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O anacrônico Murilo Rubião

por Rafael Bán Jacobsen (28/12/2016)

O verdadeiro ambiente das narrativas é o fastio dos subúrbios e das pequenas cidades, e o personagem predileto é o homem comum.

“Obra completa”, de Murilo Rubião (Companhia das Letras, 2016, 288 páginas)

Em um texto publicado na revista Leitura, do Rio de Janeiro, em 1949, o escritor Murilo Rubião esboçou uma espécie de autorretrato:

Meu pai, homem de boa cultura humanística, era filólogo e pertenceu à Academia Mineira de Letras. Escrevia com rara elegância, apesar de gramático. Dele herdei a timidez e um certo ar cerimonioso, que me tem privado da simpatia de numerosas pessoas. Algumas delas mulheres, o que é lamentável. (…) Como escritor, alcancei algum êxito na burocracia das letras. (…) Sete anos levei para escrever e publicar o meu primeiro livro “O ex-mágico”. Nem por isso ele saiu melhor. Comecei a ganhar a vida cedo. Trabalhei em uma baleira, vendi livros científicos, fui professor, jornalista, diretor de jornal e de uma estação de rádio. Hoje sou funcionário público. Celibatário e sem crença religiosa. Duas graves lacunas do meu caráter. Alimento, contudo, sólida esperança de me converter ao catolicismo antes que a morte chegue. Muito poderia contar das minhas preferências, da minha solidão, do meu sincero apreço pela espécie humana, da minha persistência em usar pouco cabelo e excessivos bigodes. Mas o meu maior tédio é ainda falar sobre a minha própria pessoa.

O tom desapaixonado e quase cínico, de quem olha a própria vida em retrospecto com grande dose de autoescárnio e derrotismo, parece pouco condizente com os trinta e três anos de idade que o escritor mineiro tinha ao redigir essas linhas, dois anos após ter estreado em livro. A inflexão burocrática desse pequeno relatório de características pessoais soa ainda mais paradoxal ao ser confrontada com a obra que seu autor legou à literatura brasileira: um conjunto de apenas trinta e três contos, escritos e reescritos obsessivamente ao longo de todos os seus setenta e cinco anos de vida e que constituem uma pioneira manifestação da literatura fantástica no Brasil, narrativas repletas de seres mágicos, animais falantes, estranhas metamorfoses, ocorrências sobrenaturais – enfim, todo um rol de ingredientes que, se ainda hoje são capazes de causar estranhamento no cenário predominantemente realista de nossas letras, ainda mais exuberantes pareceram aos seus primeiros leitores.

A publicação de Obra completa marca o centenário de nascimento do autor e proporciona um reencontro com a sua narrativa original e que viria a abrir caminho para escritores como José J. Veiga e Moacyr Scliar.

Os contos de Rubião, embora escritos espaçadamente ao longo de cinco décadas, mantêm coesão e unidade, tanto no plano da urdidura narrativa quanto no plano da linguagem, consequência do trabalho de um autor fidelíssimo à sua proposta estética e à sua visão de mundo. A uniformidade da produção manifesta-se até mesmo nos pequenos detalhes, como a similar extensão dos contos e a onipresença de versículos bíblicos como epígrafes (excertos do Velho Testamento, em sua maioria, com predileção pelos livros proféticos e poéticos). O comportamento quase obsessivo do autor, criando e recriando inúmeras vezes um pequeno conjunto de textos (quiçá em busca de uma perfeição inalcançável), lembra o caso do grego Konstantinos Kaváfis, cuja obra se resume a 154 poemas, rescritos durante toda a vida. De fato, Murilo Rubião republicou seus contos em diversos veículos, em distintas versões, em diferentes épocas. Um dos mais conhecidos, o clássico “O ex-mágico da Taberna Minhota”, por exemplo, apenas em jornais e revistas, teve sete versões publicadas pelo autor entre o ano de 1943 e 1964.

Se a postura de anacoreta e prematuro ancião, somando-se e opondo-se à sua verve extravagante, atraíram sobre ele, em seu tempo, o estereótipo de homem (e artista) anacrônico, tal rótulo ganha novas tintas para o público de hoje justamente por causa dessa postura peculiar de Murilo Rubião perante o próprio texto: em um mercado editorial que é cada vez mais regido pela lógica de mercado, preconizando que um escritor publique pelo menos um novo livro a cada ano para “fidelizar o leitor”, figuras como Rubião parecem seres imaginários, de outra época e de outro mundo, criatura obstinada, perfeccionista e pouco produtiva, com ínfima chance de sobrevivência na roda-viva de nosso sistema literário contemporâneo. Hoje, mais do que nunca, é um alento fruir das criações de um escriba parcimonioso, que fez da lapidação do texto uma missão de vida, e não apenas um discurso bonito para vender livros, e que, além disso, foi um pensador original, com ousadia suficiente para se entregar a um projeto literário e a um universo singulares quando todos os seus pares navegavam em outras águas.

Especialmente notável é o fato de que, ao publicar seus primeiros contos, Murilo Rubião não conhecia a literatura de Franz Kafka e, mesmo assim, invocou temas, imagens e uma sobriedade de linguagem que o aproximam do autor tcheco. Assim como Kafka, Rubião descreve situações e personagens bizarras para falar justamente do seu avesso, ou seja, invoca elementos insólitos para radiografar, no subtexto, tudo que há de mais ordinário e comezinho na vida dos homens: a monotonia do dia-a-dia, que drena todos os sonhos e expectativas (“O ex-mágico da Taberna Minhota”); a facilidade de sucumbir aos vícios e à corrupção (“Os dragões” e “Teleco, o coelhinho”); a consciência nulificadora da morte (“O pirotécnico Zacarias”); os amores da juventude, tidos como inextinguíveis, que com facilidade o tempo apaga (“Os comensais” e “Memórias do contabilista Pedro Inácio”); a inescapável solidão, mesmo em meio à efervescência de interações sociais (“O convidado”); a arbitrariedade dos pactos e das convenções a que chamamos de “justiça” (“Botão-de-Rosa”); o jogo de mesquinharias que vem na esteira da separação de um casal (“O bloqueio”); a supervalorização da paternidade e da maternidade como sinônimos de ventura (“Aglaia”); a tentação e os perigos das falsas amizades (“O bom amigo Batista”); os limites (por vezes tênues) entre sanidade e doença (“O lodo”).

Ainda que tudo de mais exótico possa ser encontrado nos contos de Murilo Rubião, o verdadeiro ambiente das narrativas é o fastio dos subúrbios e das pequenas cidades, e o personagem predileto é o homem comum: o atuário, o rábula, o funcionário público. E é precisamente do choque entre esses dois domínios antagônicos, o do extraordinário e o do banal, que o autor extrai a formidável tensão polarizadora que caracteriza seus contos: o surpreendente se torna ainda mais maravilhoso, e o corriqueiro se torna ainda mais banal.

Talvez a mais transparente ilustração desse efeito esteja em “O ex-mágico da Taberna Minhota”, que relata o desespero de um homem que tem o irrenunciável dom do sortilégio e que, a partir de certo momento de sua vida, passa a ter dificuldades em lidar com isso:

Com o crescimento da popularidade a minha vida tornou-se insuportável. Às vezes, sentado em algum café, a olhar cismativamente o povo desfilando na calçada, arrancava do bolso pombos, gaivotas, maritacas. As pessoas que se encontravam nas imediações, julgando intencional o meu gesto, rompiam em estridentes gargalhadas. Eu olhava melancólico para o chão e resmungava contra o mundo e os pássaros.

O protagonista narrador conclui que o único modo de pôr fim ao seu desgosto é o suicídio; porém, todas as suas tentativas de buscar a morte são frustradas pela própria magia:

Em casa, estendido na cama, levei a arma ao ouvido. Puxei o gatilho, à espera do estampido, a dor da bala penetrando na minha cabeça. Não veio o disparo nem a morte: a máuser se transformara num lápis.

Por fim, o personagem percebe que a mais palpável maneira de morrer é se deixar tragar por uma vida ordinária:

Ouvira de um homem triste que ser funcionário público era suicidar-se aos poucos. Não me encontrava em condições de determinar qual a forma de suicídio que melhor me convinha: se lenta ou rápida. Por isso empreguei-me numa Secretaria da Estado.

Nos contos de Murilo Rubião, o fantástico e o comum entrelaçam-se em uma prosa repleta de ironia aguda e refinada. Com efeito, sua pequena obra – completa em si mesma, anacrônica porque atemporal – magnifica toda a pequenez humana.

Rafael Bán Jacobsen

Físico da UFRGS e escritor. Seu romance Uma leve simetria (2009) foi finalista do Prêmio Açorianos.

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