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Divulgação | “Silente”, de Renato Tardivo

por Amálgama (28/09/2012)

Novo livro de contos de Renato Tardivo, colaborador do Amálgama

Silente é o novo livro de contos de Renato Tardivo, colaborador do Amálgama. Este ano, ele já havia lançado, pela Ateliê Editorial, Porvir que vem antes de tudo: Literatura e cinema em Lavoura Arcaica. Do avesso (Com-Arte, 2010) é seu livro anterior de contos.

Silente está saindo pela editora 7 Letras. Abaixo, trecho do posfácio assinado pelo crítico Rinaldo de Fernandes e uma amostra de um dos contos. Para concorrer a um exemplar, curta ou compartilhe a atualização da página do Amálgama no Facebook que tem o link para este post. O sorteio será realizado na próxima sexta, 5 de outubro, via Random.org, e entraremos em contato com o vencedor via FB.

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Renato Tardivo, devo dizer logo, é um dos mais aptos, dos mais preparados entre os jovens contistas brasileiros deste início de século 21. Surpreendente contista, que sabe, como bem poucos, extrair da brevidade do conto as suas forças. Que sabe compactá-lo, explorá-lo em seu poder de sugestão. Que o conduz com destreza, despertando no leitor aquele interesse sem o qual o gênero perde muito de sua força, de sua capacidade de, como queria Cortázar, abrir-se para realidades mais amplas, que vão além do enredo.

(…)

Personagens angustiados, dilacerados, pervertidos, habitam os contos de Renato Tardivo. Um escritor que vê o mundo com impiedade e ironia, inquietando-nos diante de atos e situações que remetem ao homem contemporâneo, às suas perturbações, procuras e perdições. O leitor está diante de um contista verdadeiro, consumado, de grande talento.

[ Rinaldo de Fernandes ]

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A primeira vez que vi a morte de perto foi quando o meu avô faleceu. Lembro que, no momento de fechar o caixão, alguns parentes cuidaram para me afastar. Em vão. Apenas um pouco mais distante que os demais, vi meu pai, debruçado sobre o corpo do pai dele, soprar-lhe alguma coisa ao pé do ouvido. Jamais esqueci essa cena.

No dia seguinte ao enterro, eu e meu pai sozinhos no carro, tomei coragem e perguntei:

Pai, o que você disse pro vô aquela hora?

Meu pai traduzia uma música triste em inglês que tocava no rádio – ele tinha esse hábito. Surpreendeu-se com a minha pergunta, interrompeu a tradução, pareceu ter olhado para dentro de si. Disse:

Qualquer dia a gente se vê, pai.

O caixão fechando, a visão do rosto do pai pela última vez. Eu ali diante do meu pai, a música triste no rádio: qualquer dia a gente se vê, pai.

Meu pai retomou a tradução; eu comecei a chorar. No começo bem baixinho, depois compulsivamente. Eu tinha só dez anos, mas chorava como adulto.

Mais velho me dei conta de que esse choro talvez nunca tenha cessado. Se havia resignação na fala do meu pai, ela trazia também um farto sopro de esperança: reencontro. Naquele dia, eu percebi que algumas coisas belas são sempre um pouco tristes – e algumas coisas tristes são sempre muito belas.

Passamos a vida à procura do pai.

E agora, desenterrando essas lembranças todas, conjecturo o que o meu pai irá soprar ao meu ouvido.

Não ouço nada.

[ do conto “Silente” ]

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