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Pessoas eram mortas com autorização da Presidência da República. Fracassamos como país ao não punir os criminosos.

Ernesto Geisel

Após a divulgação do documento da CIA, aberto há três anos e descoberto só agora por Matias Spektor, que confirma a existência de execuções no regime militar realizadas com a anuência dos presidentes generais, estou esperando a retratação do jornal Folha de S. Paulo que, em 2009, chamou a ditadura brasileira de “ditabranda”.

Falhamos como país. Deveríamos ser colonizados pela Bolívia. O regime militar passou incólume, os facínoras morreram em camas quentes e temos um imbecil fã de torturador liderando as pesquisas. A candidata comunista chegou a dizer que os ditadores pelo menos “tinham algumas visões mais nacionalistas que o governo atual”. Isso não é o país do futuro. É uma triste piada infame.

Enquanto não encararmos de frente que entre 1964 e 1985 o governo brasileiro, com o apoio de parcela da sociedade, decidiu matar e torturar seus próprios cidadãos, estaremos presos a esse trauma.

O que é a Narrativa do Golpe, senão uma ilusão baseada na chaga que os militares deixaram na alma brasileira? O que é a quantidade de pessoas que estão aplaudindo Geisel, inclusive nos comentários que serão feitos a esse artigo? O fato de Geisel, Médici e Figueredo não terem sido fuzilados, mas sim anistiados, é um problema.

A ditadura militar nos acostumou a nos submeter a bandidos. Não há diferenças entre eles, a quadrilha da Lava Jato, o PCC e as milícias que mataram Marielle Franco. Achamos bonito a submissão. Talvez por isso o lean manufacturing não faça sucesso por aqui: ele demanda trabalhadores autônomos, não submissos.

Um dia, daqui a algumas décadas, quem sabe superemos tudo isso.

Paulo Roberto Silva

Jornalista e empreendedor. Mestre em Integração da América Latina pela USP.