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Um olhar sobre a educação em Caminho das Índias

por Amálgama (24/07/2009)

por Gerusa Silva * – A autora de telenovelas globais Glória Peres é conhecida pelo público e mídia como aquela que aborda temas diversificados em suas tramas, com os quais pretende chamar a atenção da sociedade brasileira para problemas e realidades até então não exploradas, e suscitar, segundo a própria, a devida discussão em torno […]

por Gerusa Silva * – A autora de telenovelas globais Glória Peres é conhecida pelo público e mídia como aquela que aborda temas diversificados em suas tramas, com os quais pretende chamar a atenção da sociedade brasileira para problemas e realidades até então não exploradas, e suscitar, segundo a própria, a devida discussão em torno destes. Porém, a simples ação de colocar o assunto em pauta é insuficiente quando não se cria o tom necessário ao problema. E desta forma o resultado pode ser outro, muitas vezes insatisfatório.

Digo isso, pois tenho acompanhado na atual trama da autora, Caminho das Índias, as dificuldades enfrentadas por uma professora, interpretada por Silvia Buarque, em lidar com estudantes indisciplinados de uma escola privada. E até aí tudo certo, afinal questões deste tipo são extremamente comuns em escolas, e geram discussões das mais variadas sobre qual é o papel do professor perante tal situação, levando para muito além a pauta sobre o que compreendemos do termo disciplina e a sua aplicação dentro do universo educacional. Algo que realmente deve ser desmistificado, já que a maioria das pessoas ainda liga o termo a situações onde se obedece cegamente, e onde o estudante deve ser o único a se enquadrar, não podendo jamais questionar as ações do professor.

Na novela mostra-se realmente a indisciplina que preocupa, e com a força da licença poética da autora podemos assistir a situações onde um aluno joga um objeto no rosto da professora. O que, em uma situação real, em escolas reais, sejam estas públicas ou privadas, não renderia menos que uma expulsão deste por parte da instituição, mas que na novela rendeu apenas uma advertência. Com o agravante da cena que envolve os pais do aluno, onde afirmam categoricamente que não deveriam ser incomodados por situações deste tipo, já que pagam a escola para que justamente esta cuide da educação do seu filho. Afirmação que embrulha o estômago de qualquer educador, e que poderia ser bem aproveitada em vários aspectos, como para discutir a falsa ideia de que a escola é a única responsável por resolver os problemas da sociedade, e para isso precisa se armar de todos os profissionais possíveis, e fazer da figura do professor, não a de um educador, mas sim de uma babá que deve vigiar todos os passos dos seus alunos. Ou ainda, poderia ser discutida a desvalorização do profissional docente, do detrimento do exercício do magistério em relação às outras profissões. Mas ao invés disto, passamos para a outra cena, que mostra uma Juliana Paes luxuosa, em uma Índia que também possui várias licenças poéticas.

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Só que atuações como estas não deveriam ser uma surpresa para minha pessoa, e realmente não são. Pois não podemos esperar mais de uma emissora que põe no ar sua programação educativa aos sábados, em um horário que a maioria dos estudantes está dormindo. E que vende os seus módulos de Telecurso por milhões, para que governos e empresas substituam professores por uma televisão, e por facilitadores que não estão habilitados a tirar as dúvidas dos estudantes. Sem falar no programa “Amigos da Escola”, que no incentivo da sociedade civil ao voluntariado, desvia a atenção destes no que diz respeito a cobrar do Estado medidas necessárias à melhoria efetiva da educação, que vão muito além dos métodos paliativos propostos pelo programa, e prejudica, mesmo que de forma indireta, a contratação de profissionais capacitados para realizar as ações feitas pelos voluntários.

O problema é que situações como a lembrada aqui, jogadas entre uma cena e outra da novela, conseguem um alcance nacional, mas resultam em olhares embaçados sobre um problema tão sério, que não trazem bons frutos a não ser pra Globo, que usa de tais cenas para produzir a propaganda de emissora com responsabilidade social. E nestas horas, professores alertando estudantes a terem um olhar crítico sobre tudo o que é mostrado na mídia brasileira, fazem muita falta.

* Gerusa Silva está se formando em Pedagogia pela Universidade Federal do Maranhão. Blog: overboestar.blogspot.com

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