incrivelmente encantador fez-se entrever também no riso fugaz daquele velho. Imediatamente eu me cheguei a ele.

Inicia-se um diálogo que terá profundas repercussões na vida interior e nas decisões pessoais do jovem Arkadi, do qual destaco o seguinte trecho:

(…) um ancião deve ir embora de um jeito bonito”, diz Makar. “Se recebe a morte com queixumes ou descontentamentos, isso também é um grande pecado. Bem, mas se foi por alegria espiritual que amou a vida, então suponho que Deus perdoará até mesmo um ancião. É difícil ao homem saber sobre qualquer pecado, o que é e o que não é pecado: é um mistério que ultrapassa o entendimento humano. Um ancião deve estar sempre contente em qualquer tempo, mas ele deve morrer com a mente em plena flor, de forma ditosa e bela, farto dos dias, exalando sua última hora e regozijando-se por partir, como uma espiga num feixe de trigo depois de completado o seu mistério.

Arkadi fica especialmente intrigado com o que poderia significar o tal “mistério”, e pergunta o seu significado, ao que Makar responde:

Tudo é mistério, meu amigo, em tudo está o mistério de Deus. Em cada árvore, em cada talo de erva encerra-se esse mistério. Se um pequeno passarinho canta, se uma multidão de estrelas brilha à noite no céu; tudo é só mistério, o mesmo mistério. Mas o maior de todos os mistérios está em que a alma do homem é esperada no outro mundo. É só isso, meu amigo.

Um tanto desconcertado com o que parece simplório demais aos seus olhos, Arkadi cautelosamente passa a arrolar as conquistas da ciência moderna e o modo como desvendou-se tudo o que parecia constituir mistério. O velho Makar responde com paciência e de modo afetuoso, demonstrando que conhece os avanços científicos, e, inclusive, relatando as oportunidades em que observou através de um microscópio. “E quanto ao mistério” – continua o ancião – “é até melhor que exista: é um pavor para o coração e uma maravilha, mas esse pavor alegra o coração: ‘Tudo está em ti, Senhor, e eu mesmo estou em ti, recebe-me!’ Não te queixes, jovem: a coisa é ainda mais bela porque é mistério”.

Extremamente comovido com a conversa, “com a alma em lágrimas”, o jovem retorna ao seu quarto e reflete sobre a inquietação interior que o inesperado encontro lhe proporcionou:

Estava deitado com o rosto contra a parede e de repente vi num canto a mancha viva e luminosa do sol poente, aquela mesma mancha que ainda há pouco eu esperava maldizendo tanto, e lembro-me de que toda a minha alma pareceu rejubilar-se e algo como uma luz nova me invadiu o coração. Recordo-me desse doce momento e não quero esquecê-lo. (…) ‘Neles não há beleza!’. Está acabado, pensei em minha exaltação, a partir deste momento vou procurar a beleza, eles não a têm, por isso os deixo.

A beleza oculta

Mais do que um episódio dotado de uma beleza transcendente que Dostoiévski alcança como poucos, é um momento de profundo sentido na trajetória de amadurecimento do jovem protagonista, e, por extensão, de brilhante impacto na interioridade do leitor, potencializado por acompanharmos Arkadi desde a sua perspectiva subjetiva, narrada em primeira pessoa. A obsessiva ideia que o jovem alimentava – enriquecer para então abandonar a todos –, sofre uma alteração, ainda que parcial; agora, trata-se de perseguir a beleza, e, como não a encontra nos seus familiares e amigos, vai deixá-los. Na prática, isso significa que Arkadi decide utilizar a famigerada carta que carrega em segredo de outro modo, alterando a perspectiva gananciosa que nutria, e buscando ele próprio ser capaz de um gesto de generosidade, desprendimento, longanimidade – vai procurar a beleza, em suma.

Nesse ínterim, ocorre um irônico lapso na tradução de Paulo Bezerra, que vale mencionar pelo valor simbólico que possui diante da nova busca de Arkadi. No encontro seguinte entre o jovem e o ancião, novamente no quarto, Arkadi esclarece o leitor sobre a agitação que sentiu ao ouvir novamente “a mesma palavrinha fatal que tanto me eletrizara na véspera”; segue-se a fala do ancião, preenchendo toda uma página, e o leitor não sabe ao certo qual seria a tal “palavrinha fatal”. Mais à frente, o próprio Arkadi esclarece que se trata de “beleza”. Tal palavra, entretanto, não ocorre na fala em questão do ancião, pois o tradutor acabou preferindo a palavra “encanto” – porém, dessa forma, perdeu-se a palavra-chave da nova perspectiva de Arkadi:

Makar Ivánovitch, o senhor tornou a usar a palavra ‘beleza’, e eu, justo ontem e por todos esses dias, andei atormentado com essa palavra… Aliás, andei atormentado a vida inteira, só que antes não sabia com quê. Acho essa coincidência de palavras fatídica, quase maravilhosa….

A questão está em que justamente essa fatídica coincidência de palavras não ocorre na tradução, pois as palavras belo ou beleza não voltam a ser usadas por Makar. Desconhecendo o idioma russo, não posso afirmar categoricamente que o lapso não seja do próprio Dostoiévski, mas, nesse caso, uma nota do tradutor prestaria o devido esclarecimento. Ademais, na tradução direta do russo para o inglês, feita por Constance Garnett, ocorre a coincidência da palavra – “seemliness”, no caso –,  demonstrando inclusive um cuidado especial por parte da tradutora, pois buscou um vocábulo que ao longo de todo o livro ocorre apenas no contexto das falas de Makar e da consequente ideia que Arkadi passa a cultivar. Na tradução para o espanhol consultada, também ocorre a coincidência das palavras “belleza” e “bello”.

Não há grande prejuízo ao leitor, pois o vocábulo retorna ao contexto após o lapso, mas é significativo – pode-se dizer que é uma coincidência fatídica – que justamente a palavra mais emblemática e carregada de uma ambivalência decisiva para os rumos do romance, tenha se perdido ou se ocultado na tradução. A descoberta da beleza, por assim dizer, torna-se a nova obsessão de Arkadi:

(…) queria deixar a companhia deles e de toda a sociedade em nome da ‘beleza’! A sede de beleza era suprema e isso, claro, é verdade, mas de que modo ela podia combinar-se com outras sedes – sabe Deus quais – é um mistério para mim. Aliás, sempre fora um mistério e milhares de vezes eu me havia surpreendido com essa capacidade que tem o homem (e, pelo visto, principalmente o homem russo) de acalentar na alma o mais elevado ideal ao lado da maior torpeza, e tudo com a mais plena sinceridade.

Belos e desprezíveis

O Adolescente oferece ao leitor uma privilegiada perspectiva, em primeira pessoa, do processo através do qual Dostoiévski encaminha a libertação do personagem de seus vícios, ainda que de modo precário e nunca definitivo, ao mesmo tempo em que esses vícios são aprovados, por assim dizer, em suas últimas consequências, pois são a manifestação da liberdade individual do personagem. Liberdade que, do ponto de vista do autor, não se confunde com autonomia metafísica; pelo contrário, é percebida como a contrapartida individual de uma realidade superior, que transcende todas as individualidades, mas que implica na responsabilização pessoal e na aceitação da realidade como algo que nunca se esgota no âmbito da ação e reflexão humanas.

É nessa encruzilhada que surge o flerte com o niilismo, sempre presente nas grandes criações de Dostoiévski, todavia superado pelo processo de redenção, outro pilar fundamental do universo do autor, pois a liberdade aí encontrada precisa ser conquistada de dentro para fora – a custo de muito sofrimento pessoal –, e não como adesão a uma moralidade exterior, a um sistema lógico ou a uma idealização. Ao contrário do que uma leitura pouco madura pode levar a concluir, Dostoiésvki não tem apreço pelas baixezas, vilanias e mesquinharias do homem, mas sim pela sua liberdade – em última instância, a liberdade de confrontar a imperfeição da vida humana com ressentimento, rebeldia e presunção, ou de vivenciá-la com o espírito de abertura ao mistério da existência do homem e do mundo. Na passagem anteriormente descrita, tais posturas existenciais estão representadas nos dois momentos em que Arkadi se depara com a mancha de sol na parede: primeiro, com frustração diante de uma realidade que se mostra previsível, maquinal, enfadonha, esquematizada; em seguida, ao retornar ao quarto após o encontro com Makar, com a serena alegria da aceitação da realidade inefável.

Nesse mesmo sentido, no ensaio O Ponto de Vista dos Russos, Virginia Woolf expressa da seguinte forma os elementos essenciais da literatura de ficção russa:

Somos almas, almas torturadas, infelizes, cuja única ocupação é falar, revelar, confessar, extrair de toda e qualquer laceração de carne e nervo aqueles pecados obscuros que rastejam no fundo de nós. Mas, enquanto ouvimos, nosso tumulto aos poucos se acalma. Uma corda nos é arremessada; (…) A alma é o que interessa, sua paixão, seu tumulto, sua mistura desconcertante de beleza e vilania. (…) Os homens são ao mesmo tempo vilões e santos; seus atos são a uma só vez belos e desprezíveis. Amamos e odiamos ao mesmo tempo. (“O Leitor Comum”, ed. Graphia, pág. 86)

A beleza que Arkadi vê refletida no velho Makar começa a operar uma espécie de graça na consciência do jovem recalcitrante, inclusive abrindo-o à perspectiva de perceber e aceitar as duplicidades e contradições da natureza humana – de “acalentar na alma o mais elevado ideal ao lado da maior torpeza”, que é praticamente uma súmula da literatura de Dostoiévski.

Neste particular das contradições que formam a natureza humana e dominam a vida interior dos personagens, o pouco lembrado romance O Adolescente oferece farto material para reflexão, a começar pela primeira frase do livro, que já contém uma contradição: “Sem conseguir me conter, dei início à história dos meus primeiros passos pela vida, ainda que até pudesse deixar de fazê-lo”. O universo interior de Arkadi é permeado por contradições como essa, de não conseguir se conter embora pudesse fazê-lo, passando pelos sentimentos ambíguos em que mal se distingue amor de ódio, e chegando aos atos que o próprio personagem considera simultaneamente absurdos e lógicos.

O sobrenome do protagonista, inclusive, engendra esse tipo de confusão, pois Dolgorúki designa uma família da realeza russa de enorme importância histórica, embora não haja vínculo genealógico com a origem de Arkadi, o que é motivo de frequentes mal-entendidos e humilhações. Considere-se, ainda, que o jovem é filho bastardo, o que agrava a situação. É significativo, nesse sentido, que a busca pela aproximação com Viersílov, seu pai verdadeiro, acabe dando espaço ao inesperado e transformador encontro com o seu pai de registro, o velho Makar, que acaba se mostrando a verdadeira figura paterna pela qual Arkadi ansiava, embora não o soubesse conscientemente.

A impossível síntese

Se é verdade que o tema das contradições e duplicidades da personalidade foi precipuamente abordado no romance O Duplo, de 1846 – e embora esteja presente em praticamente toda a obra do autor –, em O Adolescente Dostoiévski trabalha-o com maior maturidade, pavimentando o caminho para o seu romance seguinte, a obra-prima Os Irmãos Karamázov, que leva ao paroxismo a dinâmica entre a grandeza e a miséria humanas. A seguinte fala de Viersílov a Arkadi, por exemplo, evidencia as aporias existenciais que estão no cerne da literatura do autor, e que aqui são vivenciadas intensamente por uma personalidade em plena formação:

Meu amigo, amar as pessoas como são é impossível. E no entanto é necessário. (…) Procura saber desprezar até quando elas são boas, pois o mais das vezes são ao mesmo tempo ruins. Oh, meu querido, eu te digo isso julgando por mim mesmo! Quem não é minimamente tolo não pode viver sem desprezar a si próprio, seja honesto ou não – tanto faz. Amar o seu próximo e não desprezá-lo é impossível. A meu ver, o homem foi criado com a impossibilidade física de amar o seu próximo. (pág. 228)

Adiante, quando Arkadi encontra-se a sós com a bela Catierina Akhmákova, a expressão do seu encantamento confunde-se com a extrema perturbação – “Não consigo aguentar o seu sorriso!” –, lembrando o episódio que abriu este ensaio. Arkadi não desfalece diante da moça, como teria acontecido com Dostoiévski, mas sua alma absorve febrilmente a realidade da contradição que reside em todos os aspectos da vida – complexidade que, de um lado, obscurece a busca pela beleza que Arkadi passa a empreender, e, de outro lado, ajuda-o a amadurecer e superar ilusões contrapostas ao mistério essencial que constitui a realidade.

Algo do assombro diante das contradições da condição humana e do mistério da realidade parece se plasmar e se reconciliar apenas no mundo dos sonhos, outro elemento que surge em diversas obras do autor, e que se faz notável em O Adolescente. Pode-se imaginar a empolgação de Sigmund Freud ao se deparar com um parágrafo como esse, por exemplo:

Maldito sonho! Juro que antes desse sonho abominável não me passara pela mente algo nem parecido com esse pensamento vergonhoso! (…) Isso quer dizer que tudo já surgira há muito tempo e jazia em meu coração devasso, jazia em meu desejo, mas, em estado de vigília, o coração ainda se envergonhava e a mente não havia concebido de forma consciente algo semelhante. Mas no sonho a própria alma concebia e trazia à tona tudo o que havia no coração, com total precisão e no panorama mais completo – e também em forma profética. (pág. 400)

A respeito das aporias existenciais que se expressam na contradição e na duplicidade do caráter humano, bem como no exercício da sua liberdade, o excelente estudo crítico Dostoiévski: do duplo à unidade (Ed. É Realizações, 2011), de René Girard, percorre toda a obra do autor russo e demonstra de que forma os seus romances da maturidade, incluindo O Adolescente, superam certa mistificação idealista das obras iniciais, fazendo a transição da “mentira romântica à verdade romanesca”, para mencionar outra obra do crítico francês. Aponta Girard:

Todas as obras do período romântico, com exceção parcial de O Duplo, apenas refletem uma dualidade que as obras geniais revelam. (…) As duas metades da consciência do subsolo reuniram-se. Não é a impossível síntese que o escritor apresenta, mas a justaposição dolorosa no seio do mesmo indivíduo. Essas duas metades dominam, alternadamente, a personalidade do infeliz herói, determinando o que os médicos denominariam seu temperamento cíclico. A obra que revela a divisão é uma obra que reúne. (pág. 58, grifos do autor)

Aquela coisa inexprimível

Em certo momento de O Adolescente, Arkadi ouve de um amigo bastante sensível à literatura a descrição de uma passagem de A loja de antiguidades, de Charles Dickens, em que uma menina contempla o crepúsculo junto a uma catedral. “Sabe, não há nada de excepcional nessa cena em Dickens, absolutamente nada”, diz o amigo, “mas isto você não esquecerá pelo resto da vida e ficou gravado na lembrança de toda a Europa – por quê? Eis a maravilha! Aí reside a inocência! Eh! Não sei o que reside aí, só sei que é belo”. Não sabemos se a Europa ainda guarda lembrança de tão sutil e delicada beleza, mas podemos dizer que o leitor atento de O Adolescente não deverá esquecer tão cedo a mancha luminosa na parede do quarto de Arkadi.

Não posso deixar de rir dos estetas – disse Goethe – que se martirizam tentando resumir em um conceito, mediante algumas palavras abstratas, aquela coisa inexprimível para a qual utilizamos a palavra belo. O belo é um fenômeno primevo que jamais se manifesta ele próprio, mas cujo reflexo se torna visível em milhares de diferentes expressões do espírito criador, e é tão vário e múltiplo quanto a própria natureza. (“Conversações com Goethe nos últimos anos de sua vida”, Johann Peter Eckermann, ed. Unesp, 2016, p. 583)

Inspirados por Dostoiésvki, damos razão a Goethe: o reflexo da luz do sol na parede do quarto é mais do que podemos traduzir; é a imagem de algo indizível que, assim esperamos, salvará o mundo. A beleza pode até se esconder na tradução, mas voltará a aparecer, banal e radiante como uma mancha de sol na parede.

Lucas Petry Bender

Servidor público, nascido em 1985, vive em Porto Alegre. Escreve sobre cinema em personacinema.com.br.