PESQUISA

Pesquisa Datafolha tenta reconstituir o quadro eleitoral

por Vinícius Justo (19/08/2014)

É visível a movimentação de votos de Dilma e Aécio entre as regiões do país

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A morte de Eduardo Campos em um trágico acidente de avião mudou completamente os rumos da eleição presidencial. Poucas vezes na história brasileira um único evento teve importância tão grande nos rumos de uma eleição – embora o sentido das mudanças ainda esteja bastante confuso. A entrada de Marina Silva como candidata do PSB embaralhou as expectativas e praticamente encerrou a discussão sobre as chances de vitória de Dilma no primeiro turno.

Hoje, além de o segundo turno ser praticamente certo, não está claro quem iria disputá-lo: esta pode ser a primeira eleição presidencial desde 1989 a não apresentar um petista e um tucano como os dois mais votados, e Aécio tem sua vaga no segundo turno muito ameaçada por Marina. As implicações desta mudança são grandes, mas ainda falta mais de um mês para o pleito.

Em meio à confusão, o Datafolha antecipou sua pesquisa para aferir as chances de Marina, e encontrou o quadro que a maioria esperava: empate no primeiro turno com Aécio (21 a 20) e no segundo com Dilma (47 a 43). Os efeitos da mudança no cenário e da entrada de Marina na disputa são diversos, mas podem ser resumidos a efeitos regionais, níveis de renda, capital x interior e religiosos.

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Regiões: movimentação disfarçada de estagnação

Na comparação entre as três pesquisas Datafolha mais recentes (3 de julho, 17 de julho e 18 de agosto), é visível a movimentação de votos de Dilma e Aécio entre as regiões do país.

O candidato tucano ganhou pontos nas regiões em que é menos votado, mas perdeu onde tinha mais votos. No Sudeste, perdeu 3 pontos (27 nas pesquisas de julho, 24 agora). Como essa região pesa muito mais que as outras, seu avanço no Centro-Oeste (de 22 em 03/07 para 27 agora, seu melhor desempenho), no Nordeste e no Norte não apareceu, bem como sua grande queda no Sul (de 24 pontos no começo de julho para 18 agora). A movimentação regional da candidatura de Aécio se confundiu com estagnação. É preciso ressaltar, no entanto, que a população das regiões Centro-Oeste e Norte é pequena – portanto, as amostras também são pequenas, aumentando a chance de erro amostral.

Da mesma forma, Dilma enfrentou problemas no maior reduto do PT, o Nordeste. Suas intenções de voto caíram de 55 no começo de julho para 49 na pesquisa seguinte e 47 agora, com a entrada de Marina. No Sudeste houve estabilidade: 28, 28 e 29 pontos. Novamente, assim como com Aécio, o aumento em outras regiões mascarou a queda: o Norte apresentou grande subida (44 para 50) enquanto o Centro-Oeste mostrou queda (de 35 caiu para 32 no meio de julho e agora está em 28 pontos).

Marina, por sua vez, tem uma boa notícia: seus 20 pontos no Nordeste indicam que a transferência dos votos que já eram de Eduardo Campos foi completa (o pernambucano tinha 12 na região na última pesquisa). Ainda está numericamente atrás de Aécio no Sul e no Sudeste, mas obteve pontos suficientes nas duas regiões para compensar a fraqueza no Norte (16 p.p.). O Centro-Oeste, região em que o agronegócio é mais forte, apresenta boa intenção de votos para a ex-senadora (25 pontos, enquanto Dilma tem 28 e Aécio tem 27), provavelmente devido a boas votações em Brasília – Marina venceu no DF em 2010 – e nas cidades maiores, especialmente Goiânia.

Nível de renda

A análise pela renda dos entrevistados encontra um cenário no qual as grandes movimentações se dão nas duas faixas inferiores de renda (até 2 salários mínimos e de 2 a 5 salários mínimos), que concentram mais de 80% do eleitorado. No menor nível de renda, Aécio se manteve com os 14 p.p. que já obteve na pesquisa anterior, assim como Dilma teve pouca variação (subiu de 42 para 43). Ainda observando os que têm renda inferior a dois salários mínimos, Marina conquistou 11 pontos a mais do que Campos no último Datafolha com seu nome. Esses votos não saíram apenas dos brancos e nulos, mas também dos candidatos nanicos, que pontuaram menos dessa vez.

Na faixa superior (entre 2 e 5 salários mínimos), encontramos cenário semelhante. Dilma caiu um pouco (de 35 para 33), Aécio subiu levemente (22 pontos para 23) e Marina recebeu o triplo de intenções de voto que Campos tivera (de 7 para 22), mas dessa vez sem reduzir a parte dos nanicos – a grande queda foi entre brancos, nulos e indecisos. Em suma, a presença de Marina entre as opções convence muitos eleitores de baixa ou média renda até então sem preferência.

Capital x interior

Em um artigo publicado há um mês, o Plano Político se perguntava sobre quem ficaria com os votos de Marina. Com sua candidatura inesperada, agora o mais provável é que fiquem com ela mesmo. Uma das características de sua votação era a força nas capitais de todos os estados e no interior de SP e Rio:

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4A pesquisa atual confirma essa expectativa – apesar de não revelar dados específicos sobre as capitais. Marina tem seu melhor índice nas cidades entre 200 mil e 500 mil habitantes (25 pontos, contra 34 de Dilma e 18 de Aécio) e nas cidades com mais de 500 mil (24 pontos, contra 29 de Dilma e 20 de Aécio). Aécio chegou a perder pontos nessas cidades, mas não de forma significativa. Na divisão por Regiões Metropolitanas x Interior, Marina tem 22 contra 21 no interior, Aécio pontua com 20 em ambas e Dilma tem muito mais votos no interior (39 contra 31 nas capitais e entornos).

Sob esse prisma, a candidatura de Marina tende a complicar a de Aécio, que tenderia a procurar apoio de forma mais concentrada nos grandes aglomerados urbanos, nos quais há maior resistência ao PT.

Religião

De fato Marina possui um apoio maior que a média entre os evangélicos neopentecostais (24 pontos), mas se equipara à sua votação entre os sem religião (23 pontos), espíritas (também 23) e é inferior aos evangélicos não neopentecostais (27 pontos). Com Dilma e Aécio, as únicas variações de mais de um ponto percentual foram entre os neopentecostais (Dilma perdeu dois pontos, de 34 para 32) e entre espíritas (Aécio foi de 26 para 35, mas apenas 3% dos entrevistados se declararam assim). O corte por religião ainda não parece determinante para a eleição, embora Marina tenha uma votação menor entre católicos (19 p.p.).

Esses dados refutam, em parte, a ideia de que uma parcela significativa dos votos de Marina em 2010 viriam do eleitorado pentecostal (naquela eleição os institutos não perguntavam a religião dos entrevistados).

Além das questões relacionadas ao primeiro turno diretamente, alguns pontos precisam ser mencionados com respeito a essa pesquisa:

  1. Rejeição: Marina Silva tem maior rejeição no Nordeste (16 p.p.), mas ainda assim inferior às de Dilma e Aécio (25 e 23 pontos, respectivamente). Dilma continua sendo mais rejeitada nas cidades maiores e nas regiões metropolitanas, bem como entre os mais jovens. Aécio, por sua vez, só tem grande rejeição no Nordeste, permanecendo próximo de sua média geral em quase todos os extratos.
  2. Segundo turno: entre Dilma e Aécio, o que chama a atenção é que este já aparece à frente da candidata petista em todas as faixas de renda, exceto pela menor. Está com 45 pontos contra 42 de sua adversária na segunda menor faixa (entre 2 e 5 salários mínimos). Sua queda na comparação com julho, quando tinha 40 pontos contra 44 de Dilma (agora o quadro aponta 47 a 39), é quase todo devido ao aumento de Dilma na faixa inferior de renda (subiu de 51 para 57 entre os que recebem até 2 salários mínimos). O tucano ainda vence no Sudeste e no Sul, mas por uma margem muito pequena, insuficiente para superar a grande votação de Dilma no Nordeste e no Norte.
  3. Dilma x Marina: a candidatura da ex-senadora consegue o que Aécio ainda não pôde: superar Dilma por margens grandes no Sul e no Sudeste e reduzir o tamanho da derrota no Nordeste. No Sudeste, Marina vence por 53 a 36; no Sul, por 47 a 40. A candidata do PT não consegue repetir o mesmo desempenho no Nordeste contra Marina. Vence Aécio por 62 a 27 na região, mas obtém 54 a 38 contra Marina. Contra Campos, há um mês, o resultado era 58 a 31.

Resumo

Com a exceção do corte geográfico, que tem apresentado mudanças significativas no último mês, os outros fatores não permitem dizer que os votos que Marina recebeu em sua primeira pesquisa não tenham vindo, em sua grande maioria, dos eleitores de Campos e de brancos, nulos e indecisos que declararam voto na ex-senadora agora que ela entrou na disputa. No entanto, as variações por região devem ser consideradas como possível fator de transferências de voto entre os três principais candidatos.

Nas simulações de segundo turno, chama a atenção a força de Marina no Sudeste, região na qual Marina obteve ótimos percentuais em 2010; Aécio não conseguiu crescer na região mais importante para a sua candidatura. Dilma, por sua vez, tem problemas em obter uma maioria folgada no Nordeste quando enfrenta Marina.

——
com colaboração de Eduardo Francisco.
publicado inicialmente no Plano Político.

Vinícius Justo

Mestre em Teoria Literária pela USP.

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