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Os devotos de São Lula e o Mecanismo

por Paulo Roberto Silva (26/03/2018)

Reação de militância à série da Netflix comprova adesão a duplipensar pró-corrupção.

Na última sexta-feira estreou na Netflix a série O Mecanismo, de José Padilha, uma reconstrução ficcional da Lava Jato. Imediatamente, o crítico de cinema Pablo Villaça, conhecido por seu alinhamento ao petismo, anunciou que cancelaria a assinatura da Netflix, no que foi seguido pela militância. Exceto pelo Lula, a conta dele está no nome de um amigo.

Do ponto de vista meramente formal, a série não é lá grande coisa. É arrastada, mesmo no formato mais curto de oito episódios. E tem aqueles tiques típicos do Padilha, como o narrador que trata a audiência como burra e o protagonista que lembra o Capitão Nascimento. Mas dá para o gasto. Eu me diverti assistindo, e é isso que importa.

Mas a turma inteligentinha da militância surtou. Além de reduzir a série toda a uma frase do Jucá colocada na boca do personagem Higino – evidentemente inspirado no Lula -, criou o mais novo pleonasmo em inglês, “fake fiction”, o equivalente narrativo do “subir para cima”. O Mecanismo incomodou, e muito. Involuntariamente, o surto deu à série uma divulgação que ela não mereceria tecnicamente, e acabou reforçando seus pontos fortes.

Sílvio Pedrosa lembrou bem que o processo de construção da Narrativa do Golpe foi elaborado. Havia quatro equipes de documentaristas gravando a defesa da Dilma no Senado (sim, parece que temos um golpe com amplo direito a defesa). Não foi por acaso. Estava em produção a construção de diversos filmes sobre a agonia do lulopetismo e a ascensão do “fascismo” (sabe fascismo, aquilo que é característico das pessoas que respiram? Então). A Netflix e o Padilha desmontaram esse discurso com um peteleco, mostrando a promiscuidade da relação entre governo e empresas em todos os governos.

Como mostra o Bruno Cava:

A corrupção é comparada ao câncer, uma doença em geral disparada por razões ambientais e que se alastra molecularmente, com efeitos catastróficos sobre o corpo. Diagnosticado com transtorno bipolar, Ruffo (Selton Mello) vai passear no limiar da loucura, exatamente onde consegue tocar a loucura do próprio sistema, a sua demência constitutiva. A conexão entre a condição mental do protagonista e o autismo da filha, fissurada pelo conjunto de Mandelbrot, leva-os ao clímax revelador da primeira temporada: a lógica fractal da corrupção sistêmica.

O grande mérito de O Mecanismo é mostrar como a corrupção se espalhou na lógica de funcionamento do Estado. Representativo deste processo é o episódio do vazamento de esgoto na porta da casa de Marco Ruffo, personagem de Selton Mello. Ao acionar os caminhos institucionais para resolver o problema – basicamente, chamar a companhia de saneamento básico -, ele se depara com uma versão mais pobre e menor do modelo da Lava Jato. Ali, um bilhão não faz falta. Aqui, retira-se propina de seiscentos reais.

Que os cabeças do poder se incomodem com a Netflix, eu consigo entender. O que espanta é que pessoas que se movem por sentimentos de indignação e mudança estejam ativamente contra a série. Denunciam-na como golpista, mesmo quando ela escancara a relação generalizada de todos os partidos com a corrupção – todos, do PSOL ao PSL do Bolsonaro. Como pessoas que dizem querer mudar o Brasil defendem o que há de mais pernicioso neste país? Sim, não adianta querer reduzir a nada o desejo de mudanças dessas pessoas, gente sem ideal não aloca o tempo livre para discutir política de graça.

O fato é que, ao aderirem à Narrativa do Golpe, eles compram um discurso elaborado a anos que reduz o peso da corrupção na pauta da esquerda. O caso mais acabado é a produção recente de Jessé Souza. Ao tratar a escravidão como “O” grande problema do País, ele reduz a luta contra a corrupção a uma suposta agenda neoliberal com objetivo de reduzir o tamanho do Estado. Jessé deliberadamente insere uma clivagem entre a luta contra a corrupção e o enfrentamento às sequelas da escravidão na nossa sociedade.

O ponto é que não há esta clivagem. A mesma elite que produziu a escravidão criou um Estado para servi-la. Como enfatiza o personagem de O Mecanismo JPR, diretor da estatal Petrobrasil, em sua delação premiada, o primeiro ato de corrupção aconteceu quando um traficante de escravos cedeu seu imóvel para a família real portuguesa em 1808. Escravidão e corrupção andando lado a lado. Desde sempre.

É interessante aliás lembrar a definição de Lênin do Estado como “instrumento de exploração da classe oprimida”, em O Estado e a Revolução:

Na República democrática a riqueza utiliza-se do seu poder indiretamente, mas com maior segurança, pela corrupção pura e simples.

Se a corrupção é o meio pelo qual a riqueza, o grande capital, exerce seu poder sobre o Estado, a luta contra a corrupção é um dever da esquerda. Inclusive, ela precisa ser ainda mais rigorosa com aqueles que levam o poder do capital para dentro das organizações de luta dos trabalhadores, ou seja, partido e sindicatos.

Mas não, ela compra o duplipensar do Jessé Souza e trata qualquer denúncia do Mecanismo de corrupção como parte da agenda neoliberal. A militância idealista passa a assinar o recibo do poder do grande capital sobre o Estado, em detrimento dos pobres. O inimigo real das esquerdas tem nome, e seu nome é Lula.

Mas a galera prefere brigar com o José Padilha.

Paulo Roberto Silva

Jornalista e empreendedor. Mestre em Integração da América Latina pela USP.