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Por que Ciro Gomes lidera os votos de esquerda

por Paulo Roberto Silva (12/04/2018)

A militância ainda não entendeu uma verdade fundamental: o eleitor de esquerda é diferente dela.

Um mito ronda as análises eleitorais brasileiras: o mito de que, não importa o cenário, o PT leva de 25% a 30% dos votos em uma eleição federal. Por isso, Lula ou seu poste ungido estariam impreterivelmente no segundo turno. É um mito porque trata cenários eleitorais diferentes como se fossem uma coisa estável. O objetivo deste texto é entender o perfil do eleitor de esquerda nas eleições mais recentes e demonstrar por que este eleitor tende a migrar para Ciro Gomes. Ou seja, numa eleição sem Lula (cenário mais provável, agora que o presidente está preso), é grande a chance de Ciro ir ao segundo turno, desbancando o PT em nível nacional.

Esta tese está baseada nos seguintes pressupostos:

* O eleitor de esquerda, historicamente, é muito mais moderado que sua militância;

* O peso eleitoral do PT no Nordeste é frágil e depende de aliados como Ciro

* O estelionato eleitoral dilmista enfraqueceu a relação deste eleitor com o PT de forma quase irreversível

* Ciro Gomes reúne os atributos típicos que agradam a um eleitor de esquerda brasileiro

O perfil moderado do eleitor de esquerda

Vamos considerar o perfil do eleitor pós-redemocratização. A hegemonia eleitoral petista no campo da esquerda é um fenômeno que começa nos anos 1990, como reflexo da eleição de 1989. Esta eleição foi transformadora ao fazer do PT um partido com viabilidade de chegar ao governo federal, desbancando o PDT de Brizola e o PSDB, que na época tinha um posicionamento de esquerda moderada.

Se considerarmos as bancadas da Câmara Federal na legislatura que vigorou de 1987 a 1990, vemos na esquerda uma predominância de partidos com posições moderadas (PSDB, PDT e PSB), contra uma minoria mais radical para o contexto da época (PT, PCB e PCdoB):

Partido      Bancada
PSDB 39
PDT 25
PT 16
PSB 5
PCdoB 5
PCB 3

 

Com o fenômeno Lula, o crescimento imediato do PT foi significativo, elegendo 35 deputados em 1990. Ainda assim, o PDT elegeu 46 deputados e o PSDB 38. O fortalecimento eleitoral do PT durante a década acompanhou a moderação de seu discurso e a transformação do PSDB, que durante o governo FHC migrou para a centro-direita, adotando posições de cunho liberal.

É significativo que o deputado mais votado do partido na eleição de 1998 tenha sido José Genoino, com 306 mil votos. No Congresso do PT de 1999 ele lideraria um grupo, em cuja composição estavam quadros como Marina Silva e Eduardo Jorge, que dizia claramente:

A democratização do capital é condição essencial para o aprofundamento da democracia no Brasil. Neste país, não se trata apenas de incrementar uma melhor distribuição da renda, via tributação e políticas públicas de bem-estar, segundo o ideário da social-democracia. É a própria estrutura do capital que deve ser mudada e submetida às regras da competição, permitindo o surgimento de uma economia aberta, sem privilégios definidos pelo Estado, com restrições efetivas aos oligopólios e com oportunidades multiplicadas.

Requisito prévio para isso é o abandono da vocação de intervencionismo econômico de tipo tradicional do Estado brasileiro, em função de um novo papel para este em relação à economia. Papel que pode ser definido como de regulação e fiscalização do mercado – para corrigir suas distorções e estimular a concorrência – e indução a um desenvolvimento ecologicamente sustentado e democratizador. Além de papéis tradicionais, como a administração da moeda.

Faça um esforço e imagine se algum quadro petista atual seria capaz de dizer o que afirmam os dois parágrafos acima. Ouso afirmar que seu conteúdo é mais liberal do que um posicionamento do Partido Novo hoje. E estamos falando de uma posição de gente que liderava o PT às vésperas da eleição de Lula à presidência. O auge deste movimento, evidentemente, foi a Carta aos Brasileiros.

O PT só se elegeu porque mostrou ao eleitor – ao tiozão do churrasco, não aos mercados ou à dona zelite – que não causaria transtornos à ordem. E não sou eu quem diz isso. É André Singer, em um dos artigos fundadores do lulismo:

No programa divulgado no final de julho de 2002 pelos partidos que integravam a Coligação Lula Presidente, há um perceptível câmbio de tom em relação ao capital. Em lugar do confronto com os “humores do capital financeiro globalizado”, que havia sido aprovado em dezembro de 2001, o documento de campanha afirmava que “o Brasil não deve prescindir das empresas, da tecnologia e do capital estrangeiro”. Para dar garantias aos empresários, o texto assegura que o futuro governo iria “preservar o superávit primário o quanto for necessário, de maneira a não permitir que ocorra um aumento da dívida interna em relação ao PIB, o que poderia destruir a confiança na capacidade de o governo cumprir os seus compromissos”, seguindo pari passu o que havia sido divulgado na Carta. Nessa linha, compromete-se com a “responsabilidade fiscal”, com a “estabilidade das contas públicas” e com “sólidos fundamentos macroeconômicos”. Por fim, assegura que não vai “romper contratos nem revogar regras estabelecidas”. Afinal, “governos, empresários e trabalhadores terão de levar adiante uma grande mobilização nacional”.

Ou, em outro artigo fundacional:

O presidente [Lula] vocalizou, então, o discurso conservador de que o seu governo não adotaria qualquer plano que pusesse em risco a estabilidade, preferindo administrar a economia com a “prudência de uma dona de casa”. Se ao fazê‑lo estabelecia um hiato em relação ao seu próprio partido, em troca criava uma ponte ideológica com os mais pobres.

Posto isto, temos que o que empolgava o eleitor petista até as eleições passadas não empolga hoje. O eleitor petista diferentemente de sua militância, foi sendo atraído por um posicionamento moderado, de mudança dentro da ordem. Muito diferente do Lula atual que vê jacaré debaixo da cama em entrevista a Mônica Bergamo.

O radicalismo atual da militância petista favorece Ciro Gomes. Diferentemente do PT, ele consegue soar moderado, afastado dos escândalos da Lava Jato, e pode construir uma imagem mais equilibrada que a paranoia atual do petismo.

Uma ilusão chamada Nordeste

A esta altura o leitor mais crítico, aquele que é tão fã dos Correios que adora um lacre, levanta a mão e diz “mas o André Singer falou que o Lula criou uma conexão com o pobre do Nordeste, o Nordeste é Lula”. Beleza. De fato, o voto no PT cresceu no Nordeste durante o auge do lulismo. Mas para isso ele precisou de aliados locais: Eduardo Campos em Pernambuco, Ciro Gomes no Ceará, Jackson Lago e o clã Sarney no Maranhão. Efetivamente, neste período o PT liderou chapa no Nordeste apenas na Bahia e no Piauí.

As eleições de 2014 funcionaram como um excelente laboratório da importância desses aliados locais para a performance lulopetista na região. De certa forma, os fatos em Pernambuco e no Ceará funcionam como um comparativo que nos permite medir a relevância ou não do parceiro para que um candidato petista ganhe no Nordeste. No Ceará o clã Gomes se aliou ao PT e lançou Camilo Santana, que apesar de petista é afilhado de Ciro. Em Pernambuco, o clã Arraes rompeu com o PT nacionalmente e teve candidato próprio local, Paulo Câmara.

Em Pernambuco, com apoio do clã Arraes, Marina Silva obteve 48% dos votos válidos, sendo o único estado em que a candidata liderou a eleição. Dilma Rousseff teve 44% dos votos. Paulo Câmara, candidato do clã Arraes, foi eleito no primeiro turno com 68% dos votos. Já no Ceará, com apoio do clã Gomes, Dilma Rousseff teve 68% dos votos no primeiro turno, liderando o resultado. Camilo Santana teve 48% dos votos válidos, empatando com Eunício Oliveira, do PMDB, que também apoiava Dilma Rousseff.

Onde os clãs locais apoiaram Dilma, ela ganhou. Onde faltou esse apoio, ela perdeu.

O enfraquecimento dos laços políticos do PT no Nordeste, onde o partido conta agora apenas consigo mesmo e com seus aliados PCdoB e PSOL, favorece Ciro Gomes. Como um nome do Nordeste, ele tem maior potencial de articular alianças com os clãs locais, alavancando seu nome.

O enfraquecimento eleitoral do PT

As eleições de 2016 foram um marco na história do PT. Apenas 4,84% dos eleitores votaram no partido. Em 2012, a eleição municipal anterior, o partido havia recebido 16,72% dos votos. É um desastre.

Este resultado se explica pelo simples fato de que a população em geral se sentiu traída pelo governo Dilma, e isto, somado ao desgaste natural de um partido tanto tempo no poder, o fez tomar uma bela surra do eleitor. Insisto, não foi o grande capital, a CIA ou os Sábios de Sião que derrotaram o PT. Foi o eleitor comum, o mais prejudicado pela crise fiscal aberta pelas pedaladas.

Na eleição de 2014 o PT bateu forte na tecla do medo. Toda a campanha de Dilma enfatizou as conquistas do governo Lula para os mais pobres e disse que só Dilma seria capaz de mantê-las. Enquanto isso, o secretário do Tesouro Arno Augustin fabricava orçamento por meio das pedaladas fiscais. Uma vez eleita, Dilma precisou pagar a conta das pedaladas, e a primeira medida foi dificultar o acesso ao seguro desemprego.

Junho de 2013 e a greve dos garis de 2014 deixavam claro que o povão mais pobre estava se cansando das ilusões perdidas do lulismo. O modelo econômico estava em cheque pelos setores mais populares. Ao transferir a conta das pedaladas, criadas para tapar rombos gerados por concessões fiscais aos ricos, para os mais pobres, Dilma e o PT se tornaram o inimigo número 1 do povão. Não foi manipulação, foi falta de comida na mesa.

A votação no ABC Paulista foi representativa desta ruptura dos pobres com o petismo, e da surra eleitoral que o povão quis dar no PT. Em seu reduto de nascimento o PT perdeu em absolutamente todos os municípios. Em São Bernardo do Campo, onde o prefeito era Luiz Marinho, sequer conseguiu ir ao segundo turno. Em Santo André o candidato de oposição derrotou o prefeito no segundo turno com 78% dos votos válidos. Foi um massacre.

Dificilmente esse gap será recuperado pelo PT nas eleições deste ano. Isto favorece Ciro Gomes. A um eleitor tipicamente de esquerda, mais moderado, e cansado do PT, Ciro aparece como uma solução interessante e viável contra Temer, Alckmin e Bolsonaro.

Não dá para afirmar qual candidato tem chances de ganhar a eleição. Mas neste momento Ciro Gomes, apesar de seus inúmeros problemas, se posiciona como o capaz de atrair parcela considerável do eleitor da esquerda. Diferentemente da militância barulhenta que grita golpe nas redes sociais, o eleitor de esquerda quer mudança e política social, mas dentro da ordem. É o que Ciro Gomes pode representar.

Paulo Roberto Silva

Jornalista e empreendedor. Mestre em Integração da América Latina pela USP.