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Já chegamos ao fundo do poço. Mas fomos ainda mais fundo, e saiu água. E ela vai nos fazer boiar até a superfície.

2002 foi o ano alto da história da Nova República. Lula eleito com 61% dos votos, o Brasil campeão da Copa do Mundo, um trabalhador humilde na presidência. Os ventos de mudança sopravam no Brasil, quase como fora em 1970 com Pelé erguendo a taça e o Milagre Econômico Brasileiro saindo do forno.

Como no Brasil apenas existem falsos ídolos, o governo petista mostrou, muito depois de chegar ao poder – e antes de sair dele – sua face cínica, autocrática e corrupta. O petismo, que fingia ser democrata, demonstrou-se como um trabalhismo quase varguista, com a diferença de que Getúlio Vargas se chamava Luís Inácio.

Há muitas críticas a Lula, em especial no campo da corrupção, mas ele não foi um presidente ruim. Aliás, como conservador, não temo em assumir que foi um dos presidentes mais proeminentes que o país já teve, tanto pelos seus feitos, quanto por sua trajetória absolutamente controversa.

Lula era o que o Brasil precisava naquele momento: um assistencialista que tirasse as pessoas da miséria. Alguém que universalizasse o Bolsa-Escola de FHC, tornando-o Bolsa Família; alguém que tivesse peito de se voltar para o sertanejo nordestino, de falar em pobre na universidade e de audaciosamente prometer fome zero – inclusive, tão audacioso que esse era o nome do programa do governo.

Tudo isso, porém, a um custo, e bem alto: o custo da corrupção e, de brinde, o aparelhamento de governo, de ministério, de universidade, de repartição, de hospital, de tudo. O petismo se tornou ubíquo na esfera pública e, no auge da era petista, era uma religião na qual Lula era Deus.

Em 2010, no entanto, esse ciclo assistencialista já havia terminado. O pobre estava andando de avião. Tinha gente da periferia fazendo medicina com FIES. O mercado crescia, tinha capital externo entrando, o país exportava seus bens – ainda que de baixo valor agregado – numa proporção tão grande que o emprego era pleno. Só não trabalhava quem não queria. Não havia mais espaço para expansão da assistência – o próximo passo era literalmente sair dando sacos de dinheiro na rua.

Quando Dilma ascendeu ao poder, o país não precisava mais de um assistencialista. Tinha até wi-fi na casa do sertanejo que dez anos atrás não tinha nem água. O país precisava de alguém com planejamento estratégico para expandir a infraestrutura. Não com obra faraônica, não com Copa, não com Olimpíada, mas com um plano central que tirasse dinheiro de onde estava sobrando e colocasse onde estivesse faltando. Era modernizar e expandir a indústria. Dar incentivos à ciência e tecnologia. Colocar o país no prumo e torná-lo competitivo, não um pedaço gigantesco de África agrícola – ainda que a agropecuária brasileira seja a mais tecnológica do mundo. Era, também, abrir o mercado, e não protegê-lo, viciando o empresariado ainda mais.

Mas não. Dilma preferiu continuar com a matriz econômica vigente, dar subsídio onde não precisava e crédito praticamente infinito ao consumidor. Ocorreu o que logicamente ocorreria: a inflação veio, carcomeu a moeda, arrasou o poder de compra, esfriou a economia, a receita das empresas caiu, veio a crise e todo mundo no olho da rua.

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Dilma, em vez de preparar terreno para os milhões de novos diplomados que entravam no mercado, preferiu, arrogantemente, insuflar o mercado interno até onde não podia. Ela praticamente imprimiu moeda para aumentar a liquidez da praça. E até sofreu impeachment por isso. Estourou o teto orçamentário. Isso é pecado mortal. E a coitada pagou por isso.

Veio também a corrupção. A realidade faz as melhores histórias, e um doleiro investigado por causa de um posto de gasolina deflagrou a maior operação anticorrupção da história moderna desde a italiana Mani Pulite. O brasileiro assistiu atônito o desmonte de um esquema homérico de corrupção, que funcionava como um relógio, retroalimentado por si mesmo e usando como corda o dinheiro do contribuinte. Obviamente, isso não ficaria por isso mesmo – para muito além da pena criminal aos envolvidos.

Hoje, depois de dois anos de governo Temer, que foi o Café Filho do nosso século – ainda que tenha sido bem menos liberal e sucessor de alguém bem menos importante do que Getúlio – temos um saldo que poderia ser muito pior, caso Rousseff tivesse continuado no poder: 13 milhões de desempregados e uma austeridade econômica digna de um grego contemporâneo.

2018, o último ano da Nova República, foi marcado pela radicalização do discurso. Tanto de um lado, quanto de outro, não vou mentir. A respeito da histeria coletiva das pessoas, em particular de quem não votou em Jair, isso se dá por dois motivos:

1. Os donos do poder sabem que vão perder a teta e colocaram uma falsa ideia de Armagedom na cabeça de quem não pensa com os próprios miolos; e

2. Mudanças sempre são temidas. Mesmo quem é contra o PT, teme o Bolsonaro. Teme que ele realmente mate negro e homossexual. Que ele mande para o exílio oponente político. Que retroceda com o direito das mulheres.

Mas isso é inerente ao jogo. A democracia traz consigo tais riscos. Toda eleição é sempre um ponto frágil na história de um país democrático. É o momento em que se pode eleger qualquer retardado ou ditador – vide Nicolás Maduro.

É certo que não se trata aqui do Bolsonaro. Trata-se das pessoas. Há 30 anos, estamos sendo mortos pela bandidagem, deixados para morrer nas filas de hospitais, emburrecidos na educação pública e vilipendiados pela corrupção. As pessoas estão de saco cheio disso; as pessoas querem segurança, querem serviço público funcionante e minimamente eficiente e o fim do aparelhamento estatal em tudo, inclusive na vida privada. Bolsonaro não representa a si próprio, ele representa seu eleitorado. É isso que o PT e a esquerda não entenderam ainda. O problema não é ele, o problema são os 57.797.456 milhões que votaram nele. A esquerda não soube atender aos novos anseios do povo. Ela errou. Quem errou vai ter de pagar mesmo, certo?, como disse Mano Brown.

Uma Nova Era, ainda inominada, está se formando na Terra Brasilis. Não sabemos quanto tempo durará nem como ela será, mas sabemos de uma coisa: algo vai mudar. E drasticamente.

Augusto Gaidukas

Estudante de Medicina na PUC-Campinas.