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Dois Fernandos e uma crise da política

por Paulo Roberto Silva (12/09/2014)

FHC e Haddad analisam as encruzilhadas da política brasileira

"Conversas políticas: Desafios públicos", de Carlos Muanis e Aldo Fornazieri (orgs.) (Record, 2014, 176 páginas)

“Conversas políticas: Desafios públicos”, de Carlos Muanis e Aldo Fornazieri (orgs.) (Record, 2014, 176 páginas)

Ler o que dizem Fernando Henrique Cardoso e Fernando Haddad sobre os desafios que enfrenta o sistema político brasileiro é uma oportunidade ímpar de lançar luzes novas em um momento no qual a mesquinharia e a desinformação dominam o ambiente eleitoral. Ainda que essas luzes apenas sirvam para detalhar melhor as sombras. Isso porque, além de políticos que assumiram cargos relevantes, ambos são intelectuais e estão inseridos em uma tradição uspiana de combinar reflexão e militância.

É a oportunidade que Conversas políticas: Desafios públicos nos traz. Produzido para comemorar os 80 anos da Fundação Escola de Sociologia e Política em 2013, ele traz entrevistas em profundidade com os dois intelectuais-políticos sobre a crise em que se encontra a política brasileira. Realizadas ao calor das manifestações de junho de 2013, nas quais foram personagens relevantes – um deles como alvo -, ambos trazem a tona uma reflexão sobre os fatos que supera os limites da política palaciana que invade os jornais.

As entrevistas de FHC e Haddad valem mais ao leitor que a de Aldo Fornazieri – embora este, como diretor acadêmico da Escola de Sociologia e Política, não poderia ficar de fora de uma iniciativa institucional. A diferença entre os dois primeiros e este último é que, enquanto aqueles transitam entre a academia e o sistema político, este tem um caráter mais acadêmico, apesar de seu passado como militante do PT.

Mas a presença de Fornazieri não deve ser menosprezada. Fernando Henrique Cardoso, Aldo Fornzarieri e Fernando Haddad se inserem em três momentos chave do marxismo acadêmico brasileiro:

  • FHC se insere na geração que tirou o marxismo brasileiro do monopólio do PCB e o inseriu no debate acadêmico, a partir dos Seminários Marx realizados na USP no final dos anos 1950. Essa geração, que depois se reunirá no Cebrap, deixará um legado importante na teoria do desenvolvimento (FHC e Otávio Ianni), na crítica literária (Roberto Schwartz), na sociologia do trabalho (Leôncio Martins Rodrigues e Luiz Pereira) e na compreensão do populismo (Francisco Weffort). Além disso, gerará subsídios para a crítica do marxismo dogmático do PCB, tornando-se mentores intelectuais do PT e do PSDB;
  • Aldo Fornazieri deu contribuição relevante à crítica ao marxismo no momento da queda do muro de Berlim e da crise dos regimes comunistas do Leste Europeu.No seu artigo “Limites da estratégia“, publicado no primeiro trimestre de 1991 na revista teórica do PT, afirma “as concepções das correntes de esquerda sobre o poder estão ultrapassadas e inoperantes nas sociedades atuais”, e aponta para uma superação do marxismo como referência;
  • Fernando Haddad fez parte do esforço de reconstrução do marxismo acadêmico pós-1989. Na USP, liderou o movimento dos “marxianos”, isto é, leitores de Marx distantes do marxismo dogmático, do qual fez parte gente como Francisco de Oliveira (da geração de FHC) e Paulo Arantes. O objetivo deste movimento – lá fora conhecidos como non-bullshit marxism – era recuperar o poder analítico da teoria marxista, e desvinculá-la das experiências do Leste Europeu.

Analisando deste ponto de vista, é possível compreender as continuidades, especialmente entre Cardoso e Haddad. Por outro lado, as discrepâncias parecem resultar das diferentes experiências dos dois intelectuais na gestão pública.

Fernando Henrique Cardoso

FHC será sempre lembrado como o presidente-sociólogo, ou como diria Celso Barros, o “primeiro sociólogo no mundo a conseguir um bom emprego”. E como presidiu o país a partir de uma coalizão de centro-direita, tem sido muito comum que as análises sobre o sociólogo pós-1994 estejam contaminadas pelo balanço do mandato presidencial.

Por isso, precisamos fazer justiça com o intelectual FHC. Sua capacidade de análise continua viva, e esta entrevista demonstra que o sociólogo está atualizado em relação às leituras contemporâneas da área. São recorrentes referências a produções recentes de autores como Manuel Castells (positivas) ou Pierre Bourdieu (negativas).

Justamente por isso, FHC consegue fazer um diagnóstico independente sobre a crise da democracia representativa, tão independente que coloca até o PSDB em maus lençóis: o modelo de democracia de partidos não funciona fora da Europa, a tecnologia da informação criou novos canais de mobilização social, as soluções ultraliberais de Margareth Tatcher e Aznar são um problema porque negam a sociedade civil, faltam líderes na política porque o Estado está perdendo relevância.

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O centro do diagnóstico de FHC é que o avanço das novas tecnologias e o enfraquecimento do Estado-nação em caráter global, a política – especialmente a democracia representativa por partidos – vai precisar de novos meios para se relegitimar. E isso não é algo resolvido de pronto, é um desafio a ser enfrentado. Em torno deste centro circulam análises sobre o mundo pós-Segunda Guerra, Putin e a Europa, Primavera Árabe e as manifestações de junho de 2013, que seriam uma manifestação brasileira da crise da democracia representativa por partidos.

Curiosamente, os dois bons modelos de liderança apontados por FHC estão muito longe de seu PSDB: Marina Silva e José Mujica. São dois exemplos, para ele, de interlocução direta com a sociedade, a partir de pautas mais amplas e que extravasa o limite dos partidos. O exemplo negativo é algo como Hugo Chavez.

Fernando Haddad

Fernando Haddad também é um intelectual cuja leitura recente tem se misturado ao seu balanço como político. Mas isso acontece em um sentido diferente do de FHC. Se o ex-presidente é acusado de ter “abandonado o marxismo”, ou “nunca ter sido marxista”, Haddad tem sido acusado por conservadores como um “perigoso teórico do marxismo”. Isso apesar de sua abordagem teórica buscar afastar-se do marxismo dogmático e das experiências do Leste.

Haddad também aponta uma crise do sistema político, mas a sua análise é ligeiramente diferente da de FHC. Se este aponta discrepância entre a democracia representativa por partidos, aquele identifica um descompasso entre as instituições, mais atrasadas e refém de grupos de interesses, e a sociedade, mais adiantada e com pautas novas a cada dia.

Esta diferença não é ocasional. Como o próprio Haddad admite, sua pesquisa é sempre focada no Estado, em seu caráter de classe, e substituindo a noção marxista tradicional de “tomada do poder” por outra, de viés liberal, que ele próprio chama de “estado comunitário”.

Neste sentido, a visão de Haddad acaba de certa forma presa a uma espécie de defesa do governo Lula. Explico: para Haddad, no governo do PT haveria uma disputa entre as forças sociais que constroem o estado comunitário por meio de mecanismos de participação popular e os grupos de interesses econômicos que atuam por dentro de forma corporativa.

Neste sentido, o problema não estaria no distanciamento entre partidos como o PT e a sociedade civil, mas nas limitações do PT para realizar seu projeto, que seria o da sociedade civil. Isto não seria uma exclusividade do governo Lula: ele próprio, como prefeito de São Paulo, estaria sofrendo com as limitações a seu projeto impostas pelos grupos de interesse que atuam dentro da prefeitura. Ou mesmo em sua gestão como ministro, na qual ressente que temas como “kit gay” e “vazamento do Enem” tenham tido mais repercussão que seus projetos de melhoria do ensino básico e superior.

O ponto que acaba escapando a Haddad é que talvez o projeto de construção de um estado comunitário seja mais dele que de seu partido. Afinal, não dá para afirmar que o PT seja hoje um modelo de diálogo com a sociedade. Lula agia como um líder populista à Weffort, arbitrando conflitos sociais. Dilma reconhecidamente virou as costas aos movimentos. Ao compará-los, Haddad apela a aspectos subjetivos – “Lula é uma figura história incomum”. Mas apenas ele, Haddad, é que vem tentando construir uma gestão coletiva da cidade, e esbarrando nos grupos que exploram o conservadorismo paulistano.

Contudo, Haddad reconhece a mesma crise da política partidária identificada por Fernando Henrique. Entretanto, ele a atribui não à redução do peso do estado, mas à multiplicação dos interesses corporativos dentro do estado, tal como descrita por Raymundo Faoro. Por isso, figuras como Lula acabam se sobrepondo à estrutura partidária, por articularem diretamente os interesses corporativos e os grupos da sociedade civil.

Um angústia, mais do que uma solução

Fato é que tanto Fernando Henrique Cardoso quanto Fernando Haddad, com bastante erudição e uma análise que só um intelectual pode fazer, expressam uma angústia diante das encruzilhadas em que a política brasileira se encontra. Talvez por efeito das jornadas de junho, essa angústia fica ainda mais evidente. Fossem poetas, talvez resumissem tudo à moda de Drummond:

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Paulo Roberto Silva

Jornalista e empreendedor. Mestre em Integração da América Latina pela USP.