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Reforma política: o não debate

por Paulo Roberto Silva (25/05/2015)

Câmara pode aprovar retrocesso político esta semana, e ninguém está prestando atenção

cunha

Nesta semana, Eduardo Cunha leva a reforma política ao plenário na Câmara dos Deputados. Trata-se de um golpe perigoso, que pode consolidar uma política oligárquica por anos. E trata-se de um estelionato político dos piores: fingindo atender a reivindicação das ruas, tenta enfiar goela abaixo um modelo que concentra poder nas mãos dos políticos.

O cerne da reforma política do Cunha é o chamado distritão: cada estado elege a mesma quantidade de deputados de hoje, mas a escolha não seria feita proporcionalmente ao voto dos partidos, e sim aos mais votados. Na prática, este projeto entrega o Congresso ao poder econômico e amplia a distância entre político e eleitor, além de fragilizar ainda mais a estrutura partidária. Além disso, seria mais uma jabuticaba institucional, que só existiria no Brasil.

Agora, quantos movimentos e líderes de opinião estão debatendo o tema? Poucos, muito poucos. Exceção honrosa aos cientistas políticos, talvez a única categoria a enxergar o tamanho do problema. Os movimentos de oposição estão focados no impeachment e pautas como a quebra do sigilo do BNDES. Os movimentos de esquerda se aferram a uma pauta sindical, como fator previdenciário e lei da terceirização. À exceção dos partidos, apenas poucos movimentos, como o Acorda Brasil e o Eu Voto Distrital, estão trazendo este debate.

A causa desta cegueira é a miséria intelectual generalizada, que nos leva à escassez de líderes e de estadistas capazes de promover transformações positivas. A estatura intelectual e política de um Tancredo Neves ou de um José Richa, por exemplo, é de envergonhar seus herdeiros na política. A fragilidade de um Lindbergh Farias nos faz sentir falta de um Genoino das antigas, aquele que na oposição conhecia o regimento de cor.

Esta miséria afeta as lideranças das ruas igualmente. Kim Kataguri não é o analfabeto político que lhe acusa Jean Wylys, mas um Luís Carlos Prestes colocaria os dois no chinelo, ao mesmo tempo. E afeta igualmente a imprensa, afundada nos passaralhos semanais, e que a torna incapaz de cobrir os fatos que realmente interessam. Aliás, a imprensa política brasileira é a grande responsável pela ausência da reforma política do debate público, quando optou por cobrir o circo chamado CPI da Petrobras.

Já dizia Platão que quando os bêbados assumem o comando do barco, o navegador experiente que usa as estrelas para se localizar acaba se passando por sonhador inútil. Pois bem. Este navio chamado Brasil está comandado pelos bêbados. E neste ambiente desastroso quem olha para a Reforma Política passa por sonhador inútil. Quando o efeito da embriaguez passar, será tarde demais: talvez o Cunha tenha se tornado uma espécie de Gaddafi tupiniquim.

Paulo Roberto Silva

Jornalista e empreendedor. Mestre em Integração da América Latina pela USP.