PESQUISA

O que a errata do Ipea revela

por Paulo Roberto Silva (05/04/2014)

A estrutura do campo científico brasileiro gera distorções nas pesquisas

- Os números equivocados e os números corrigidos da pesquisa do Ipea -

– Os números equivocados e os números corrigidos da pesquisa do Ipea –

Na tarde de 4 de abril o Ipea publicou uma surpreendente nota de errata, informando que o dado mais espetacular da pesquisa “Tolerância social à violência contra as mulheres”, segundo a qual 65% dos brasileiros concordavam ainda que parcialmente com a frase “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”, estava errado. O que havia acontecido era uma troca de gráficos: este dado na verdade se referia à frase “Mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar”. Na outra, o percentual de concordância era bem inferior, em 26%.

A errata chamou a atenção por conta da comoção causada pela informação. Uma campanha viral na internet, na qual diversas pessoas posavam seminuas com variações da frase “eu não mereço ser estuprada”, havia ganhado adesão de massas. Os poucos que tentavam mostrar a inconsistência do dado em relação a pesquisas anteriores foram colunistas e blogueiros da Veja. Mas como a crítica vinha acompanhada da acusação de aparelhamento do instituto, não colou. Uma vez assumido o erro, o responsável pelo estudo, Rafael Guerreiro Osório, pediu exoneração.

O erro é o que é, um erro. Trocaram os dados em alguma etapa do processo por falta de organização do trabalho de pesquisa, e em uma combinação de falha na checagem e empolgação com o potencial explosivo da informação, a troca não foi desfeita em tempo hábil de evitar a comoção nacional. Custou o emprego de um jovem profissional que, pelo seu currículo lattes, tinha potencial para produzir coisas interessantes.

As massas reagem com violência e não raciocinam, já avisava Ortega y Gasset no início dos anos 1930. Na era da internet, a reação violenta e a ausência de raciocínio chega a níveis exagerados. Qualquer questionamento à onda de comoção era rebatida violentamente, e a errata faz o bem de jogar um balde de água fria nos ânimos. Mas o erro continua sendo apenas um erro. Ver nele uma operação do PT para fazer sei lá eu o quê é aderir à lógica sem raciocínio do comportamento de massas.

O que este erro revela é outra coisa: a estrutura do campo científico no Brasil está, especialmente nas Humanidades, voltada para a reprodução de si mesma. Os pesquisadores estão produzindo menos material de interesse social que pesquisas reproduzindo o pensamento vigente nos centros de excelência. E, com isso, perdem as ciências humanas, que caem no risco de se tornarem máquinas de implante de verniz acadêmico aos preconceitos de certa elite cultural.

O tamanho da encrenca

Para quem vê o processo de fora e se pauta por blogueiros rancorosos de direita, a academia está infestada de agentes comunistas do PT, pronto para aparelhar as universidades para seu projeto. Quem, contudo, olha o assunto mais de perto, percebe que esta opinião não passa de ingenuidade mal intencionada. Em muitos casos, não há sequer vínculo institucional entre líderes do campo acadêmico e os partidos de esquerda. O que há em alguns casos é afinidade ideológica.

Para melhor explicar isso, apelo ao brilhante artigo “Ornitorrincos com PhD“, de Álvaro Bianchi, professor da Unicamp, no blog Convergência – ligado ao PSTU. Em determinado momento, ele faz uma análise precisa da situação:

O segundo mandato de Luiz Inácio reaproximou o partido dos intelectuais. Crescimento do PIB, formalização do mercado de trabalho e políticas sociais compensatórias serviram como justificativas. Mas o que animou realmente os ex-dissidentes foi a expansão do sistema universitário brasileiro, a criação de mais instituições federais de ensino superior e a abertura de concursos públicos para a contratação de docentes. Estrangulados pela gestão do colega Paulo Renato no governo FHC um importante contingente de intelectuais universitários brasileiros viu ao longe, no segundo mandato de Lula, a terra prometida.

O Ipea entra neste movimento por conta da ampliação de sua equipe de pesquisadores próprios e do Programa de Mobilização de Pesquisadores (PROMOB), que permite contratar como bolsistas pesquisadores das universidades para atuarem em projetos do instituto. O PROMOB em si pode ser uma ferramenta interessante de interação entre universidade e Ipea, mas na prática também acaba funcionando como uma chancela: o pesquisador com projeto aceito nas chamadas públicas tem uma pesquisa, de certo modo, “certificada” como adequada.

A expansão das vagas no magistério superior e iniciativas como o PROMOB do Ipea fizeram o dinheiro circular para dentro do meio acadêmico. Mas também abriu oportunidades para intelectuais orgânicos ocuparem posições chave no meio acadêmico e, por sua vez, se tornarem chanceladores da pesquisa alheia, como editores de periódicos, debatedores em simpósios e membros de bancas de concurso. Da posição marginal em que se encontravam até determinado momento, passaram a ocupar o centro do campo científico, e a direcioná-lo de acordo com suas próprias convicções.

Não é de hoje que o ambiente acadêmico brasileiro é avesso a polêmicas sadias que deveriam existir em um ambiente acadêmico normal. Docentes condicionam orientações a adoção de determinadas abordagens teóricas, referências bibliográficas específicas e programas de curso enviesados. E para a surpresa de quem acha tudo isso exclusividade dos marxistas, tais práticas estão disseminadas entre as diversas correntes teóricas. Tente produzir pesquisas econômicas fora do paradigma neoclássico em certos departamentos de Economia e verá a comprovação do que estamos falando.

A novidade é que, com a expansão de vagas docentes no meio acadêmico, novos atores assumiram posições chave na academia. E estes continuam com as práticas de sempre, mas condicionando com seus novos preconceitos.

Sintoma de que nosso campo científico é voltado para a auto-reprodução é a quantidade de doutores que permanecem no meio universitário, em relação aos que atuam nas empresas e no setor público. De acordo com Glauco Arbix, no Brasil 56,8% dos doutores estão nas universidades, enquanto que nos Estados Unidos 79% estão nas empresas. Doutores nas empresas estão fazendo inovação – inclusive em relação às humanidades – enquanto doutores nas universidades estão formando novos doutores. Some-se à isso nossa resistência à polêmica sadia, e podemos afirmar que no Brasil doutores formam seguidores.

Impacto no conhecimento produzido

Pierre Bourdieu, em seu O Ofício de Sociólogo, afirma que o pesquisador nas ciências sociais precisa buscar a ruptura epistemológica, caso contrário ele corre sério risco a apenas dar verniz acadêmico aos preconceitos de uma elite cultural. Pois bem, entre em qualquer sala de aula de um programa de pós-graduação no Brasil e pergunte quais são os projetos de pesquisa. Você se surpreenderá ao ver que pouquíssimos realmente propõem uma ruptura epistemológica. E verá também que a maioria reproduz a pesquisa de seu orientador.

Claro que este não é um problema restrito às Humanidades. Em entrevista à Folha, a neurocientista Suzana Herculano Houzel faz um diagnóstico duro sobre a pesquisa no Brasil, e aponta os elementos em que o sistema falha:

Originalidade zero. Não existe incentivo à originalidade e à diversidade de pensamento. Quando eu cheguei nos EUA [para fazer o mestrado, em 1992], fiquei chocada ao descobrir que as pessoas não param cinco anos no mesmo lugar. Eles têm essa cultura de se mudar constantemente, o que favorece a diversidade de ideias. Aqui, a tradição é entrar na iniciação científica em um laboratório e continuar nele durante o mestrado, o doutorado e o pós-doutorado. E a tendência é a pessoa se aprofundar cada vez mais em um único assunto. Com isso, formamos jovens cientistas bitolados, tudo o que eles sabem é pensar em detalhes daquele único assunto que vêm desenvolvendo desde a iniciação científica. Além disso, a política de contratação nas universidades privilegia os ex-alunos. Criam-se colônias sem diversidade. Colônias em que você tem o fundador original, o chefe do laboratório, e as crias todas vão se espalhando ao seu redor, estudando a mesma coisa.

Colônias sem diversidade. O desafio para o ambiente acadêmico brasileiro é promover a diversidade dentro de suas instituições. Para que, no diálogo entre diferentes, a pesquisa cresça. E para que erros básicos como o cometido pela equipe do Ipea não passem batido por reforçarem provavelmente os preconceitos do próprio pesquisador.

Paulo Roberto Silva

Jornalista e empreendedor. Mestre em Integração da América Latina pela USP.