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Analistas correram para anunciar o fracasso de junho/2013 nas urnas. Será?

santinhos

Não foi preciso nem esperar esfriar o defunto das eleições, e analistas políticos de todas as cores, além de comentários nas redes sociais, vaticinaram o fracasso de junho/2013. A versão mais elaborada desta percepção veio de um cientista social ouvido por uma grande rede de rádios de SP: “talvez junho não tenha sido tão grande quanto pensávamos”. Afinal, como explicar a eleição de um congresso conservador e a quantidade de votos para PT e PSDB após uma onda tão grande de questionamento ao status quo político?

Os nove artigos que escrevi sobre o tema junho neste Amálgama (Um conservadorismo popular, Há um abismo entre nós, O perigo das minorias violentas, Mistérios na base da pirâmide, Esta eleição já tem um perdedor, A revolta é jovem, Junho 2013: um ano depois, As táticas da violência no estado de direito e Dois Fernandos e uma crise da política) permitem-me discordar frontalmente desta avaliação. E faço isso baseado em dois argumentos:

  1. Afirmar que junho fracassou é ignorar a evolução dos fatos de junho de 2013 a outubro de 2014, e tratar as eleições como se tivessem ocorrido no momento imediatamente posterior às manifestações. Ou seja, é ignorar que ainda atravessamos um longo processo de maturação social da experiência de junho.
  2. Não se pode confundir o eleitorado como um todo com os atores sociais mais dinâmicos de junho para cá. Especialmente, precisamos avaliar o que queriam a juventude e a classe C em junho e o que ela escolheu agora, para identificar continuidades e rupturas.

Relembrando a maturação de junho até agora

No artigo com o balanço de um ano de Junho, eu afirmava:

Junho de 2013 não foi o retrato de uma insatisfação, mas de diversas insatisfações heterogêneas. Em comum, apenas a presença da juventude, mas se tratavam de juventudes diferentes de grupos sociais diferentes. (…) Após junho, cada grupo seguiu com sua própria pauta.

Ou seja, para entender o que aconteceu de junho para cá, precisamos avaliar o que aconteceu com cada grupo social que ocupou as ruas em junho. A vanguarda, que permaneceu em luta após junho, se isolou, teve setores envolvidos em táticas de confronto físico e por isso amargou prisões, chegou a outubro alinhada à esquerda. Se considerarmos que esta parte de junho votou em Luciana Genro e Eduardo Jorge, podemos afirmar que esta facção foi e permaneceu minoritária, com cerca de 2% dos eleitores.

A juventude de classe média tradicional, que havia rompido com o costume de seus pais e ido às ruas com uma pauta marcadamente anti-petista, saiu das ruas, chegou a namorar a campanha de Marina Silva para derrotar o PT, e ao final fechou com Aécio Neves. Não podemos considerar o voto tucano nacional, ou mesmo em São Paulo, como sendo representativo desta facção, mas podemos afirmar que sua representatividade é bem superior à da vanguarda.

A classe C

O nó está na classe C (sim, eu sei que chamá-la de classe C é inadequado, mas não achei nome melhor). Embora as insatisfações deste grupo sejam homogêneas – podemos dizer que ascenderam socialmente mas sofrem os efeitos do serviço público de má qualidade e o estigma das periferias – a manifestação política desta insatisfação é muito heterogênea.

Podemos identificar pela votação de alguns candidatos a deputado. Por exemplo, em São Paulo ela despejou 1,5 milhão de votos em Celso Russomano, candidato que quase havia tirado do PT os votos da periferia da capital. No Rio de Janeiro, ela ajudou a eleger candidatos conservadores, colocou Crivela no segundo turno, mas também o Cabo Daciolo, do PSOL.

Por que tanta diferença? Por que aqui, neste grupo, operou a favor da pauta conservadora os fatores de diferenciação social da periferia, já apontados e detalhados nos artigos sobre um ano de junho e o desconhecimento das periferias:

  • Capital cultural: quanto maior, mais à esquerda
  • Acesso ao mercado de trabalho: quanto menor a qualificação, maior o alinhamento ao conservadorismo
  • Religião: quanto maior a vinculação a grupos religiosos, maior o conservadorismo – e no Sudeste, maior o anti-petismo
  • Empreendedorismo: pequenos empreendedores tendem ao conservadorismo

Assim, é natural que um candidato como Coronel Telhada, com pauta conservadora ligada à segurança pública, tenha votos entre os mais pobres. O mesmo pode se dizer de Marco Feliciano, eleito com quase 400 mil votos. Sua pauta não está tão distante do que essa classe defendia em junho.

Quem eram e o que queriam os manifestantes de junho mesmo?

Para entender exatamente quem eram os manifestantes de junho, olhemos para a pesquisa realizada pelo Datafolha durante a manifestação de 17 de junho em São Paulo, e comparemos aqueles que foram às ruas com a população de São Paulo:

Característica Manifestantes População
Idade entre 12 e 25 anos 53% 16%
Ensino Superior 77% 24%
Assalariado 76% 74%
Participa de passeata 71% não se aplica

 

Ou seja, estamos falando de pessoas mais jovens e mais educadas que a média da população de São Paulo, não do conjunto da população. Por isso, ao avaliar os efeitos de junho, temos que olhar para este público, que teve seu batismo de participação política naquele momento e formou suas convicções a partir de então.

É importante lembrar que, em uma pesquisa de maio deste ano, eram justamente os mais jovens que ainda mantinham o apoio a manifestações em alta na cidade de São Paulo. Como disse à época:

Abertos os dados, expõe-se o fato de que este baixo apoio não é linear na população paulistana. Pelo contrário. o apoio entre os mais jovens chega a 64% entre os entrevistados que têm entre 18 e 24 anos, reduzindo para 57% na faixa entre 25 e 34 anos e para 53% entre 35 e 44 anos. Ou seja, pelo menos em São Paulo a revolta é jovem.
A mesma curva pode ser identificada em outras perguntas feitas pela pesquisa sobre o mesmo tema. A faixa entre 18 e 24 anos, especificamente, é a que concentra a maior parte de respostas favoráveis às manifestações: 33% acreditam que elas trazem mais benefícios que prejuízos (22% no total), 46% é favorável a manifestações durante a Copa (32% no total), e 20% diz ter participado nos protestos que acontecem desde junho (10% no total).
(…)
Talvez seja a hora de olharmos os mais jovens com um pouco mais de atenção. A geração que chega à idade adulta agora foi obrigada a estudar mais para receber a mesma renda de seus pais que sequer concluíram o Ensino Médio, é obrigada a se deslocar mais entre moradia e trabalho, e sente na pele a baixa qualidade dos serviços públicos. Por outro lado, não se sente representada por nenhum dos grupos no poder, do governo à oposição, da política institucional aos movimentos sociais.

Quando se abrem os resultados da pesquisa Datafolha às vésperas da eleição, essa vinculação entre juventude e rebeldia fica ainda mais evidente: 43% dos eleitores de Luciana Genro (PSOL) tinham entre 16 e 24 anos, levando-a a conquistar 3% dos eleitores desta faixa. Os líderes nas pesquisas não tiveram resultado tão expressivo neste eleitorado: Dilma especialmente apresentou 32% de intenção de voto (36% no total).

O mesmo se vê nas eleições estaduais. Em São Paulo, apenas 12% dos eleitores de Alckmin tinham entre 16 e 25 anos, contra 18% de Padilha. Por isso, o governador apresentou sua menor intenção de voto (41%) justamente nesta faixa etária, a mesma que apresentou a maior intenção de voto de Padilha (14%) e uma das maires de Paulo Skaf (24%).

Ou seja, junho permanece

E aqui está o principal efeito de junho que permanece: o eleitor mais jovem é mais progressista e mais anti-governo que o eleitorado geral. E outra: junho pode ter representado uma ruptura entre a classe C e o lulismo, em prol de opções mais alinhadas ao seu perfil conservador.

Aqueles que apregoam o fracasso de junho ainda não entenderam nada. O que tivemos ali foi o início de um processo de formação política dos mais jovens, ainda sem uma face definida. Podemos prever que novas ondas de junho surgirão – a onda de indignação na juventude não se encerrou nesta eleição.

Paulo Roberto Silva

Jornalista e empreendedor. Mestre em Integração da América Latina pela USP.