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Não houve uma única Dilma, mas diferentes

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Neste momento parece haver um consenso estabelecido sobre o que significa o governo Dilma: intervencionismo do estado na economia, isolamento dos movimentos sociais, leniência com a corrupção e falta de capacidade de interlocução com políticos e empresários. Este consenso, no entanto, é apenas a última face de Dilma. De 2010 a 2014, houve pelo menos três Dilmas diferentes.

A primeira Dilma é a que foi eleita e tomou posse. Diferente da Dilma atual, aquela Dilma era o sonho de consumo da classe média liberalizante: austera na gestão de recursos públicos, ortodoxa na condução da economia, intransigente com a corrupção. Era o tempo da “faxina ética”, nome dado à onda de demissões de ministros envolvidos em escândalos de corrupção. Era também o tempo da criação da Câmara de Políticas de Gestão, Desempenho e Competitividade (CGDC), liderada pelo empresário Jorge Gerdau.

Esta Dilma entregou um crescimento baixo e pressões por mais estímulo à economia. Como resultado da “faxina” e do estilo autoritário de comando, a burocracia estatal travou, e ficou difícil substituir ministros. Além disso, a própria faxina tinha problemas: os políticos caíam em desgraça, mas pouco se fazia para que fossem efetivamente investigados, julgados e condenados. Portanto, recuperar o poder de pressão política para eles era questão de tempo.

Veio então a segunda Dilma. Esta estava disposta a interferir na economia para fazê-la crescer. Medidas como desoneração de folha de pagamento, estímulos fiscais e controle de preços voltaram ao dia a dia da economia, enquanto todos pensavam que essas coisas haviam sido purgadas após o Plano Real. A intervenção veio num crescente, até chegar à mudança no contrato das elétricas, que assustou o mercado. Após este episódio em setembro de 2012, ficou claro que o intervencionismo dilmista estava indo longe demais.

Ao mesmo tempo, o perfil austero no trato da coisa política cedeu lugar ao toma lá dá cá. Configurou-se o fenômeno que Gerdau chamou de “burrice”, a criação indiscriminada de ministérios, quase 40. A aprovação de medidas como Código Florestal custava trocas de favores caríssimas entre governo e base aliada.

No início de 2013, aparece uma terceira Dilma. Na economia, correndo atrás do prejuízo, combinando medidas intervencionistas, como controle de preços, e liberalizantes, como concessões de aeroportos e blocos de petróleo. Na política, uma Dilma acuada pelo toma lá dá cá político, sem ter muito mais o que ceder.

Durante as jornadas de junho, parecia que iria surgir uma quarta Dilma. Por alguns momentos, pareceu que seu governo retomava a iniciativa. Ela poderia ter usado o clamor popular por menos corrupção para tentar se livrar do toma lá dá cá político. Mas não, tudo não passou de uma miragem. A terceira Dilma é a que continua entre nós.

Com apoio popular corroído, a base de governo se esfacelando, e tanto empresários quanto movimentos sociais questionando-a abertamente, Dilma parece apostar no processo eleitoral para tentar garantir seu segundo mandato. Se ela se reeleger, pode aparecer uma quarta Dilma. Mas qual será ela? Uma versão autoritária da terceira Dilma que estamos vendo agora? Ou uma retomada daquela primeira Dilma, que tanto prometia em termos de ética e gestão pública? Ou ainda nem uma coisa nem outra, mas algo ainda mais estranho e confuso? Só saberemos se ela se reeleger. Mas será que isso vai acontecer?

Paulo Roberto Silva

Jornalista e empreendedor. Mestre em Integração da América Latina pela USP.