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Sobre o povo não-povo

por Lucas Baqueiro (12/09/2020)

Se a única voz legitimada a ser representada politicamente como oposição é a dos autoritários saudosos de Stálin e dos gulags, já temos um grande problema.

Sinceramente, o arroz pode chegar a sessenta reais, e o quilo da carne a trezentos. Bolsonaro e sua má condução econômica continuarão imparáveis. Possivelmente, vai até a reeleição. E há um motivo muito claro.

É que a oposição mais barulhenta, que ecoa das redes para as ruas, que é mimetizada nos grupos de Whatsapp, que transcende da caixa de areia de gato do Twitter para o lanchinho depois da reunião do Círculo de Oração, bem… Esta continua a lacrar o monopólio da virtude.

Bolsonaro continuará vencendo porque quem não concorda com o stalinismo de fato e de direito, com o tonitruante racismo do identitarismo antirracista, ou mesmo com o que foge do sensato, é a representação da maldade absoluta.

Bolsonaro continuará vencendo — para meu lamento e de 89 milhões de eleitores que não votaram em Bolsonaro — porque a parcela mais representativa da oposição, aquela que vai à televisão e toma as redes, já nem sequer fala a mesma língua do povo. Não se trata mais daquela questão de que o populismo de esquerda detém o monopólio da gente, enquanto a direita é monopolizada pelos ricos. Não, não, não. A oposição já não fala a mesma língua porque se ocupa em ensinar um novíssimo gênero neutro, de “elus”, “ilis”, “delus”, “elx”, e outras maluquices sem par.

Bolsonaro continuará vencendo porque a esquerda com voz, que agora resgata com pendor fetichista o tempo da Cortina de Ferro, continua a apontar o liberalismo e o uso das liberdades civis como a raiz de todo o mal.

Nem se Bolsonaro, parafraseando um amigo, comer em rede social um carpaccio de feto de vítima de sevícia ao molho de filhotes de gatinhos, há de sofrer impeachment. Afinal, não há mais clamor popular para isso, mesmo diante de 130 mil vítimas registradas do Coronavírus no país. Não há clamor porque a parte mais representativa e abalizada da esquerda nos meios, em verdade, só tem como solução a apregoar a pólvora, e como substituto de fato — porque nem a pólvora é verdadeira — a serragem e o esterco.

As vozes coerentes da esquerda foram silenciadas ou são linchadas pelos detentores do bem®, que já as chamam de fascistas, quando o fascismo muito parece com a campanha que promovem. As vozes coerentes do centro já foram massacradas a tal ponto que sumiram.

Ricos ou fascistas, a depender do recorte da luta, são todos aqueles que não se incluem como partícipes dos projetos absurdos apregoados pela autoridade máxima em gente e bondade: a militância que transita entre os centros acadêmicos, os inócuos coletivos, os Twitters, e os bares gourmetizados de regiões boêmias, enquanto reafirmam-se populares brindando com uma bombinha de Corote. Ricos ou fascistas, excluídos permanentemente de serem contabilizados entre a gente, entre os trabalhadores, entre o povo, são, curiosamente, a maior parte do povo brasileiro. Ainda que sejam — e por incrível que pareça o são —parte, por toda a vida, da camada mais pobre da população, que já nem pode comprar mais o arroz.

Oras, se a única voz legitimada— já que os outros são golpistas ou fascistas ou racistas ou machistas ou outros istas —a ser representada politicamente como oposição, sem que flechas sejam disparadas de todos os lados, é a dos autoritários saudosos de Stálin e dos gulags, já temos um grande problema. É que, por lógica, essa voz legitimada não dialoga com o não-povo. E o não-povo é a maioria do povo brasileiro, curiosamente.

Por isso, só resta ao não-povo continuar votando em Bolsonaro. Senão, continuar indo tomar cerveja na praia da cidade vizinha no dia da votação, justificando o voto. Ou, na hora do debate político, se negando a participar, reduzindo a fervura do caldo no fogão. Afinal, o não-povo, que é o povo quase todo, não merece ser ouvido.

Surda ao povo não-povo, a esquerda legítima — aquela, única detentora da patente sobre as marcas bem® e democracia® —e dona da voz da oposição, só põe os aparelhos de surdez para ouvir Losurdo e suas mentiras.

Por isso, às pessoas mais esclarecidas dentro dos diversos espectros políticos que respeitam conceitos como democracia, constituição, império da lei, dignidade humana, e que são básicos e devem ser defendidos a todo o custo, ficam duas convocações.

A primeira, para que parem de se rebaixar e pedir desculpas aos autoritários por quaisquer razões, na ânsia de resgatar o bom debate político. Não há debate político possível para essa gente. Nem mesmo entre eles, ou elus, ou ilix, conforme a declinação gramatical escolhida para o dia, há debate político possível. No terreno das possibilidades, só existem duas: ouvir o monólogo e assentir; ou, bovinamente reproduzir, não sem antes pedir desculpas pela viseira do recorte temático que impedia de enxergar.

A segunda, e muito importante: denunciem e interditem. Apontem a anormalidade ululante em admitir tentar legitimar a barbárie, o genocídio, a cassação da palavra, a censura, a tortura, a fome, e todos os males representados pelo stalinismo. Stálin é tão aceitável quanto Mussolini, id est, é tão anátema quanto, tão interdito quanto, quando estamos em uma democracia. Denunciem o estado mental daquele que rumina e cospe esses absurdos, se recusem a discutir, devolvam-lhes à ignomínia devida, recuperem o único uso possível da democracia, que é completamente dissociada dos projetos ditatoriais desta malta.

Feito isso, e recuperados da dignidade — essencialmente perdida quando democratas abaixaram as calças para que os populistas e autoritários lhes passassem a mão na bunda, entre pedidos de perdão por ser homem, ou branco, ou de classe média, ou empregado, ou contra qualquer coisa da agenda louca de Djamilas e Jones da vida — quem sabe o debate político possa ser resgatado por gente mais sadia.

Quem sabe possamos entender que existem alguns (poucos, mas sinceros) petistas com quem se pode conversar. Quem sabe possamos entender que o PSDB, um partido de centro-esquerda reduzido à extrema-direita fascista pela pretensa viperina (em verdade, asinina) língua dos militudos, é um partícipe conversável da democracia. Quem sabe possamos resgatar dentro do Cidadania, do Novo, do MDB, do PDT, de uma miríade de partidos, gente interessada em discutir país. Se não interessada no debate, mas no fisiologismo mais espurco, que pelo menos não tenha pretensões a censurar, cassar, matar, ditar e impor.

Quem sabe, afinal, possamos voltar a ter um debate político de verdade. Ademais, quem sabe o povo não-povo volte a se entender como povo, e pare de retroceder nas mãos do primeiro aventureiro que finja lhes incluir nos seus planos.

Lucas Baqueiro

Bacharelando em Humanidades pela Universidade Federal da Bahia. Licenciando em Ciências Sociais pela Universidade Cruzeiro do Sul.