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Entre achados e achados, uma pequena história da música clássica no país

por Leandro Oliveira (11/06/2018)

São esforços como esse que possibilitarão a futura sedimentação da boa discussão pública sobre a arte e a cultura no país.

“História concisa da música clássica brasileira”, de Irineu Franco Perpetuo (Alameda Editorial, 2018, 336 páginas)

Jorge Luís Borges comenta que arrumar a biblioteca é um modo de crítica literária. Após a leitura, não tive dúvidas: A história concisa da música clássica brasileira, do tradutor e crítico musical Irineu Franco Perpetuo, está na minha biblioteca ao lado do Livro de ouro da história da música clássica (1958), do também jornalista e crítico cultural Otto Maria Carpeaux (1900-1978).

E é assim não apenas pelo objeto específico de seu tema, mas também e sobretudo pelos termos como a história da música é tratado – através de uma grande panorâmica, cuja leitura é convidativa tanto para o melômano comum quanto o profissional que eventualmente queira ter um resumo culto do assunto, como uma pequena história onde nomes e estilos jorram das páginas em seqüência por vezes vertiginosa, mas sempre organizados segundo critérios claros, cronológico ou temático.

E é convidativa, pois, assim como Carpeaux, Perpetuo mostra-se um leitor voraz do amplo mas notadamente esparso quadro de referências da produção musical nacional. Se algum elogio inequívoco deve ser feito ao livro, é este: ao digerir um bibliografia enorme sobre o tema da música brasileira, o autor não apenas traça um bom roteiro, mas acaba também por apontar as referências ao leitor curioso que queira um eventual aprofundamento futuro em tema específico – temas que podem ser aguçados tanto a partir de aspectos estilísticos de compositores menos conhecidos como Alberto Nepomuceno (com a Formação germânica de Alberto Nepomuceno, de João Vidal, por exemplo), quanto no universo técnico de importantes textos canônicos sobre a música brasileira produzido pela musicologia internacional (como a trilogia de Lisa Peppecorn, para a obra de Villa-Lobos).

Dirigido ao leitor não técnico, A história concisa… cumpre sua função autodeclarada, a saber, “relacionar nossa música clássica com os fatos históricos e culturais de sua época (inclusive a música popular), e situar seus criadores no ambiente intelectual e social brasileiro”. Evidentemente, pelo caráter, amplitude e o espaço necessariamente exíguo, por vezes há de se ter a impressão mais de uma “pequena crônica da história do Brasil através da música clássica” que de fato um livro que matize ou pondere devidamente as matrizes estéticas e técnicas, as inquietações biográficas, questões sócio-econômicas da produção musical ou o impacto específico de determinadas obras no ambiente de sua recepção – alguns dos critérios técnicos conhecidos para um estudo histórico-musicológico stricto senso.

À diferença de Carpeaux, Perpetuo exime-se de julgamentos levianos – o que talvez tenha permitido ao livro do autor austríaco seu mais justificado envelhecimento. Essa característica, por si só sumamente positiva do livro de Perpétuo, no entanto, e em algumas poucas vezes, acaba no seu efeito contrário. É quando, no afã de a todos comentar, o livro ganha a cara de um grande compêndio onde os tantos nomes que participaram desta complexa trama tecida pela música clássica brasileira, sejam eles mais ou menos relevantes, se sucedam numa certa vertigem, acabando por serem nivelados sob a mesma medida – à dimensão de um ou dois parágrafos.

Mas isso não é necessariamente um problema – talvez apenas uma opção narrativa. Se for preciso uma crítica frontal, aqui está: o livro poderia ter passado por uma revisão mais acurada, pois é uma pena que o esforço do autor seja publicado com pequenos pecados de editoração (palavras repetidas, frases soltas) – problemas que deverão e poderão ser facilmente sanados numa segunda edição ou reimpressão que, não tenho dúvida, a obra merece.

A história concisa… surge como um livro indispensável não apenas ao amante da música clássica, mas ao estudioso da cultura brasileira. Irineu mostrou, com linguagem acessível e culta, como pode-se traçar uma linha narrativa despida de ideologias ou beletrismo para a música clássica brasileira. São esforços como esse que possibilitarão a futura sedimentação da boa discussão pública sobre a arte e a cultura no país, área em que nosso maior problema segue sendo o de contar com parcas, parquíssimas, referências factuais para o público médio.

Leandro Oliveira

Doutorando em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Mackenzie. Anfitrião do projeto “Falando de Música” da Osesp.