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Junho 2013 – um ano depois

por Paulo Roberto Silva (21/06/2014)

Os interesses da classe baixa ascendente permanecem um mistério

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Há um ano, o país saía de sua insatisfação letárgica para uma onda de insatisfações que parece não ter se acabado. Contudo, seu conteúdo e seu significado permanecem um segredo para a grande maioria dos “analistas” que ocupam a grande mídia tentando explicar – quando tentam – o que se passa conosco. Dois fenômenos permanecem mal explicados: a raiz da insatisfação e sua relação com a complexa estrutura de interesses da classe baixa ascendente.

Este artigo busca, com base nas nossas reflexões do último ano, encontrar um caminho de interpretação independente, a partir de insights levantados em dois grandes projetos etnográficos diferentes entre si sobre “os de baixo” – o estudo liderado por Jessé Souza que resultou em Os Batalhadores Brasileiros e a pesquisa do Cenedic sobre o precariado liderada por Ruy Braga, que a consolidou em A Política do Precariado – e de pontos de reflexão próprios, alguns deles publicados aqui mesmo no Amálgama – como em “Mistérios na Base da Pirâmide” e “Um Conservadorismo Popular?“. Buscaremos traçar um perfil da dinâmica da insatisfação – ou insatisfações – e dos comportamentos da classe baixa ascendente de junho de 2013 para cá.

As insatisfações

Junho de 2013 não foi o retrato de uma insatisfação, mas de diversas insatisfações heterogêneas. Em comum, apenas a presença da juventude, mas se tratavam de juventudes diferentes de grupos sociais diferentes. Podemos agrupá-los em três tendências diversas:

  • A vanguarda. O MPL era parte de uma vanguarda de militantes que se formou durante dez anos de lulismo. Enquanto seus antecessores eram via de regra atraídos pelas estruturas da CUT, UNE e PT, a atual se constituiu enquanto essas estruturas estavam no governo. Por isso, ela se organizou em movimentos novos, como dos do passe livre e as marchas da maconha e das vadias. Por ser uma vanguarda nova, sem vínculos com as tradições de movimentos políticos e constituída durante um período de isolamento, desenvolveu uma incapacidade de dialogar com o cidadão comum.
  • A juventude da classe média tradicional. Enquanto seus pais no começo de junho assinavam em baixo de comentários como os de Jabor e compartilhavam memes curiosos como um que dizia um surpreendente “Chega de manifestações! Fora PT!”, seus filhos viram nas manifestações de junho uma possibilidade de expressar as insatisfações de sua classe, com pautas contra a corrupção e os altos impostos.
  • A juventude da “nova classe média”, ou nova classe trabalhadora, ou precariado, ou subproletariado, enfim. Esta foi a categoria mais beneficiada pelos dez anos de lulismo. E ela descobriu novas necessidades. Percebeu que os serviços públicos não têm a qualidade que precisam, sua renda ainda não dá conta dos gastos da família, e, principalmente, ainda não perdeu o estigma de morador da periferia. A revindicação por um transporte mais barato veio ao encontro de suas agruras diárias.

Cada grupo foi à rua com a sua pauta, e assim todos se encontraram nas ruas do Brasil. Mas eles não estavam preparados para conviver. Os conflitos que se viram nas ruas de São Paulo em 20 de junho foram um sinal de que, apesar do momento de união, as diferenças seriam difíceis de serem conciliadas.

Após junho, cada grupo seguiu com sua própria pauta. A vanguarda concentrou-se na estratégia suicida da estratégia black bloc, em atos com pautas genéricas como Fora Cabral e #NãoVaiterCopa. A juventude da classe média tradicional se concentrou em enfrentar o projeto do Mais Médicos, sequestrar beagles ou tentar algumas passeatas de Fora Dilma. E a classe baixa ascendente incendiou as periferias em conflitos com paradas de estradas e queimas de ônibus. Cada um ao seu modo se isolou do outro. Por isso, de junho a dezembro de 2013, houve um enfraquecimento das movimentações de massa e uma crescente condenação das táticas violentas adotadas por cada um dos grupos.

Um novo ciclo de manifestações se abriu com a greve dos garis do Rio de Janeiro, em fevereiro deste ano, e se prolongou até a greve dos metroviários de São Paulo, em junho. Setores da classe baixa ascendente voltaram a se manifestar, desta vez por meio das táticas usuais do movimento social – greves e ocupações. A principal novidade foi o surgimento de uma nova liderança, que articulou movimentos grevistas por fora das direções tradicionais dos sindicatos.

Neste novo ciclo a vanguarda e os setores da classe baixa em luta estruturaram uma nova aliança de luta, enquanto a classe média tradicional se aferrou ao discurso da ordem. Isto deu às manifestações um novo fôlego, especialmente por conta do apoio logístico de sindicalistas ligados à extrema esquerda, como o PSTU e a Conlutas, aos movimentos grevistas dissidentes. Em geral, mantiveram-se no controle dos movimentos as direções que se posicionaram ao lado da base em luta – caso dos sem-teto de São Paulo, profissionais da construção civil da Bahia e metalúrgicos de São José dos Campos.

Por outro lado, a classe média tradicional como um todo se aferrou ao discurso da ordem, exigindo ações duras dos governos contra as greves. Isso explica o apoio de massas obtido pelo governador Geral Alckmin no enfrentamento com os metroviários, enfrentamento este caracterizado por nenhuma negociação e total truculência.

E assim chegamos, um ano depois, a dois polos de insatisfação constituídos na sociedade, com perfis de classe bem definidos:

  • O ódio à esquerda. A classe média se aglutinou em torno de um discurso de defesa da ordem e ódio ao “perigo comunista/bolivariano”, materializado no governo do PT. Este polo entende como principal tarefa política do momento “tirar o PT do governo”, e vê nas insatisfações da classe baixa ascendente indícios de uma manipulação articulada supostamente pelo governo Dilma.
  • O desejo popular de mudança. Os setores em luta da classe baixa ascendente manifestam também o desejo de mudança, mas no sentido de uma maior inclusão social. Querem mudança, mas ainda não está claro quem os represente. Na dúvida, ainda se mantém apoiando Dilma, mas este apoio não é incondicional.

Os dois polos podem ser difíceis de conciliar, até porque setores do polo do ódio vê o outro como seu inimigo. Enquanto um polo vaia Dilma na abertura da Copa, o outro considera falta de educação. Contudo, ver a classe baixa ascendente como monolítica é um erro de análise. Até porque as suas heterogeneidades podem abrir o caminho para uma vitória da mesma direita que se apoia no polo do ódio.

As heterogeneidades na base da pirâmide

A classe baixa ascendente em luta é apenas uma parte da classe baixa. Dentro da periferia, há processos de diferenciação entre os mais pobres que aproximam alguns da mentalidade mais radical dos mais ricos – embora não lhes retire o estigma social. É difícil agrupar os grupos de forma bem definida, mas podemos listar alguns eixos de diferenciação social na periferia:

  • Capital cultural. Entre os mais pobres, o acúmulo de capital cultural aproxima o sujeito de posições à esquerda. É o que acontece com professores de rede pública, por exemplo, que oferecem quadros importantes para organizações como PT, PSOL e PSTU. Os setores populares mais conservadores costumam ser também os de menor educação formal ou mesmo de menos consumo de bens culturais, como livros.
  • Acesso ao mercado de trabalho. Enquanto os trabalhadores mais qualificados não apresentam um alinhamento claro, os menos qualificados costumam ser alinhados a um discurso conservador. Isto porque a vulnerabilidade de suas vidas os leva a valorizar elementos como ordem social e estabilidade econômica. Mas este conservadorismo costuma ter traços populistas, pelo alto grau de necessidades imediatas a serem atendidas. Isto os leva ao apoio de lideranças como Maluf e Feliciano. A exceção costuma ser os casos em que os mais pobres são organizados em movimentos sociais, como os de sem-teto e sem-terra.
  • Capital familiar. Os setores populares com estrutura familiar preservada tendem a ser menos populistas e mais defensores de uma certa ética do trabalho duro. Isto não significa necessariamente um alinhamento à direita, uma vez que lideranças de movimentos sociais e sindicais também surgem destes mesmos setores.
  • Religião. Evangélicos e também os católicos praticantes nos últimos tempos tendem ao conservadorismo político e ao alinhamento à direita.
  • Empreendedorismo. Pequenos empresários na periferia costumam ser mais conservadores e apresentar um maior alinhamento à direita.

Ou seja, existem vários fatores que aproximam o polo do desejo de mudança à oposição ao governo do PT, caso esta consiga estruturar um diálogo efetivo com os anseios de mudança. Um caso bem sucedido é o mais recente programa de TV do DEM, que soube falar diretamente com os setores populares mais conservadores. Unidos ao polo do ódio, estes setores podem representar à oposição as chances de vitória.

Perspectivas

É difícil prever como se comportará a insatisfação ou as insatisfações daqui pra frente. Neste momento, os setores da classe baixa que foram à luta encontram-se de certa forma desgastados. Mas a greve dos garis mostra que isto pode mudar a qualquer momento. Até porque os fatores de insatisfação continuam presentes, e até podem se intensificar em um contexto de ajuste recessivo.

Contudo, dá para traçar alguns cenários eleitorais.

Do ponto de vista do governo, a armadilha é clara: as suas chances de vitória estão em manter ao seu lado os setores mais populares, dialogando com o desejo popular de mudança. Contudo, isto esconde uma necessidade de expansão fiscal em um momento de estagnação econômica. Como atender às demandas populares em um contexto de ajuste recessivo?

Para a oposição, a dúvida que fica é: uma vez vencedores, qual dos polos será privilegiado? O polo do ódio ou o do desejo popular de mudança? Porque não será possível atender a um sem desatender ao outro. Logo, quem a oposição está disposta a abandonar caso se torne governo?

Paulo Roberto Silva

Jornalista e empreendedor. Mestre em Integração da América Latina pela USP.