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O invulgar monumento literário de João Gilberto Noll

por Rafael Bán Jacobsen (30/03/2017)

Noll personifica como poucos a máxima de que “um escritor está sempre escrevendo o mesmo livro”.

João Gilberto Noll (1946-2017)

Falecido no último 29 de março, o escritor gaúcho João Gilberto Noll deixa uma obra singular, profundamente idiossincrática, corpo estranho na cena da literatura brasileira contemporânea. Mesmo agora interrompida, a bibliografia do autor, por certo, seguirá oferecendo desafios e inesgotáveis provocações para os leitores em geral e, sobretudo, para a crítica especializada.

Entre os elementos que qualificam suas narrativas, tornando-as surpreendentes e esteticamente primorosas, podemos destacar quatro características que, nas mãos de escritor menos competente, constituiriam defeitos, e não qualidades.

A primeira é uma questão geral de estilo: nos livros de Noll, há muito de prosa poética, esse universo tantas vezes pantanoso, sob cujas nebulosidades costumam se esconder escribas sem talento, encobrindo todos seus defeitos atrás de uma retórica enigmática. No caso de Noll, as abundantes figuras de linguagem, o ritmo cadenciado (que não raro lembra o de uma oração) e a atmosfera onírica não são afetações ou escudos: estão a serviço do enredo, afinados com a construção das personagens e coerentes com o transbordamento de um tempo psicológico que escorre sobre o cronológico até, por fim, suplantá-lo.

No campo do microestilo, encontra-se o segundo elemento: uma construção frasal caudalosa, alicerçada em longos períodos, enovelando e desafiando as possibilidades oferecidas pela sintaxe. Para um amador na arte da escrita, talvez seja, de fato, um bom conselho praticar a contenção, o despojamento, cortar e enxugar o texto ao seu limite. Em Noll, porém, não há lugar para a prosa seca, o estilo cortante, telegráfico, porque Noll é mestre. Nele, as palavras abundam, vêm em longo fluxo, uma puxando a outra – às vezes, em jorro, feito vômito sufocado; outras, em pulsos entrecortados, como a respiração ofegante de quem experimenta prolongada agonia.

A onipresença temática das relações homoeróticas e, mais precisamente, a forma como o escritor as transforma em matéria de ficção constituem uma terceira característica que se soma para erigir o invulgar monumento literário de João Gilberto Noll. Nas últimas décadas, em especial dos anos 2000 para cá, assistimos a um fortalecimento da voz das minorias, cada vez mais engajadas na luta por direitos e na denúncia das desigualdades e opressões. Entre os gays, não foi diferente. Contudo, a literatura de Noll não se preocupa com nada disso: não há causa, não há bandeira, não há qualquer tipo de libelo. Ali, a homossexualidade é tão somente uma realidade humana para as personagens, uma experiência íntima que, a exemplo de qualquer outra, é simplesmente vivida e pode conduzir à glória ou à ruína, ao êxtase ou ao martírio. Assim, no contexto de uma sociedade e de um sistema intelectual que cobra (sempre e cada vez mais) algum tipo de posicionamento político, uma análise mais apressada da forma como esse tema surge nas narrativas de Noll poderia gerar a crítica de que se trata de uma prosa alienada – não encastelada em uma torre de marfim, mas em uma torre de brumas. Todavia, colocar o homoerotismo como dado, sem problematizações, e usá-lo como postulado para criação de todo um universo literário talvez seja a postura mais subversiva que existe.

Por fim, considerando aspectos estilísticos e temáticos em conjunto, é incontestável que Noll personifica como poucos a máxima de que “um escritor está sempre escrevendo o mesmo livro”. Com efeito, desde os escritos do anos 80, como Hotel Atlântico, até o seu último romance, Solidão continental, Noll se manteve tão coerente com seu particular projeto de fazer da literatura uma espécie de rito de expiação que, muitas vezes, temos a sensação de déjà-vu durante a leitura: repetem-se vozes, repetem-se dicções, repetem-se dilemas, repetem-se cenas, repetem-se imagens. Conseguimos enxergar as personagens de um livro migrando com naturalidade para outro; não há sobressalto em imaginar a voz de um narrador articulando o enredo de outro romance; especialmente na sequência de romances que vai de Berkeley em Bellagio (2002) até Solidão continental (2012), é possível intercambiar longos trechos dessas obras, inserindo trechos de uma dentro da outra, o que só recrudesce a noção de que a literatura de Noll é quebra-cabeça. Na maioria dos casos, essa repetição, esse tom monocórdio, essa obsessão na arquitetura dos textos poderia evidenciar limitação de recursos; porém, no caso de Noll, tais características funcionam muito mais como as poucas notas de uns poucos temas e com uns poucos acordes funcionam nas mãos de um músico do quilate de Philip Glass ou Arvo Pärt. Assim é Noll: literatura em ostinato, sempre circular, mas que, como as ondas formadas por uma pedra que cai em lago tranquilo, alarga-se mais e mais, expandindo-se em direção a um limite – ou margem – que parece não existir.

João Gilberto Noll já não está fisicamente entre nós. A rigor, poucas vezes esteve: sempre recluso, não era figura fácil nos círculos literário e, mesmo quando presente, era discreto, silencioso, quase invisível. Talvez seja esta a constatação que nos resta: Noll jamais quis ser um escritor, queria ser – isto sim – a sua própria obra, algo imaterial, inesgotável e fantasmagórico, e que para sempre estará aí para nos assombrar.

Rafael Bán Jacobsen

Físico da UFRGS e escritor. Seu romance Uma leve simetria (2009) foi finalista do Prêmio Açorianos.

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