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A memória libertada por Patrick Modiano

por Gustavo Melo Czekster (05/07/2015)

Impossível ler Modiano e não lembrar do "vasto palácio da memória" de Santo Agostinho

"Uma rua de Roma", de Patrick Modiano (Rocco, 2014, 244 páginas)

“Uma rua de Roma”, de Patrick Modiano (Rocco, 2014, 244 páginas)

"Ronda da noite", de Patrick Modiano (Rocco, 2014, 128 páginas)

“Ronda da noite”, de Patrick Modiano (Rocco, 2014, 128 páginas)

"Dora Bruder", de Patrick Modiano (Rocco, 2014, 144 páginas)

“Dora Bruder”, de Patrick Modiano (Rocco, 2014, 144 páginas)

Das muitas maldições que podem ser atribuídas a um escritor, nenhuma é mais temida do que a “palavra única”, o tema que se insinua nos seus escritos, a expressão capaz de resumir a obra passada e os livros ainda vindouros. Como um mágico que tem o seu segredo revelado para a plateia, o autor é subitamente enquadrado em uma categoria e, não raro, todos os seus livros passam a ser encarados sob este viés reducionista, impedindo os leitores de ver detalhes na sua tessitura e formação que seriam também relevantes.

Por ocasião do anúncio do Prêmio Nobel de Literatura de 2014, a Academia Sueca afirmou ter escolhido Patrick Modiano graças à “arte da memória com a qual evocou os destinos humanos mais inapreensíveis e jogou luz sobre a vida durante a ocupação”. A palavra “memória” serve para designar o tema preferencial de Modiano, mas, escapando deste bloqueio – e da tentação frequente de encarar os livros sob tal prisma –, o que se percebe é uma obra que aborda questões existenciais, usando uma prosa fluida, que se dissipa e se renova em um misto de texto jornalístico com ficção. Neste contexto, a memória não é somente uma circunstância temática, mas o filtro através do qual os homens reescrevem a sua própria experiência.

Ao final da leitura de Ronda da noite, Uma rua de Roma e Dora Bruder, três livros de Patrick Modiano lançados pela Rocco, impossível não lembrar uma das mais belas visões da memória humana, presente na obra de Santo Agostinho: a noção do “vasto palácio da memória”, um lugar onde “estão guardados todos os nossos pensamentos, quer aumentando, quer diminuindo, quer modificando de qualquer modo as aquisições de nossos sentidos, e tudo o que aí depositamos ou reservamos, se ainda não foi sepultado ou absorvido pelo esquecimento”. Para Santo Agostinho, a memória se forma de todas as experiências humanas, sendo transformada, através da recordação, em uma imagem e, desta, em linguagem. A memória do passado permite a modificação do presente; ao recordar de algo, pretendemos que a experiência já vivida seja capaz de mudar o futuro.

Quando inserida em um texto literário, a memória surge como forma de potencializar o conflito humano. No caso de Ronda da noite, o livro se passa na Paris do período da ocupação nazista. Ao caminhar pelas ruas e encontrar tanto pessoas reais quanto fantasmas das próprias recordações, a personagem acaba se deparando com o dilema de ter uma vida dupla, em um processo de fragmentação que se reflete na sua linguagem.

Por ser um agente duplo, servindo a Resistência francesa e os nazistas, Marcel Petiot oscila entre a figura do soldado e a do traidor, a do covarde e a do herói. Incapaz de se decidir por um lado, pressionado pela consciência do agir certo em oposição à necessidade de sobrevivência, o narrador é esmagado pela História, e para realizar este movimento de dúvida, a linguagem de Modiano é essencial. Por meio da fusão de diálogos, de cenas sobrepostas e da música que ressoa por todo o livro, o leitor mergulha na alma de alguém em dúvida sobre as suas condutas, imerso em um caleidoscópio de outras vozes e interesses.

A memória da ocupação de Paris é um elemento importante, mas não decisivo, e o fato de Marcel Petiot ter um correspondente na realidade, em dois agentes duplos que realmente existiram (Henri Lafont e Pierre Bonny), não modifica o grande conflito descrito no livro: é possível viver com integridade sem escolher um lado? A indecisão é uma forma de agir? O quanto podemos capitular da nossa moral sem perder a alma? São dúvidas que ecoam no livro, e a estrutura caótica, formada por longos parágrafos e pela constante confusão entre primeira e terceira pessoa, ajuda o leitor a entrar na instabilidade emocional vivenciada pelo narrador.

Em Uma rua de Roma, Patrick Modiano usa os truques da narrativa policial para contar a história de um detetive que, imerso em um inesperado surto de amnésia, resolve usar os seus conhecimentos para buscar a própria identidade. Das três obras de Modiano, foi a de leitura mais acessível, ainda que tal acessibilidade seja enganosa, pois o leitor é conduzido por um labirinto de recordações falsas.

O narrador não é confiável. Assim como o leitor, ele está aprendendo sobre si mesmo e, nesta busca, é fácil se perder ou acabar sendo iludido por informações desencontradas. Em muitos aspectos, o livro encontra um inusitado paralelo com A misteriosa chama da rainha Loana, de Umberto Eco, com a diferença de que, neste, o narrador precisa encontrar a memória através de uma miscelânea de objetos, enquanto que, para o escritor francês, memória e identidade são aspectos que andam juntos e só se revelam através do contato direto com locais e com seres humanos. Uma pessoa não pode saber quem é sem conhecer o passado que lhe formou.

Destaque especial para o clima noir da história, repleta de bares, de ruas decadentes e de ambientes sombrios, além dos capítulos curtos e intensos, sem nenhum traço estilístico que não seja contar a história. A busca de Guy Roland pelo seu passado revive a ideia de que um homem sem história é alguém, por natureza, sem futuro.

Por sua vez, Dora Bruder é o romance mais autobiográfico de Patrick Modiano e o que possui um tom jornalístico mais acentuado. Ao contar a história da judia Dora Bruder, partindo de um anúncio no jornal Paris Soir lido no dia 31 de dezembro de 1941, o autor revela a forma com que aconteceu a ocupação de Paris pelos nazistas, dando detalhes que mostram como os alemães se impuseram e a maneira através da qual parte dos franceses se deixou subjugar. Através da análise da situação vivida pela mulher, Modiano revela as suas recordações sobre este período da Segunda Guerra Mundial. O drama individual passa a espelhar o coletivo.

No aspecto da estrutura, a narrativa não se constrói de forma linear, e sim por meio de fragmentos de cartas, de depoimentos, de reportagens e de diários. Assim como a busca obsessiva por Dora consome o autor e o faz mergulhar no seu passado, através dos fragmentos juntados, o leitor se sente como se estivesse tentando capturar uma nuvem, uma figura etérea e intangível que, quando imaginamos ver, está sempre um pouco mais distante. Ainda que a ideia de relembrar o passado para não repeti-lo remeta à memória ainda traumatizada do pós-guerra na Europa, Dora Bruder também pode ser visto como a tentativa de construir a identidade no meio de um mundo eivado de caos e desordem.

Em vários momentos, o autor alude à sua incapacidade de encontrar a mulher desaparecida. Frustrado, reconhece que a quase inexistência de elementos palpáveis faz com que a história de Dora Bruder tenha mais lacunas no lugar de certezas. Ainda assim, o seu esforço para realizar uma tarefa condenada ao fracasso e ao vazio faz com que o livro se torne uma homenagem não só à judia outrora deportada, mas a todos os anônimos que acabaram se desvanecendo sem rastro na poeira da História.

Nem todo escritor agraciado pelo Prêmio Nobel de Literatura possui a capacidade de continuar sendo lido com a passagem dos anos. No entanto, a segurança com que Modiano desenvolve as suas tramas e, em especial, a sua busca pelo imanente e por aquilo que nos transforma em humanos garante relevo para seus livros. Seja caminhando atrás da identidade perdida, como acontece em Uma rua de Roma, seja por meio dos dilemas morais e das angústias suscitadas em Ronda da noite, seja pela busca obsessiva de uma pessoa através da memória de um povo, como no caso de Dora Bruder, Modiano mostra para o leitor que o passado continua presente nos dias atuais, ecoando entre os homens dispostos a escutá-lo, e que, ao melhor estilo do apregoado por Santo Agostinho, somente a linguagem é capaz de transformar as experiências em aprendizado para o futuro.

Gustavo Melo Czekster

Autor dos livros de contos Não há amanhã (2017) e O homem despedaçado (2011). Doutorando em Letras pela PUCRS.