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Greve Geral: a esquerda reedita a narrativa do medo

por Paulo Roberto Silva (27/04/2017)

O medo vira raiva e alimenta, como efeito colateral, as manifestações promovidas pelos corruptos do PT e de Lula.

As esquerdas estão ganhando o debate na sociedade, especialmente na base da pirâmide, sobre as reformas trabalhistas e da previdência. E estão fazendo isso sem nenhum argumento racional ou científico, apenas com alertas de medo como “você nunca vai se aposentar”, “vai perder o seu décimo terceiro”, “vamos voltar à escravidão”, seguidos do corolário “Nenhum Direito a Menos”.

A prova da eficácia desse discurso são as adesões à greve geral desta sexta-feira. Até os motoristas de Uber estão aderindo, esses que seriam os principais beneficiários da reforma trabalhista. Sinal de que estão todos esperando o Apocalipse promovido pelo presidente satanista.

As narrativas do medo, como as utilizadas contra as reformas, são instrumentos eficazes para promover o status quo. Ameaçados por mudanças rumo ao desconhecido aterrorizante, as pessoas tendem, por instinto de sobrevivência, a deixar tudo como está. “Na dúvida, não mova um músculo”, diz o cérebro.

Do ponto de vista emocional, apenas a narrativa combinada do desconforto presente e da aventura consegue fazer frente ao medo. O desconforto presente mostra que o Apocalipse já está aí, e a aventura nos empodera como heróis capazes de enfrentar as forças do mal. É o que move os mártires, guerrilheiros, terroristas e empreendedores.

Não há uma narrativa heroica combatendo a narrativa do medo das esquerdas. Temer tenta rebater medo com medo: se não aprovarmos as reformas, nos tornaremos o estado do Rio de Janeiro. Mas isso não convence: em tempos de delação da Odebrecht, consolida-se a percepção de uma relação direta entre crise fiscal e corrupção. Ou seja, se falta dinheiro para pagar as aposentadorias, a culpa é dos corruptos. Fazer os velhinhos pagarem é injustiça.

Neste sentido, as reformas de Temer, o delatado, aparecem como ilegítimas perante os mais pobres. A conexão que está sendo feita é “vou perder a minha aposentadoria porque esses caras roubaram”. Aí o medo vira raiva e alimenta, como efeito colateral, as manifestações promovidas pelos corruptos do PT e de Lula (embora Lula diga que as manifestações não são dele, mas de um amigo).

O PT e seus aliados não ligam todos esses pontos claramente. Pelo contrário, apenas reforçam os aspectos negativos das reformas. “Querem tirar sua aposentadoria!” “Querem tirar o seu salário!” “Quem não para é satanista!” Assim alimentam e instrumentalizam a raiva.

Ao mesmo tempo, não apresentam uma alternativa. É puro medo e negatividade. Por dois motivos. Um deles é que realmente não há alternativa: o que eles querem é manter tudo como está. Inclusive seus privilégios. O outro é que realmente não há alternativa: Lula sabe que as reformas são necessárias, mas impopulares, e prefere que Temer arque com o custo político delas. Assim ele pode surfar a impopularidade para as eleições de 2018.

Dessa forma, operam a mesma lógica negativa que rola desde 2013: lança-se suspeitas e distorce-se a realidade, explorando medos. Vejamos:

* Junho de 2013: essa gente na rua é contra partidos, isso é fascismo;

* Eleição de 2014: querem tirar comida do seu prato;

* Impeachment: é golpe de estado, vão cancelar as eleições.

E isso acontece porque tem sido eficaz para eles. Somando Lava Jato, pedaladas e o estelionato eleitoral de 2014, era para o PT ter virado pó. Graças às manipulação do medo, não só ganharam sobrevida como anularam as vozes divergentes dentro da esquerda.

Só tem um problema: o resultado de tudo isso pode ser Bolsonaro presidente.

Paulo Roberto Silva

Jornalista e empreendedor. Mestre em Integração da América Latina pela USP.