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O Brasil pode tomar no Cunha

por Paulo Roberto Silva (17/07/2015)

O fraco governo Dilma traz menos risco à Lava Jato que um eventualmente poderoso governo Cunha

cunha-rompe

Pois se até Satanás pode se disfarçar de anjo de luz, quanto mais
seus ministros podem se passar de ministros da Justiça
São Paulo

Dia 17 de julho é o dia em que os católicos se lembram dos 40 mártires do Brasil. Tratam-se de 40 missionários jesuítas que foram abordados por piratas protestantes em pleno Oceano Atlântico há 500 anos. Todos naufragaram. A lição que fica é: desde o descobrimento o Brasil sofre nas mãos de piratas religiosos, como Malafaia, Crivella, e o maior de todos, Eduardo Cunha.

No mesmo 17 de julho, cinco séculos depois, Eduardo Cunha anunciou sua oposição ao governo Dilma. O antipetismo anda tão exacerbado que os inocentes úteis da oposição o saúdam como grande aliado. Sinal de estupidez política. Cunha está mais para o truculento Costa e Silva que para o pobre golpista Auro Soares de Moura Andrade, o presidente do Congresso que legitimou o golpe militar.

De todas as frentes políticas em ebulição, a Lava Jato é a mais civilizatória, e a única de onde pode emergir um Brasil melhor. Por isso, Eduardo Cunha trata de deslegitimá-la, colocando Sérgio Moro, PF e MPF no mesmo saco. Os movimentos de rua são facilmente manipuláveis – eles já o estão saudando. A oposição parlamentar é débil, pusilânime e incompetente. O PT está no volume morto. O único empecilho ao projeto de poder de Eduardo Cunha é a Lava Jato.

Se todo problema fosse o governo Dilma, Eduardo Cunha agiria para vê-lo sangrar e se estabelecer como o governo de fato. Mas a Lava Jato o está alcançando. Daí que ele tenha mudado de estratégia, e colocado o impeachment na mesa. Só com o poder de direito nas mãos Cunha pode enquadrar a Polícia Federal, o Ministério Público e o juiz Sérgio Moro.

Por isso, um fraco governo Dilma contribui mais para o avanço democrático e institucional que pode advir da Lava Jato que um eventualmente poderoso governo Cunha. Seja diretamente, seja tendo Michel Temer como seu títere. Cunha é perigoso. O bandidão Alberto Youssef teme por sua vida nas mãos dele. Júlio Camargo titubeou. Imaginem-no com poder.

Resta torcer para que haja um mínimo de bom senso e habilidade política entre aqueles que podem barrá-lo em suas pretensões, como a oposição e seus pares no PMDB. O sucesso de Cunha será também a derrota deles, esperamos que entendam.

E em um eventual governo Cunha, todos os colaboradores do Amálgama teriam que pedir asilo político no exterior.

Paulo Roberto Silva

Jornalista e empreendedor. Mestre em Integração da América Latina pela USP.