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A delação da Odebrecht gera oportunidade única para outsiders

por Paulo Roberto Silva (15/04/2017)

No entanto, cada um está rodando igual peru bêbado em suas próprias debilidades.

Os regimes políticos tendem à estabilidade. Por isso, são raras as vezes em que é possível alavancar uma proposta alternativa que desafie o status quo. Normalmente, as soluções acabam dentro das opções já inseridas no sistema. Mas grandes rupturas da normalidade permitem que o cidadão considere opções diferentes. Obama, Trump e a crise de 2008, Syriza, Podemos, Brexit e a crise européia, Yeltsin e o fim da União Soviética, Deng Xiaoping e a crise do maoísmo… Quem será o desafiante que vai aproveitar a delação da Odebrecht?

A divulgação dos detalhes da delação abre uma janela de oportunidade única para quem quer se posicionar como desafiante. Em algum momento, em questão de dias ou semanas, o sistema político vai se recompor. Até lá, alguém precisa enfiar o pé e alavancar sua inserção social. Mas quem?

Até o momento, os desafiantes estão no Facebook. Quem são eles? Basicamente os movimentos Vem Pra Rua e Brasil Livre, os partidos PSOL, REDE e NOVO, e Jair Bolsonaro. Todos eles aproveitaram o momento para se posicionar – e no caso da REDE para esclarecer a menção a Marina Silva. Tudo bem. E o que mais?

Veja, nenhum deles está em posição de vantagem para nada. Se Vem Pra Rua e Brasil Livre têm alguma organicidade e base social, assim como o PSOL, os partidos e Bolsonaro precisam construí-los ou reforçá-los. Ninguém ganha eleição sem presença institucional na maioria dos municípios e nos mais populosos. É o que PT, PSDB e PMDB têm. Os desafiantes precisam usar sua presença online para convertê-la agora em presença institucional pulverizada nos municípios, e assim se tornar forte para 2018.

Quando digo isso, meu olhar está na oportunidade de renovar o Congresso. A próxima legislatura pode iniciar as mudanças institucionais que permitirão superar a Nova República, cujas entranhas estão expostas nessa delação. E, para isso, quem tiver presença legislativa mais qualificada poderá pautar o debate. Basta ver a força que o PT tinha na oposição ou o Centrão sob Eduardo Cunha.

Para isso, os desafiantes precisariam passar a Semana Santa mudando seus planos em reuniões de emergência, encarando suas debilidades e definindo estratégias de crescimento escalável. É a hora de lançamento de campanhas de filiação, organizar eventos no máximo de municípios possível, cadastrar potenciais lideranças, abordar lideranças políticas e sociais municipais em condições de ruptura, enfim, fazer a rapa. Já.

Contudo, não é o que vejo. Pelo contrário, cada um está rodando igual peru bêbado em suas próprias debilidades:

* O PSOL arca o custo de se tornar uma corrente externa do PT e aderir à Narrativa do Golpe, que só o prejudica. Não fosse isso, e os conflitos internos entre suas correntes, ele seria o partido mais preparado organicamente para alavancar crescimento, por conta da presença institucional que já tem;

* A REDE não consegue converter os votos de Marina Silva em presença institucional partidária. A impressão é que falta disciplina militante partidária. Não estamos falando de centralismo, mas a REDE cai no extremo oposto. Durante o impeachment o partido definiu uma posição e seus parlamentares votaram de outra forma. O partido precisa se organizar, fazer trabalho de base, ou então vai ser o partido da Marina Silva forever;

* O NOVO tem a faca e o queijo na mão. Por não ser de esquerda, está livre de ser contaminado pela debacle do petismo. E está conduzindo o processo seletivo de candidatos, que pode ser utilizado como instrumento de recrutamento de filiados e construção de diretórios. Contudo, seus planos são tímidos, e sua liderança tem perfil mais empresarial que político, o que dificulta a análise de conjuntura;

* Jair Bolsonaro tem seu ponto forte e fraco no mesmo aspecto: o personalismo. Sua presença pessoal precisa se tornar orgânica, diretamente ou por parceiros, ou ele perderá força eleitoral. De todos, é o mais vulnerável a um processo de desconstrução, e se não tiver uma rede organizada de apoiadores sucumbirá muito fácil.

Ou seja, neste momento ninguém está em vantagem. Quem sair na frente pode conseguir uma vantagem tal que crescerá em relevância no próximo período. Resta saber qual deles o fará.

Paulo Roberto Silva

Jornalista e consultor de comunicação empresarial. Mestre em Integração da América Latina pela USP.