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Raízes do ódio anticristão

por Paulo Roberto Silva (08/06/2015)

Por que os cristãos se tornaram alvos fáceis da crítica social?

silas

Na virada da monarquia para a república, liberais de origem maçônica e militares positivistas criaram em Tiradentes um herói nacional. Anticlericais os primeiros e ateus os segundos, não tiveram dúvida em retratá-lo como uma espécie de Cristo. 7 de junho de 2015. Na Parada Gay, ativistas reagiram às críticas de grupos cristãos à sua pauta por meio de imagens contrárias à figura de Cristo.

O que mudou? Mudou o contexto em que os dois fatos se deram. No final do século XIX, uma crítica pública contundente à religião poderia gerar forte oposição da opinião pública. No início do século XXI, a mesma opinião pública é no mínimo indiferente ao tema, quando não apresenta fortes restrições. Ouso dizer que nunca antes na história do Ocidente o anticristianismo teve tanto apoio de massas.

Podemos acusar neste sentido quem quisermos: as ideologias, o materialismo. Contudo, eles sempre estiveram aí, e a devoção das massas permaneceu incólume. 70 anos de regime comunista não diminuiu o apego dos russos às suas tradições ortodoxas. A Igreja polonesa emergiu do regime ateu mais vibrante do que era antes dele. Os longos anos de anticlericalismo de estado no México tampouco alteraram a relação do mexicano com o catolicismo. Contudo, países de longa tradição cristã como os da Europa Ocidental ou mesmo o Brasil veem o avanço de um laicismo militante inédito.

As causas que melhor explicam o que está havendo com o cristianismo parecem ser internas. Explico algumas:

  • O avanço de uma espiritualidade burocrática. Chesterton, ao avaliar o período vitoriano, afirma que ali não havia a hegemonia da religião, mas sim de um moralismo arreligioso. Como consequência, a geração posterior tornou-se mais anticlerical por questionar aquela fé morta e ritualista de seus pais;
  • Conflitos entre cristãos. A má fama dos evangélicos neopentecostais surgiu do incômodo que seu avanço causou sobre católicos e protestantes tradicionais. Da mesma forma, neopentecostais acusados de charlatanismo usaram seus meios de comunicação para devolver na mesma moeda;
  • Certas formas de proselitismo. Grupos evangélicos são particularmente conhecidos por “virar a cara” a quem se recusa a acompanhá-los em seus cultos;
  • Os casos de abusos. Estima-se que gerações inteiras de alunos de colégios católicos tenham sido expostos a assédio moral e sexual por sacerdotes. O escândalo afetou a maioria das organizações católicas, com honrosas exceções como o Opus Dei. Pessoas formadas nestes ambientes de abuso tenderam a desenvolver uma ojeriza a temas cristãos;
  • Os escândalos financeiros. Casos como o dos fundadores da Renascer, detidos por um longo período nos Estados Unidos, reduziram o apelo da pregação.

Por tudo isso, a defesa de temas morais por grupos cristãos soa ao ouvido comum como hipocrisia. E a agressividade com que certas lideranças, ao estilo Malafaia, se posiciona reforça essa percepção, em uma sociedade machucada pelos pecados dos cristãos.

São Josemaria costumava dizer que “as crises mundiais são crises de santos”. O mesmo se dá no campo cristão dentro das sociedades ocidentais. Faz-se necessário reconstruir a reputação de Cristo e dos cristãos, e isso só será possível por meio de um longo exercício de piedade e misericórdia por parte das igrejas. Menos Malafaia, mais Bergoglio.

Paulo Roberto Silva

Jornalista e empreendedor. Mestre em Integração da América Latina pela USP.