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Sim, vamos falar de putaria

por Martim Vasques da Cunha (02/06/2016)

A "Nova Direita" precisa ler menos Mises, Reinaldo, Olavo, Pondé, e ler mais Henry Miller, ver mais filmes do Walter Hugo Khouri.

Jacqueline Myrna em "As cariocas" (1966), de Walter Hugo Khouri

Jacqueline Myrna em “As cariocas” (1966), de Walter Hugo Khouri

Um dos fatos mais tristes com o qual a chamada “Nova Direita” – que possui um espectro deveras vasto, que vai da “direita conservadora católica” até os “libertários defensores da maconha e contra a homofobia” – tem de enfrentar é a questão do sexo.

Ou ela o rejeita como se fosse uma coisa dos infernos, ou ela o abraça como a fuga definitiva e sem volta das misérias deste “vale de lágrimas” que o livre mercado não consegue resolver.

O resultado dessa atitude é uma falta de traquejo nas coisas mais complicadas da vida, em que os da “direita” optam pelas justificativas mais covardes, jogando a sua responsabilidade ou no padre da paróquia, ou no ideólogo de plantão que surge a cada cinco minutos.

E a raiz deste problema é uma reação sem nenhuma sutileza de aceitar que o Amor (sim, é chegado agora o momento em que devemos falar essa palavrinha maldita como o José Dirceu), e sua companhia erótica, são também educadores de sensibilidades – e, em especial, no caso do homem, por meio da figura feminina e, no caso da mulher, por meio da masculina (e só aceito o lesbianismo se, claro, eu também participar da jogada).

Por isso, o que a “Nova Direita” precisa agora é ler menos Mises, menos Reinaldo Azevedo, menos Olavo de Carvalho, menos Luiz Felipe Pondé (que escreve uns textos equivocadíssimos sobre o tópico da vida erótica) – e ler mais Henry Miller, ver mais filmes do Walter Hugo Khouri e praticar a velha e boa putaria somente com a sua alma gêmea, escolhida sob sabe-se lá qual o fator do acaso.

Por exemplo: se todos os polemistas da mídia e do Facebook, tanto da direita como da esquerda, tivessem lido a obra de Henry Miller, certamente a discussão sobre o estupro da jovem de 16 anos por trinta-e-três degenerados talvez fosse percebida com mais matizes do que a imbecilidade habitual. Ou seja: saberiam, neste mundo onde o céu é azul e a água do mar é salgada, que há uma diferença essencial entre “estupro” e a liberdade de se auto-destruir (e aqui vai um recado para as desavisadas feministas: isso acontece até mesmo com moças de 16 anos, já que, depois da publicação de Lolita, de Nabokov, todo mundo sabe o que uma menina de quatorze anos sabe fazer com uma raquete de tênis).

Para quem ainda não sabe quem é Henry Miller, sugiro a leitura deste texto do Times Literary Supplement. Miller foi um dos grandes escritores do século XX e, como todo artista que importa, ele irritou os puritanos (com sua descrição despudorada do ato sexual) e os progressistas (com sua defesa intransigente da consciência individual e um saudável ceticismo sobre a melhoria da natureza humana). Quem quiser entrar de cabeça em sua obra, recomendo a trilogia Sexus, Plexus e Nexus, um verdadeiro épico do corpo e do desejo, que mostra como a putaria pode ser um caminho de ascese para salvar as nossas almas.

Porque, de resto, o que a tal da “Nova Direita” precisa saber é que, depois da esbórnia, sobra apenas o nada que se torna o tudo. A velha esquerda já fez isso a mancheias, não aprendeu coisa nenhuma com isso – e olha no que deu. Imagine então o que pode acontecer com quem acha que venceu (prematuramente) a tal “guerra cultural e política”?

Martim Vasques da Cunha

Autor de Crise e utopia: O dilema de Thomas More (Vide, 2012) e A poeira da glória (Record, 2015). Pós-doutorando pela FGV-EAESP.