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O martírio psicológico de frei Tito

por Paulo Roberto Silva (17/05/2014)

Frei Tito foi um exemplo do cristão que busca seu lugar na modernidade

"Um homem torturado: Nos passos de frei Tito de Alencar", de Leneide Duarte-Plon e Clarisse Meireles

“Um homem torturado: Nos passos de frei Tito de Alencar”, de Leneide Duarte-Plon e Clarisse Meireles. (Civilização Brasileira, 2014, 420 páginas)

1.

Como parte dos esforços de se reconstituir a memória do que foi a ditadura estabelecida no Brasil a partir do golpe de 1964, a editora Civilização Brasileira lançou em abril Um homem torturado, um registro biográfico de frei Tito, dominicano preso e torturado pelo regime militar, banido do país e que se suicidou no exílio, após afundar em um profundo drama psicológico. A proposta do texto fica clara logo no início, naquilo que as autoras chamam “Panteão para os herois da resistência à ditadura”: “O livro pretende ser um entre outros testemunhos contra a política deliberada de organização do esquecimento”.

O texto é rico em detalhes biográficos e testemunhais daqueles que conviveram com o frei Tito de Alencar. E faz uma escolha na hora de organizar a história: prefere contar a história do militante, analisando a ditadura do ponto de vista daqueles que resistiram a ela. Por isso, os fatos estão organizados dentro de uma visão do “nós x eles”, idealizando a resistência – ainda que aponte as autocríticas óbvias à luta armada – e opondo-se ao mesmo tempo ao regime militar e ao que chama de “Igreja conservadora”.

O ponto é que a riqueza factual nos permite ir além do recorte histórico feito pelas autoras, e nos dá elementos para entender a história pessoal de frei Tito como a tragédia resultante do encontro histórico de dois conflitos paralelos e muito diferentes. Um deles é a guerra entre a ditadura e seus carrascos contra todos os que se opunham a ela. O outro é a crise e o profundo debate que se abateu sobre a Igreja Católica nos anos após o Concílio Vaticano II.

No primeiro caso, a dicotomia nós x eles é evidente e inescapável: a violência da ditadura se abatia sobre todos que ensaiassem alguma forma de contestação, e ou se estava ao lado dos carrascos ou das vítimas. No outro caso, a contraposição progressistas x conservadores mostra-se a um olhar distanciado cada vez mais artificial, obscurecendo nuances. Entre um Lefebvre e um Camilo Torres havia não um abismo, mas uma longa série de gradações.

Buscando ser mais claro do que estamos falando, recupero um parágrafo de meu artigo “A Igreja e o Espírito de Francisco“, publicado neste Amálgama:

O conflito entre progressistas e conservadores que se seguiu ao Concílio Vaticano II ofuscou a real contraposição que caracterizava a Igreja Católica desde a Contra-Reforma: a oposição entre o simples fiel inserido no meio do mundo e o alto clero. Para o simples cristão, o apego formal às tradições que caracteriza o tradicionalismo e o conservadorismo de um Lefebvre não dá conta dos desafios reais que um católico precisa enfrentar ao estar inserido na modernidade. Mas tampouco o progressismo de um Hans Küng consegue levar em conta as simples devoções que sustentam a fé do povo mais simples.

O frei Tito pré-tortura viveu em sua própria vida o desafio que cai sobre o cristão católico na modernidade. Sua síntese passava pela experiência da Ação Católica, especialmente na Juventude Estudantil Católica. Da militância, surgiu a sensibilidade às questões sociais, que naqueles conturbados anos 1960 passavam por uma leitura revolucionária do marxismo. Entretanto, não era uma síntese fácil. Os testemunhos dos que lhe eram mais próximos apontam diversos momentos de incerteza. As autoras mesmas afirmam:

Mas a militância do frade não era incondicional e sem reservas. Expressava suas inquietações, previa um confronto mais à frente entre cristãos e marxistas. Achava que o marxismo e o cristianismo eram incompatíveis como visão de mundo, mas seguia somando forças contra a ditadura.

A militância católica levou Tito a escolher a vida consagrada na Ordem Dominicana. Ali conviveu com lideranças religiosas que estavam envolvidas na resistência à ditadura, entre eles frei Betto. No Convento das Perdizes, em São Paulo, alguns frades davam apoio logístico a nada menos que à ALN, liderada por Carlos Marighela. De todos os grupos de esquerda daquele período, a ALN era a mais aberta a aceitar os católicos de esquerda. Naquele momento, a militância dominicana se via como a versão brasileira dos curas villeros, dos padres operários e dos sacerdotes que se envolveram na luta armada, inspirados em certa medida pela encíclica Populorum Progresso do Papa Paulo VI:

Certamente há situações cuja injustiça brada aos céus. Quando populações inteiras, desprovidas do necessário, vivem numa dependência que lhes corta toda a iniciativa e responsabilidade, e também toda a possibilidade de formação cultural e de acesso à carreira social e política, é grande a tentação de repelir pela violência tais injúrias à dignidade humana.

2.

Os dominicanos caíram como parte da onda de repressão deflagrada pelo DOPS após o sequestro do embaixador americano Charles Elbrick. O convento foi cercado e todos os frades suspeitos de vinculação com a ALN foram presos. Inclusive frei Tito, que embora próximo ao grupo e envolvido em algumas tarefas clandestinas, nunca fez parte da organização.

A prisão pegou um Tito em crise com a própria vocação e em tratamento psicanalítico. Em um momento normal, ele teria tido a oportunidade de discernir melhor o seu projeto de vida, e teria seguido em frente como padre ou como laico. Mas aquele não era um momento normal. Era um tempo em que brasileiros torturavam e matavam brasileiros com objetivo de sufocar as demandas sociais e as liberdades democráticas.

E este é o melhor momento da narrativa. A denúncia da tortura a que frei Tito foi submetido, com detalhes que tornam injustificável a atitude pusilânime de vários de seus irmãos de fé. Enquanto em público o regime se colocava como defensor da fé cristã contra a heresia dos dominicanos – o jornal O Globo dedicou-lhes um editorial em que os comparava a Judas -, no ato da tortura seus agentes repetiam acusações que deixariam um anticlerical corado: acusavam a Igreja de ser dona das maiores empresas do mundo, os padres eram chamados de homossexuais por não se casarem e usarem “saias”.

Apesar de toda a dúvida que ainda resta sobre a fidelidade religiosa daqueles que optaram por conciliar Cristo e Marx, detalhes do texto apontam para comportamentos que desmontam a lógica do “nós x eles” dentro do mundo católico. Enquanto os comunistas cantavam a Internacional, os cristãos preferiam um canto gregoriano. Os dominicanos se esforçavam para celebrar missas e obter os votos, apesar da proibição imposta pelas autoridades. E na luta para resistir à tortura e à prisão, buscavam conforto na leitura do Evangelho.

Troque o Brasil pelo Vietnã e os dominicanos pelo cardeal Van Thuan, e verá que não há diferença entre uma prisão de ditadura de esquerda e de direita. Talvez a de direita seja mais hipócrita, ao reivindicar a proteção da religião enquanto tortura padres e lhes retira o direito ao conforto espiritual.

Contudo, a lógica do “nós x eles” atravessava os dois lados do problema. Assim, relata-se a recusa de Dom Lucas Moreira Neves em testemunhar a tortura a que frei Tito foi submetido – alegou prejudicar seu trabalho pastoral – ou mesmo a dificuldade que ele encontrou quando, já no exílio em Roma, foi proibido de contar sua experiência de torturado no Colégio Pio Brasileiro, onde padres do Brasil se hospedam para realizar estudos de teologia.

A polarização progressistas x conservadores fez com que a política eclesiástica ficasse acima do dever de se compadecer pelos que sofriam. E assim como na parábola (Lucas 10,25-37) foi o samaritano inimigo quem cuidou do judeu ferido na estrada, foram os militantes de organizações marxistas quem deram na prisão e no exílio o apoio de que frei Tito necessitava. E a Ordem Dominicana, que jamais o abandonou, e cuidou dele até o último instante.

3.

As duas torturas a que frei Tito foi submetido – primeiro por Flery no DOPS, depois pelo capitão Albernaz no Doi-Codi – destruíram seu psicológico. Embora de início aparentasse altivez, aos poucos seu humor foi diminuindo e Tito mergulhou em uma profunda depressão. O banimento do Brasil e as dificuldades de adaptação no exílio podem ter piorado a situação. Nos últimos dias, via o delegado Fleury em todo lugar onde ia, e só via a morte como saída para vencer aqueles que o torturaram.

Neste sentido, Tito tornou-se um mártir psicológico. Embora não tenham sido seus algozes quem o enforcaram, eles o encaminharam para lá. Albernaz prometeu quebrá-lo totalmente por dentro, e conseguiu. Morreu acreditando no Evangelho voltado para os pobres, e não se pode dizer que trocou Cristo por Marx, como acusam aqueles que ainda insistem em justificar o injustificável, isto é, a tortura e a violência do Estado contra seus cidadãos.

Por isso Um homem torturado supera aquilo a que se pretende. Porque Tito não é o símbolo de uma Igreja progressista, em contraposição a uma Igreja conservadora. É, antes de tudo, um exemplo do cristão que busca tateando o seu lugar perante os desafios da modernidade, sem perder o apoio do Evangelho. Já dizia Bento XVI, quando ainda era apenas o teólogo Ratzinger:

Atado à cruz, mas a cruz não está presa a nada e está flutuando sobre o abismo. Dificilmente se encontraria uma imagem mais precisa e instigante para a situação do fiel cristão nos dias de hoje. Nada mais que uma trave solta balançando sobre o nada parece sustentá-lo, e parece que já podemos imaginar o instante em que ele irá soçobrar. Uma trave solta o liga a Deus, mas ela o liga de maneira tão definitiva, tanto assim que ele sabe, no fim, que esse pedaço de madeira é mais forte que o nada que fervilha embaixo dele e que continuará sendo a verdadeira força ameaçadora da sua vida presente.

Conhecer a fundo histórias como a de frei Tito deve servir para superar o abismo que muitas vezes parece reinar entre o formalismo do cristão conservador e o relativismo do progressista. E talvez, alguns sacerdotes e levitas devam pedir perdão por terem deixado seu próximo ferido na beira da estrada, para que apenas o samaritano o socorresse.

Paulo Roberto Silva

Jornalista e empreendedor. Mestre em Integração da América Latina pela USP.