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Entendendo os termos da discussão sobre gênero

por Paulo Roberto Silva (21/10/2017)

Porque o debate público está ruim, isola os interessados e não resolve problemas reais.

O debate sobre gênero é sim uma coisa obtusa, mas é mais complexo do que aponta o meu amigo Carlos Orsi em seu artigo sobre o tema. A expressão “ideologia de gênero” não é simplesmente um “espantalho retórico”, mas é uma reação a uma forma diferente de se colocar a questão de gênero.

Quem escreve aqui não tem lado nessa discussão. Pelo contrário, acredita que os termos do debate são ruins para todos os envolvidos, exceto líderes políticos oportunistas e sem projeto. Para eles, e só para eles, a forma como o debate acontece traz algum benefício. O cidadão comum, a causa LGBT, as denominações cristãs e os fatos só têm a perder. Neste sentido, eu e Carlos Orsi estamos mais ou menos do mesmo lado.

Portanto, se você é tão moralista que só assiste filme estrelado pelo Alexandre Frota, ou se é um inimigo jurado do Patriarcado, essa é sua chance de interromper a leitura. Caso contrário, vamos em frente.

Uma visão pós-moderna do gênero

O debate sobre gênero atual é influenciado diretamente por modelos teóricos pós-modernos, em sua maioria norte-americanos após 1980. Ainda que existam referências a Simone de Beauvoir (O Segundo Sexo) ou Engels (A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado), esses autores são inseridos e reinterpretados à luz destes novos modelos.

A principal referência é a “teoria queer”, que trata o gênero como o resultado de uma construção social. A expressão inglesa queer se refere diretamente aos homossexuais (na origem, equivale aos termos em português viado, baitola, bicha etc.). Nos anos 1980, Teresa de Lauretis, professora da Universidade da Califórnia, Santa Cruz, desenvolveu uma teoria interdisciplinar da  construção da subjetividade, com referência à semiótica de Umberto Eco, os estudos linguísticos de Peirce e os trabalhos de Foucault, entre outros. Em seu livro Technologies of Gender de 1987, ela lança o conceito de teoria queer, que seria melhor elaborado nos seminários de estudos queer de 1990.

Seu maior desenvolvimento se dá nos anos 1990 a partir dos estudos de autores como Judith Butler, Lee Edelman, Leo Bersani e outros. Eles aproximaram a questão feminista da LGBT, ao entender toda a identidade de gênero como uma construção social. Esses estudos buscam analisar os descompassos entre sexo, gênero e desejo, na expressão de Annamarie Jagose. Neste sentido, todas as identidades de gênero são analisadas em um único framework de construção social de identidades.

Os estudos queer se tornaram a base teórica do movimento feminista e LGBT a partir dos anos 1990. Ele tem sido a base de diversos movimentos identitários e também de políticas corporativas de diversidade em empresas como o Google. Neste campo, ela dialoga também com outros estudos, como o artigo “O problema de falar pelos outros”, da filósofa panamenha Linda Alcoff, e o ensaio “Pode o subalterno falar?”, da professora indiana Gayatri Spivak. A eles devemos a expressão “lugar de fala”.

O identitarismo político

A expressão política das teorias pós-modernas de gênero é o identitarismo. O seu foco não é a classe social, como no marxismo clássico, mas as identidades oprimidas. Mais do que o capitalismo, o seu inimigo é o patriarcado, ou seja, a lógica de dominação do homem branco heteronormativo, da qual o capitalismo é apenas a versão mais moderna.

Pela lógica identitária, é preciso enfrentar toda violência, seja real ou simbólica, contra as identidades oprimidas. Um exemplo é a caracterização do crime de feminicídio, definido como um assassinato da mulher enquanto mulher. Ele ressignificou o velho crime passional como uma expressão do ódio do homem heteronormativo contra a mulher. Da mesma forma se encaixam a ampliação do conceito de assédio para enquadrar toda abordagem afetiva não consentida, ou o combate aos meios de “silenciamento da mulher”, como interrupções de fala.

Em geral, os movimentos identitários interpretam todo o mal estar relacionado à condição humana como expressão da opressão de gênero. O homem branco heteronormativo é o novo burguês imperialista na mitologia da esquerda identitária. E as identidades oprimidas – feminino, trans, etc. – são o novo proletariado revolucionário. Para se redimir, o homem branco heteronormativo deve assumir sua posição opressora, se desculpar eternamente por ela e se submeter.

A origem do termo “ideologia de gênero”

Nem todos os estudiosos de gênero se alinharam à teoria queer. Em 1998 Tim Edwards apontava em seu artigo “Queer fears: against the cultural turn” fragilidades da teoria queer:

* Para a maioria das pessoas a identidade de gênero não é fluída, mas constante;

* As pesquisas não focaram em pessoas reais, mas em produções culturais, como literatura e cinema, o que distorceu o resultado;

* Pesquisas baseadas na vida social real teriam identificado menor variação de gênero;

* Ao focar nas identidades, a teoria poderia promover a desintegração social.

Também no final dos anos 1990, Dale O’Leary, jornalista, publicaria The Gender Agenda, com a crítica ao movimento feminista e LGBT. Foi O’Leary quem cunhou a expressão “ideologia de gênero”, ou genderismo. Para ela, o direcionamento do feminismo para a luta contra a heteronormatividade tinha por objetivo combater a família tradicional e a maternidade em tempo integral. Ela identificou uma correlação entre discursos baseados na teoria queer e o trabalho de Engels A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, e viu nela um indício de política revolucionária.

Ideologia de gênero e marxismo cultural

Em 2010 intelectuais relacionados à alt-right produziram o documentário Cultural Marxism: the corruption of America. Ele acusa uma suposta conspiração marxista para influenciar a universidade norte-americana e transformar os Estados Unidos em um país comunista. Uma das estratégias apontadas no vídeo é a ideologia de gênero.

A correlação entre ideologia de gênero e marxismo cultural foi nitroglicerina pura nos meios conservadores. Ela permitiu a disseminação de conceitos como ditadura gay, gayzismo e radfem. Politicamente associou toda a esquerda à questão de gênero e esta a uma conspiração comunista. Nos Estados Unidos, ela deu aos trabalhadores rednecks empobrecidos uma interpretação de sua pobreza e um inimigo responsável. O resultado foi Donald Trump.

A exploração política do gênero no Brasil

O identitarismo político foi instrumentalizado pelo Partido dos Trabalhadores para solucionar sua esquizofrenia entre discurso político radical e prática política oligárquica. Ao substituir classe por identidade de gênero, ele permitiu que o PT fomentasse o capitalismo de compadrio ao mesmo tempo em que adotava algumas políticas identitárias para satisfação da base.

Contudo, a denúncia da ideologia de gênero serviu como plataforma política para a construção do conservadorismo popular. Tanto setores evangélicos quanto católicos conservadores encontraram na conspiração um elemento a combater. O primeiro confronto foi o caso do “kit gay”. Um material educacional foi desenvolvido em linha com a teoria queer, como parte do projeto Escola sem Homofobia, e foi denunciado por deputados da bancada evangélica como um kit para ensinar crianças a se tornarem gays. O governo Dilma acabou engavetando o projeto.

A polêmica em torno do kit gay foi reveladora do modus operandi deste debate. Para o identitário, o kit não tem nada de mais, só está ajudando a quebrar o modelo heteronormativo. Para o cristão conservador, ele é prova da conspiração comunista gay. O ataque ao kit reforça nos identitários que existe uma opressão patriarcal, e a sua existência reforça nos conservadores a existência do marxismo cultural. Ambos os líderes se beneficiam da radicalização. A mesma lógica vemos na discussão sobre o Queermuseu, o Escola Sem Partido, propagandas de cosméticos, denúncias de assédio etc.

Problemas do debate sobre gênero

Os termos em que o debate sobre gênero acontece não ajudam a tornar o ambiente mais seguro para mulheres e homossexuais. O identitarismo os isola ao tratar potenciais aliados – como eu – como inimigos a serem combatidos. Políticas de inclusão ganham resistência de cristãos pobres, vistos como o inimigo do movimento por excelência, quando trata oprimidos como opressores.

Por outro lado, a hegemonia da teoria da conspiração comunista no campo conservador cristão dificulta a aproximação com jovens e pessoas mais esclarecidas. Mesmo quando alinhados aos campos liberal ou conservador, a acusação de marxista cultural paira sobre eles e dificulta a convivência.

Mulheres, gays e cristãos pobres têm problemas reais, sérios e comuns. Violência urbana, educação ruim, saúde pública lastimável. O debate sobre gênero não está ajudando a resolver nenhum deles.

Paulo Roberto Silva

Jornalista e empreendedor. Mestre em Integração da América Latina pela USP.