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Uma legião de Torquemadas

por Lucas Baqueiro (29/03/2018)

A escola torquemadista, inconscientemente, tem sido até aqui vencedora na dialética da pós-modernidade.

Frei Tomás de Torquemada, O.P. (1420-1498) foi o pai da inquisição espanhola, um dos instrumentos mais opressivos e autoritários da história da civilização. Depois de convencer a rainha Isabel de Castela de que grande parte dos cristãos-novos não haviam se convertido sinceramente e permaneciam secretamente judeus, conseguiu edificar o Tribunal da Inquisição do Santo Ofício. Sob suas ordens, nas estimativas mais conservadoras, mais de dois mil judeus ou heréticos foram queimados.

Sebastián de Olmedo, cronista contemporâneo de Torquemada, o apodou de “martelo dos hereges, relâmpago de Espanha, protetor de seu país e honra da Ordem Dominicana”. Não por menos: além de matar pessoas, queimou valiosos registros bibliográficos da cultura moçárabe pré-reconquista. Como confessor dos reis católicos, pressionou e conseguiu a expulsão dos judeus de Espanha. Era ele mesmo de ascendência judia, neto de sefarditas, como registrou Hernando del Pulgar na sua crônica Claros varones de Castilla.

Numa suposição muito natural, vemos em Torquemada um desejo obsessivo de limpar seu sangue marrano, de negar aquilo que a preconceituosa genealogia espanhola chamaria de sangre infecto. Perseguir judeus, promover os autos-de-fé, expulsar todo um povo de sua própria terra, parece claramente uma estratégia de negar suas origens e ver-se como aceito entre os pares.

Torquemada foi anatemizado pela história. Seu nome é sinônimo de vileza, de denuncismo barato, de autoritarismo, de impiedade, de falso-moralismo e de maldade. Seus hábitos, contudo, transcenderam os séculos. A escola torquemadista, inconscientemente, tem sido até aqui vencedora na dialética da pós-modernidade.

Dos mais sérios aos mais brandos, multiplicam-se os casos de linchamentos de gente inocente. O denuncismo calunioso e violento incorporou-se nos mais diversos movimentos identitários. A violação de dogmas pararreligiosos, como a culpa do homem branco, o “lugar de fala”, a não-adesão ao quase-racismo científico de muitos setores do movimento negro, o machismo universal dos homens, dá vazão a ondas de ataques em massa. Ai de quem não ceda ao determinismo pós-moderno! – será lançado no hades da infâmia.

O que se esconde dentro dessa casca censória? Quem habita por trás do hábito do inquisidor? Qual é a verdade da mão que segura a palmatória do mundo? Não há outra resposta possível senão a de gente que busca a aceitação dos seus pares em um mundo que o rejeita. À maneira sinalizada por Hannah Arendt, em Eichmann em Jerusalém, a grande tônica que forma novos identitaristas, ávidos por sangue, é a ressignificação de uma vida vazia. Aponta Arendt:

o que Eichmann deixou de dizer ao juiz presidente durante seu interrogatório foi que ele havia sido um jovem ambicioso que não aguentava mais o emprego de vendedor viajante antes mesmo de a Companhia de Óleo a Vácuo não aguentá-lo mais. De uma vida rotineira, sem significado ou consequência, o vento o tinha soprado para a História, pelo que ele entendia, ou seja, para dentro de um Movimento sempre em marcha e no qual alguém como ele – já fracassado aos olhos de sua classe social, de sua família e, portanto, aos seus próprios olhos também – podia começar de novo e ainda construir uma carreira.

Havia em Eichmann, como há no militante mais radical, como havia em frei Tomás de Torquemada, um desejo pela aceitação de seus pares, de apagar as máculas do passado. Seja o que for, de abusos a intenso bullying, de sensação de desajuste no mundo à incompreensão existencial, o racismo sofrido em algum ponto da vida, é patente a vontade de escrever uma nova biografia, de tomar parte de uma massa, de ser levado. Não se medem as consequências para outros, vítimas da retórica violenta: eis, aí, a banalidade do mal.

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Não há como enxergar senão de modo patológico quem pinta um cartaz dizendo que “miscigenação é genocídio” – seja membro de um coletivo negro, seja membro da Ku Klux Klan. Tampouco julgar-se-ia de outra maneira quem se assoma às ondas de denúncias vazias nas redes sociais, acusando de racismo, machismo e misoginia quem quer que seja, por oportunismo ou cegueira.

O grave problema da escola torquemadista, atual sintoma de uma geração profundamente doente, é que esses são o amanhã. Aceitamos passivamente, nós, criminosos, que incorremos no incrível delito do livre-pensamento, do porte do bom-senso, os linchamentos que se multiplicam. Não ousamos discordar, não ousamos enfrentar de peito aberto. E gradativamente, todos os espaços da sociedade vão sendo tomados por uma leva de mimados, que escorraçam quem ouse pensar fora da caixinha.

A que ponto chegamos?

Hoje não se pode escrever um texto sem incorrer na emasculação de pedir perdão por ser homem, pedir perdão por ser branco, pedir perdão por ser cis, pedir perdão por nascer. Estamos determinados, quase que lombrosianamente, a pecar. Voltamos à doutrina do pecado original pelas mãos de quem mais esperávamos uma conduta laicista: o identitarismo pós-moderno, muito posterior ao iluminismo, que sobrepujou a ética do dever ao dogma como norte do homem.

Chamadas à morte de brancos, à maneira como ocorrem hoje na África do Sul, são homiziadas nas universidades públicas. O movimento feminista é completamente perdoado pela misandria professa publicamente, e até mesmo pela homofobia ou transfobia expressa – imperdoável na boca dos outros, ainda que supostamente. Mesmo que todas as demandas incessantes dos identitários sejam aceitas, aliás, estamos sempre caindo em erro. É o determinismo resgatado pelas mãos de quem por ele sofreu.

Um currículo universitário já não é mais analisado pela relevância das obras para a ciência, mas pela classificação biológica de quem compõe a referência bibliográfica. O roteiro, a trilha sonora, a fotografia ou a atuação não perfazem mais o rol de elementos que determinam se é um filme bom ou ruim. O que importa é: quantos negros estão nos créditos? Quantas mulheres?

Não havia, em Espanha de Torquemada, qualquer espaço para a ciência, quando se queimaram livros em Sevilha. Não havia espaço para o empirismo, quando expulsaram mouros e judeus, que traziam progresso comercial, agrícola e científico para a Península Ibérica. Só havia espaço para a vivência de Torquemada, que revisitando seus traumas de infância, assava em autos-de-fé seus semelhantes.

Não há mais espaço para a ciência no Brasil, à semelhança. O empirismo ou a matemática não são nortes acadêmicos aceitáveis. A única coisa aceitável é a vivência. Gurus se constroem não mais pela qualificação ou por suas conquistas, mas pelo poder amplificador de seus chiliques. Eis como a carreira de inúmeros justiceiros sociais de internet, à semelhança de Anderson França, Stephanie e Djamila Ribeiro, foi alavancada em contratos e seguidores.

É inevitável enxergar esse surto coletivo como fanatismo religioso remasterizado. Porque é, afinal, o puritanismo religioso formador dos Estados Unidos – resgatado pela nossa esquerda identitária colonizada, que se diz paradoxalmente anti-imperialista – encontrando uma brecha na parede para brotar ao sul do Equador, onde não existe pecado.

Quem não é conservador, termina sendo chamado à reação diante do fim da mera liberdade de arbítrio. Afinal, na cabeça de nossos identitários, já não há mais o Brasil do século XXI, mas Espanha de Torquemada do século XVI.

Lucas Baqueiro

Liderança do Livres no sertão de Pernambuco.