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A imaginação moral de Michel Houellebecq

por Lucas Petry Bender (14/11/2016)

Toda a sua obra nos apresenta questões que poderão parecer aos progressistas como banais ou superadas, embora sejam de fato cada vez mais pertinentes.

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Muitos leitores de Michel Houellebecq que acompanharam sua fala no evento Fronteiras do Pensamento (Porto Alegre, 09/11/16) poderiam esperar ironias, sarcasmos e alfinetadas na cultura contemporânea, inclusive com comentários políticos ácidos. De fato, tais ingredientes estiveram presentes em sua fala (em seu discurso, na verdade, lido ao longo de mais de uma hora), mas o volume de política pode ter excedido as expectativas – os termos “esquerda” e “direita”, por exemplo, estiveram entre os mais repetidos na conferência. Qual o sentido desta preocupação tão urgente com a política, ainda mais para um sujeito sabidamente desengajado, avesso à militância e desconfiado das ideologias?

Houellebecq iniciou seu discurso citando o teor de um artigo do jornal britânico The Guardian que postulava um declínio no vigor dos atuais intelectuais franceses. Segundo o conferencista, no entanto, a crítica implícita referia-se ao fato de que o pensamento francês estaria se afastando da influência de concepções da esquerda. Outros textos foram citados para ilustrar a hipótese de Houellebecq, inclusive em que o próprio autor foi nominalmente incluído entre intelectuais que representariam tendências à direita. Sem demonstrar muito entusiasmo com tal “debate” intelectual, Houellebecq não se furtou a comemorar o fato de que, depois de muitas décadas, intelectuais franceses podem ser tachados de conservadores sem sentir medo, sem sentirem-se diminuídos e constrangidos perante os padrões estabelecidos pela esquerda.

Segundo ele, desde 1945 a opinião pública alojou-se sob os esquemas mentais das ideologias progressistas. Maio de 1968 ampliou o poder de influência do pensamento de esquerda ao ponto de eleger os dois maiores ícones do pensamento francês do século XX, Sartre e Camus. Entretanto, segundo Houellebecq, da obra de ambos não se salva nada a não ser, possivelmente, as duas primeiras frases de O Estrangeiro (aliás, uma notável influência nas primeiras linhas de Plataforma, romance de Houellebecq). Seria possível continuar citando trechos do discurso em que critica o pensamento de esquerda e seu poder de influência sobre a opinião pública, mas será mais proveitoso enfrentarmos em definitivo a questão anteriormente proposta: qual o sentido de tamanho interesse em questões políticas?

Conhecendo de perto a obra de Houellebecq, bem como o percurso do seu pensamento, podemos interpretar sua postura a partir de um questionamento dos dogmas democráticos. Não se trata de atacar a esquerda para exaltar a direita, nem de alimentar a oposição para fins exclusivamente políticos e ideológicos, mas de aprofundar o debate de ideias no âmbito da cultura e do pensamento. Nesse sentido, ousar enfrentar a tendência progressista que domina o debate converte-se num exercício fatalmente polêmico. Houellebecq, assim, retoma a postura de autores que ousaram formular críticas aos dogmas democráticos do século XX, principalmente na sua primeira metade, como T.S. Eliot, Hermann Hesse e Otto Maria Carpeaux.

Maio de 1968 pode ser considerado o momento de plena consolidação dos dogmas democráticos. O que Houellebecq traz à tona em seu questionamento é a íntima vinculação das ideologias progressistas com a cultura do ressentimento. Segundo ele, a obra e o pensamento de Sartre, por exemplo, estão calcados no desprezo contra si mesmo, na ojeriza contra o homem ocidental e sua civilização. Na esteira de Sartre, pensadores como Foucault, Deleuze, Derrida e Lacan – considerados por Houellebecq como mistificadores vazios – consolidaram os vícios progressistas na estrutura social (academia, imprensa, artistas) da França, influenciando notavelmente também a produção intelectual norte-americana e, por extensão, grande parte da cultura ocidental; embora faça a ressalva de que no campo político a esquerda já vinha em crise desde 1968, por outro lado no campo cultural o seu triunfo foi muito mais profundo e arraigado. Movida por uma negação das bases da modernidade e por um difuso e mal resolvido peso na consciência, a ideologia progressista pode estar dando sinais de esgotamento neste início de século? Afinal, que fruto pode gerar uma cultura do ressentimento senão uma anticultura? Ou senão aquilo a que o filósofo Roger Scruton designa “cultura do repúdio”?

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Houellebecq não nos oferece respostas, mas toda a sua obra nos apresenta questões que poderão parecer aos progressistas como banais ou superadas, embora sejam de fato cada vez mais pertinentes: é viável uma civilização que não se afirme a partir de sua tradição religiosa? A república laica pode oferecer condições para o desenvolvimento de uma verdadeira comunidade de pessoas? A democratização de direitos e de serviços estatais não é a contrapartida desastrada e ineficaz a um individualismo calcado no consumo e no fetiche da felicidade pessoal? Qual a perspectiva para a arte além das tendências ao engajamento, de um lado, e ao solipsismo, de outro? A liberdade sexual pode reprimir outros instintos humanos fundamentais?

Não são questões de um niilista ou de um cínico, como sugerem alguns, mas de alguém preocupado com os problemas da cultura, com coragem e sensibilidade para questionar a mentalidade progressista e seus dogmas democráticos, não em nome de uma anticultura, mas do espírito do homem ocidental. É neste percurso que se inscreve a obra de Houellebecq: partindo de provocações e polêmicas incendiárias do mundo contemporâneo e chegando à busca por afirmação de valores e sentidos permanentes. Quiçá permanecerá (e permaneceremos) em infinita busca, mas o próprio exercício de liberdade interior demonstra seu valor. Talvez seja por isso que Houellebecq concluiu a conferência afirmando que, junto aos seus colegas ficcionistas Maurice Dantec e Philippe Muray, ambos já falecidos, sua obra artística tenha ajudado a libertar o pensamento francês. Se isso for um exagero, ao menos cabe reconhecer em Houellebecq o valor de sua “imaginação moral” – conceito trabalhado por intelectuais como Lionel Trilling e Russell Kirk para expressar a consciência das contradições, paradoxos e riscos de viver a vida moral.

Conforme a ideia desenvolvida por Martim Vasques da Cunha em A poeira da glória, “no fim das contas, a questão em torno das ideologias políticas, independentemente de ser de direita ou de esquerda, não é algo simplesmente político, mas essencialmente religioso. É uma doença do espírito, causada pela vontade imbatível de realizar o Bem, camuflado de Belo e sem o norte do Verdadeiro”. A trajetória da obra de Houellebecq sugere uma preparação para, após superar os estágios do estético e do ético, confrontar-se com as exigências implacáveis do estágio religioso (conforme a conhecida formulação de Kierkegaard). Aos progressistas e ideólogos da engenharia social resta uma imaginação com a aridez de três desertos, incapazes de sequer começar a compreender acontecimentos recentes (Brexit, Trump, recusa do acordo com as FARC), que parecem estar muito além do que supõem suas vãs filosofias.

Lucas Petry Bender

Servidor público, nascido em 1985, vive em Porto Alegre. Escreve sobre cinema em personacinema.com.br.