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Políticas de destruição

por João Villaverde (06/11/2016)

Em vez de se apoiar no pragmatismo, Dilma e sua equipe tiveram dificuldades para ler os sinais num momento de transição profunda.

"Como matar a borboleta-azul: uma crônica da era Dilma", de Monica Baumgarten de Bolle (Intrínseca, 2016, 272 páginas)

“Como matar a borboleta-azul: uma crônica da era Dilma”, de Monica Baumgarten de Bolle (Intrínseca, 2016, 272 páginas)

1.

Caçar e estudar borboletas tem nome esquisito: lepidopterologia. Poucos sabem, mas essa é uma carreira. E menos gente ainda sabe que o escritor russo Vladimir Nabokov (aquele de Lolita, depois adaptado para o cinema por Stanley Kubrick) gostaria de ter sido isso, um lepidopterologista, e não um escritor. Ele nunca escondeu sua feição por borboletas, mas pouco falava disso.  Numa perdida entrevista à Paris Review, em 1967, no entanto, ele soltou, de bate-pronto, a seguinte resposta para a pergunta “O que mais gosta de fazer”: “Caçar borboletas e estudá-las. Os prazeres e as gratificações da inspiração literária não são nada comparados ao enlevo de descobrir um novo órgão ao microscópio, ou uma espécie não catalogada nas encostas do Irã ou do Peru. Não é improvável que se não tivesse havido uma revolução na Rússia eu teria me dedicado inteiramente à lepidopterologia e jamais teria escrito romances”.

Esta característica de Nabokov foi a primeira coisa que me veio a cabeça quando descobri que o título do livro da economista Monica de Bolle envolvia borboletas. Antes, ainda, de sentar para ler a obra pensei também no Iron Butterfly (Borboleta de Ferro, em inglês), uma das três bandas que serviram de transição entre o rock and roll dos anos 1950 e 1960 para o heavy metal dos anos 1970. (As outras duas, se você estiver curioso, são MC5 e Steppenwolf.)

Literatura, lepidoterologia e heavy metal se encontram nessa obra de Monica de Bolle sobre os desarranjos promovidos pelo governo Dilma Rousseff na economia. Em primeiro lugar, o texto: a autora sempre versou no campo da relação entre a economia e fenômenos culturais. O livro é uma extensão de seu trabalho pregresso e não um rompimento. Quem já leu Edmar Bacha e Eliana Cardoso entende o que quero dizer aqui. Monica sempre se esforçou para transmitir suas ideias do terreno complexo da macroeconomia de forma livre, estabelecendo metáforas e criando pequenos enredos do real a partir de referências artísticas. Em segundo lugar, a lepidoterologia: seu livro pode ser comparado com o trabalho de estudar um animal pequenino e delicado, uma vez que é visível em cada uma das 264 páginas seu esforço para compreender o que foi feito pelo governo Dilma entre 2011 e 2016 e, ao mesmo tempo, explicar ao leitor seu ponto de vista sem perder seu estilo próprio de texto e narrativa. Em terceiro lugar, o assunto em si: o governo Dilma tem como única trilha sonora possível o heavy metal.

Como matar a borboleta-azul: uma crônica da era Dilma é um livro que supera o gênero típico de economistas do noticiário. Essa categoria, de “economistas do noticiário”, é bem própria: diferente de seus pares em universidades e institutos de pesquisa, ou mesmo aqueles de bancos, fundos de hedge e de governos e instituições multilaterais, que trabalham a disciplina sem necessariamente interferir no debate público, os economistas do noticiário são aqueles que dispõe de colunas em jornais, revistas, rádios e blogs, além de serem recorrentemente citados em reportagens. Quando esse tipo de economista lança um livro, de modo geral, trata-se de uma obra que empacota seus artigos e ensaios. O livro de Monica poderia ter sido isso – há 19 trechos de artigos ou mesmo colunas na íntegra que já tinham sido publicados entre 2011 e 2015. Mas a obra supera, e muito, um livro de coletânea de artigos já publicados. Eles estão ali, mas inseridos dentro de uma narrativa maior. E o texto novo, aquele que o leitor encontra apenas em Como matar a borboleta-azul, é de alto nível. Economistas que ambicionam fazer parte do debate público, uma dica: leiam Monica de Bolle. Mesmo que não seja para fazer igual, certamente seu texto melhorará.

Vamos à obra, agora.

Monica busca destrinchar a economia brasileira sob Dilma e parte de um pressuposto evidente, que pode ser resumido da seguinte forma. Como que um país que terminou o ano de 2010 com um avanço do PIB da ordem de 7,6%, a mais elevada taxa de crescimento em 24 anos, com uma inflação que até o fim de setembro daquele ano estava controlada (e que tinha registrado 0% por inéditos três meses consecutivos entre junho, julho e agosto), com um saldo comercial de US$ 25 bilhões, com geração de 4 milhões de empregos formais e crescimento até da indústria, chegou ao biênio 2015/2016, apenas cinco anos depois, do jeito que chegou? Não é mistério para o leitor desta resenha que estamos vivendo uma dupla recessão (algo que somente ocorreu em 1930 e 1931), que a taxa de desemprego saltou e hoje mais de 12 milhões de brasileiros estão em casa sem trabalho, que mesmo com o desaquecimento total da economia a inflação bateu quase 11% no ano passado e neste ano ficará acima do teto da meta de inflação. No meio disso tudo vimos os intestinos do Brasil expostos pela Operação Lava Jato. Para fechar, a primeira mulher a assumir a Presidência da República, que chegara ao poder de forma popular e indiscutivelmente legítima em 2010, deixou o poder federal após um longo processo de impeachment. Mais: apesar de ter sido resultado de um julgamento eminentemente político (como todo e qualquer julgamento de impeachment), a base formal do processo foi a prática econômica, a partir de mecanismos fiscais e orçamentários.

Monica parte da ideia do “trem-fantasma”, que Dilma deu início em 2011 e que continuou desgovernado até aqui. Apesar de ser claramente contrária ao governo petista, a autora não faz um livro pró-Temer.

Não querer a volta de Dilma não se traduz em chancela automática ao governo interino, sobretudo quando somos solapados com a brutalidade das palavras de seus integrantes, com a desfaçatez, também presente no governo Dilma (…) Temer-Adão é costela de Dilma-Eva. (p. 258)

Monica abre seu livro-crônica de forma a cativar o leitor a, junto dela, desbravar a era Dilma, que pegou o “Brasil grande” de 2010, tendo a perspectiva da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos, e chegou em 2016 da forma que chegou. Os capítulos contaram com edição generosa: eles são abertos com uma linha do tempo que extrapola os temas do livro, fazendo o leitor imediatamente lembrar como foi mesmo 2011 (marcado pela Primavera Árabe, o desastre de Fukushima e a morte de Steve Jobs), 2012 (julgamento do “mensalão” no STF, reeleição de Obama) e assim por diante.

O livro segue uma lógica dinâmica. Logo após a cronologia do ano, Monica começa a descrevê-lo a partir das diversas mudanças feitas por Dilma na política econômica, usa comparações com literatura e cinema e aborda artigos seus publicados na época (e eles seguem também essa narrativa com referências culturais). Entre as referências há desde as óbvias, como com filmes de Woody Allen, até outras mais densas e incríveis, como com o único romance de Edgar Allan Poe e The Principles of Psychology, de William James, que funciona perfeitamente. Mas, de longe, a melhor de todas as relações estabelecidas por Monica é quando ela usa o livro Um antropólogo em Marte, do psiquiatra Oliver Sacks. O personagem, Virgil, fica cego aos 6 anos de idade e recupera essa habilidade crucial já muito adulto, aos 51 anos. Para espanto de todos, ele continua a se comportar como cego. Uma relação perfeita para o que ocorreu com o governo federal a partir de 2013, após as manifestações populares de junho, e aos sinais mais evidentes de que a economia estava desarranjada.

Há também uma miríade de citações a fenômenos biológicos humanos, como gânglio basal (p. 99), crescimento na adolescência (p, 114), agnosia (p. 156), hipotálamo (p. 178), mal-estar e suor frio (p. 254). Eles funcionam e são bem empregados. Com o hipotálamo vem o ataque mais duro de toda a obra. No caso, desferido por Monica contra Guido Mantega, o ministro da Fazenda, quando ela narra a tentativa do ministro de convencer o FMI a alterar a forma de contabilidade do endividamento público brasileiro. “A solicitação do ministro, além de insólita, remontava ao patético, fruto de um hipotálamo desgovernado. A falta de acuidade mental é um dos sintomas desse tipo de patologia”, escreve ela na página 179.

Entre os artigos já publicados e repetidos aqui na obra há aquele que dá título ao livro (sobre a experiência da Inglaterra com as borboletas-azuis) e também aquele que considero ser sua melhor coluna, “Obituário”, publicada originalmente em O Globo em junho de 2012. No livro, ele ocupa as páginas 112, 113 e 114. Foi uma forma criativa de tratar do fim do regime de metas de inflação, inaugurado no Brasil em 1999 após a dura crise que explodiu no país logo após a reeleição de FHC no ano anterior (quando as reservas internacionais foram sugadas para evitar uma desvalorização cambial que viria logo no décimo terceiro dia do segundo mandato do tucano, deflagrando enorme crise). Segundo Monica, o regime vigorou de forma consistente de 1999 a 2011, sendo abandonado – ainda que não oficialmente – em 2012.

2.

Este resenhista cobriu muito de perto o governo Dilma Rousseff. Cheguei em Brasília em maio de 2011 pelo Valor Econômico, onde já trabalhava em São Paulo há três anos. No fim de 2012 fui convidado a ir para a sucursal do Estadão na capital federal e continuei cobrindo o governo, o que fiz até 4 de janeiro de 2016, quando fui para a Universidade de Columbia para exercer bolsa de pesquisador visitante. Li boa parte dos artigos originais de Monica nos dias em que eram publicados. Esta é a minha perspectiva como leitor de Como matar a borboleta-azul.

Meu entendimento é que a obra tem seu melhor momento justamente nos capítulos que tratam de 2012 e 2013. Foram nesses anos em que, fundamentalmente, o governo Dilma se descolou de uma estratégia que, apesar de problemas, funcionou bem durante o governo Lula. Em vez de se apoiar no pragmatismo, Dilma e sua equipe econômica tiveram dificuldades para ler os sinais internacionais num momento de transição profunda, que ocorreu justamente entre 2012 e 2013. Foi quando a China abandonou sua estratégia de crescimento que vigorou entre 2001 e 2011. Foi quando os Estados Unidos começaram a deixar a política de estímulos incessantes do pós-crise. Foi quando o pêndulo político na América Latina começou a mudar (Fernando Lugo sofre impeachment no Paraguai em 2012; Hugo Chávez morre no início de 2013). Internamente é quando a política de incentivos ao consumo chega ao limite do limite e quando milhões de brasileiros vão às ruas em junho de 2013. Olhando pura e simplesmente para as eleições de outubro de 2014, o governo Dilma não conseguiu fazer a leitura correta do cenário nacional e internacional.

“Vida é aquilo que acontece enquanto a gente faz planos”, escreveu John Lennon. Invoco essa frase porque, aos olhos deste jornalista-resenhista, Dilma foi uma presidente de muitos planos e pouca vida no meio deles. Seu governo estava sempre imerso em algum plano, algum pacote, e, visto de fora de Brasília, parecia não ter cor, apenas preto e branco. A presidente ficava enfurnada no seu gabinete discutindo revisões de marcos regulatórios, alterações fiscais, regimes de investimentos públicos e inversões financeiras, e foi durante uma dessas sessões de “espancamento de ideias”, quando ela analisava a revisão do código de mineração, que o país teve as ruas tomadas em 2013. A presidente estava ocupada demais para compreender aquilo. Ela já tinha feito o velório de Oscar Niemeyer no Palácio do Planalto em meio a anúncios de medidas econômicas, seis meses antes. A partir de junho de 2013, quando também o mundo político tradicional (PSDB, PMDB, o PSB de Eduardo Campos, Marina Silva etc.) começou a respirar a sucessão de Dilma, a presidente se fechou ainda mais e seu foco passou a ser um só.

Monica trata este período inicial do governo com um texto mais leve e menos econômico. O período dramático de 2014 a 2016, por outro lado, tem menos referências literárias (e um peso maior de uma referência só, que é do analista Cipolla e suas “leis da estupidez humana”); ocupa, também, uma parte menor do livro – as últimas 64 páginas. Os temas duros deste final – Lava Jato, “pedaladas fiscais”, conflito total na política e nas ruas, impeachment – são tratados de forma mais rápida e direta. Vale o registro, no entanto, do tema da desigualdade de renda e do nefasto papel da política tributária brasileira. Como tradutora para o português do livro de Piketty, Monica aborda este tema de forma habilidosa.

Não deve ser mistério ao leitor deste livro que Monica de Bolle pertence à uma escola de economistas cujo pensamento é diametralmente oposto àquele de Dilma, e também ao do principal nome de seu governo na área, o ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega. A autora faz parte da PUC do Rio de Janeiro, de onde saíram nomes que fizeram parte do governo anterior ao do PT de Lula e Dilma. O duplo mandato de FHC teve participação direta de nomes da PUC-RJ e da Casa das Garças, como Gustavo Franco, o supracitado Edmar Bacha, Winston Fritsch e outros.

Essa divergência fica clara ao longo da obra, mas é num pequeno parágrafo na página 95 que ele fica evidente. Ela escreve o seguinte:

Não há nada de especial na indústria de transformação que a torne necessariamente mais importante para o desenvolvimento do país do que o agronegócio, os serviços ou outras atividades (…) a preocupação das autoridades brasileiras estava mais influenciada por como o governo achava que as coisas deveriam ser do que por como de fato eram ou são.

Este é um ponto controverso. Por outro lado, ela acerta quando diz que a estratégia do governo foi “antiquada” para resolver os problemas da indústria.

Como matar a borboleta-azul é, ao mesmo tempo, um livro de economia, um registro econômico do governo da primeira mulher presidente, uma crônica sobre as mudanças feitas por uma presidente formada em Economia e uma obra crítica de uma analista próxima ao pensamento ortodoxo, mas não presa a ele. Vale a leitura.

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P.S.: O leitor que chegou até aqui pode se interessar por outras obras que chegaram em 2016 e trazem excelentes discussões sobre o cenário atual e proposições sobre 2017 em diante. Destaco três, que devem ser lidos: Finanças públicas (Editora Record), organizado por Mansueto Almeida e Felipe Salto; Macroeconomia Desenvolvimentista (Elsevier), de Luiz Carlos Bresser-Pereira, José Luis Oreiro e Nelson Marconi; e Taxa de câmbio e política cambial no Brasil (FGV Editora), de Pedro Rossi.

João Villaverde

Jornalista, autor de Perigosas pedaladas: Os bastidores da crise que abalou o Brasil e levou ao fim o governo Dilma Rousseff. Foi pesquisador visitante na Universidade de Columbia, NY, e atualmente é mestrando em administração pública e governo na FGV-SP.