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Se o amor existe, tudo é permitido

por Lucas Petry Bender (07/11/2017)

O amor não é compreendido quando não é vivido como a verdade.

1.

Há no livro VII de Os Irmãos Karamázov uma seção com o curioso título de “A cebolinha”. Trata-se de um episódio que, apesar de pouco comentado em comparação com outros trechos célebres deste clássico absoluto da literatura, é sublime no modo como revela a ação do amor mesmo diante de suas extravagantes adversidades.

Sem revelar aqui aspectos centrais da trama, mas apenas pequenos spoilers (ainda que o romance seja bastante conhecido), introduzamos a cena: trata-se de um momento em que Alieksiêi (também chamado pelo diminutivo Aliócha, caçula entre os irmaõs Karmázov e aprendiz de monge), bastante fragilizado e um tanto desnorteado pela morte recente e inglória de seu amado mestre stárietz (monge ancião russo) Zossima, é convencido por seu também jovem colega aprendiz, Rakítin, a acompanhá-lo em visita a Grúchenka. As intenções de Rakítin ao conduzir o jovem asceta até aquela mulher são inteiramente maliciosas e pérfidas, no intuito de aproveitar um momento de vulnerabilidade de Aliócha para tentá-lo à perdição.

Grúchenka é uma mulher voluptuosa e insolente, sendo o pivô da discórdia entre o pai e o primogênito da família Karamázov, por quem é disputada. No momento em que ela recebe a inesperada visita, está aguardando a chegada de uma carruagem que a levará a um terceiro pretendente. Nesse ínterim, a bela mulher procura se divertir às custas de Aliócha, participando do plano de Rakítin para colocá-lo em perdição. Senta-se ao colo do jovem asceta, pendura-se em seu pescoço, faz graças e charmes – mas Aliócha permanece aparentemente impassível.

Aqui começam propriamente as sutilezas da cena, que preparam o terreno para o seu ápice. Aliócha – o herói do romance, como o define o próprio autor no prólogo – estará impassível ainda devido à languidez e ao abatimento provocados pela morte de seu mestre? Tudo a leva a crer que sim, mas o narrador da história nos comunica que, no momento em que a beldade senta no seu colo, Aliócha é acometido por uma peculiar comoção interna, que o faz considerar a moça e a sua situação sob uma nova perspectiva – “uma sensação inteiramente distinta, inesperada e especial, a sensação de uma curiosidade inusitada, grandiosa e sincera por ela”. Que tipo de interesse estaria sentindo Aliócha? Será que o plano de tentá-lo começava a fazer efeito?

De repente, diante dos gracejos da bela senhorita, Aliócha sorri. Um sorriso seguido de um olhar puramente carinhoso. Grúchenka imediatamente percebe que suas intenções são inúteis e que está diante da uma situação com a qual não está habituada. É o início de uma descoberta interior que transforma toda a cena em uma das mais belas e comoventes do romance; um momento de compreensão mútua e franca, entre duas almas que parecem profundamente diferentes, mas que acabam de perceber que são feitas da mesma substância – e é por aqui que vamos nos deter, procurando lançar luz sobre o significado deste encontro e, por extensão, sobre a obra de Dostoiévski.

Grúchenka nota a disposição benevolente de Aliócha e se diz aliviada por ele não estar zangado com suas imposturas recentes. “Eu fui uma cadela, eis o que eu fui”, diz, enquanto mira o sorriso compreensivo e terno do jovem a quem pretendia pôr em perdição.

Rakítin vai se tornando cada vez mais zombador e irascível diante da cena inesperada que testemunha, vendo seu plano fracassar:

– E é isso mesmo – Rakítin meteu-se de repente na conversa seriamente surpreso. – É que ela realmente tem medo de ti, Aliócha, medo desse franguinho.

– Para ti ele é um franguinho, Rakitka [diminutivo de Rakítin], eis a questão… porque não tens consciência, eis a questão! Vê, eu o amo com a minha alma, eis a questão! Aliócha, acreditas que te amo com toda a minha alma?

– Ai, que sem-vergonha tu és! Aliócha, ela está te fazendo uma declaração de amor!

– E daí? Amo mesmo!

– E o oficial? [Rakítin faz referência ao pretendente que deve chegar a qualquer instante para levá-la] […]

– Isto é uma coisa, mas o assunto aqui é outro.

– Vejam só como a mulher se sai!

– Não me enfureças, Rakitka – emendou Grúchenka com fervor -, aquilo é uma coisa, o assunto aqui, outra. Aliócha eu amo de outro jeito. Aliócha, é verdade que eu antes pensava em ti de um jeito ardiloso. Porque sou vil, porque sou exaltada, mas vez por outra, Aliócha, me acontece de olhar para ti como para minha própria consciência. E fico pensando: “Ora, agora ele deve mesmo desprezar uma criatura tão detestável como eu”.

Em seguida as criadas trazem bebidas e a conversa chega ao ponto em que Grúchenka toma conhecimento de que acabara de falecer o stárietz Zossima, o que a deixa perplexa e a faz imediatamente sair do colo de Aliócha, desculpando-se. Este, diante de uma provocação de Rakítin, que sugere que a disposição de Aliócha desde a morte do seu mestre era a de renegar Deus (pois estava aceitando tudo o que lhe era sugerido, inclusive comparecer diante daquela mulher), demonstra novamente que o momento é de rara compreensão mútua, justamente quando menos se esperava. Diz Aliócha:

– É melhor que olhes aqui pra ela: viste como foi clemente comigo? Vim para cá para encontrar uma alma perversa – eu mesmo me senti atraído por isto porque eu era vil e perverso, mas aqui encontrei uma irmã sincera, encontrei um tesouro – uma alma que ama… Ela acabou de ser clemente comigo… Agrafievna Ivánovna [o nome verdadeiro de Grúchenka], estou falando de ti. Acabaste de restaurar minha alma.

Ambos se emocionam profundamente, para perplexidade de Rakítin. Diz ela: “Ele me chamou de irmã, e nunca mais vou esquecer isso! Só que escuta aqui, Rakitka, embora eu seja perversa, ainda assim ofereci a cebolinha.” E é então que Grúchenka expressa os tormentos sublimes de sua alma contando uma lenda popular russa, a fábula da cebolinha:

“Era uma vez uma mulher perversa demais, e ela morreu. E não deixou de lembrança nenhuma boa ação. Os diabos a agarraram e a lançaram no lago de fogo. Mas seu anjo da guarda estava a postos e pensava: preciso me lembrar de alguma obra virtuosa praticada por ela para contar a Deus. Lembrou-se de uma e a contou a Deus: ela, diz ele, arrancou uma cebolinha de sua horta e deu a uma pedinte. E Deus lhe responde: pega essa mesma cebolinha, diz Ele, estende-a para ela no lago, para que ela a agarre e tente sair; e se conseguires tirá-la do lago, então que ela vá para o paraíso; mas se a cebolinha arrebentar a mulher ficará lá onde está agora. O anjo correu para a mulher, estendeu-lhe a cebolinha: pega, mulher, diz ele, agarra-te e sai. E começou a puxá-la cuidadosamente, e já quase conseguira tirá-la quando outros pecadores do lago, vendo que ela estava sendo tirada, começaram todos a agarrar-se a ela para serem tirados juntos. Mas a mulher era perversa demais, e começou a escoiceá-los: ‘É a mim que estão tirando e não a vocês, a cebolinha é minha e não de vocês’. Mal ela pronunciou estas palavras a cebolinha arrebentou. E a mulher caiu no lago e lá está ardendo até hoje. E o anjo chorou e foi embora.”

Grúchenka abre completamente seu coração, confessa as más intenções que tinha perante Aliócha, tendo inclusive subornado Rakítin para que o levasse até ela – “Vou devorá-lo inteiro e depois zombar […] Estás vendo que cadela ruim é esta que chamaste de tua irmã!” – e confessa também seus sentimentos ambivalentes diante do pretendente que está por chegar, explicando que se trata de seu antigo ofensor, que tem vontade de humilhá-lo ou mesmo atacá-lo com uma faca, alimentando desejos vingativos por anos. Uma crise de choro a acomete, então.

Mas Aliócha reconhece a cebolinha oferecida entre os tormentos daquela alma irmã, tão perdidamente apaixonada pela vida:

– Quem sou eu diante dela? Vim para cá com o intuito de me perder, e dizendo: “Que seja, que seja!”. E isso por causa de minha covardia, ao passo que ela, depois de cinco anos de tormento, foi só o primeiro lhe aparecer e lhe dizer uma palavra sincera, que ela perdoou tudo, esqueceu tudo, e está chorando! Seu ofensor voltou, está chamando por ela, e ela lhe perdoa tudo, e se precipita para ele cheia de alegria, e não levará a faca consigo, não levará! […] Hoje, agora, acabei de receber uma lição… Ela é superior a nós pelo amor… […] Essa é uma alma ainda não reconciliada, precisamos poupá-la… essa alma pode conter um tesouro…

Rakítin mal pode compreender o que se passa naquelas duas almas, com seus rostos iluminados banhados pelas lágrimas ardentes. A compreensão é um pequeno milagre, que parece se manifestar apenas nos corações sinceros.

– O que foi que ele te disse de tão especial? – rosnou Rakítin irritado.

– Não sei, não faço a mínima ideia do que ele me disse, fez meu coração sentir, revirou meu coração… Foi o primeiro, o único a se compadecer de mim, eis a questão! Por que não apareceste antes, querubim? – súbito, ela se deixou cair de joelhos diante dele [Aliócha] como que tomada de um frenesi. – Passei a vida inteira esperando uma pessoa como tu, sabia que alguém assim iria aparecer e me perdoar. Acreditava que alguém também me amaria, a mim, a esta torpe, não só para me desonrar!…

– O que foi que eu te fiz de especial? – respondeu Aliócha com um sorriso enternecido, inclinando-se para ela e segurando-lhe as mãos com ternura. – Eu te dei uma cebolinha, a mais ínfima cebolinha, e só, só!

2.

Tendo em vista que muitos dos conflitos que emergem na narrativa se dão em torno de disputas amorosas entre homens e mulheres que sucumbem às tentações ou que rivalizam em torno do objeto de desejo, o episódio da cebolinha aparece sob uma luz reveladora de outra perspectiva de amor – “Aliócha eu amo de outro jeito”, nas palavras da própria personagem. Este momento de reconhecimento recíproco entre duas “almas que amam”, sem nenhuma conotação de desejo envolvida, e justamente diante de uma situação armada para levar à perdição, é o sinal de uma inesperada graça que salva Aliócha e Grúchenka no momento em que estavam mais perdidos e desnorteados, ambos inclinados a cometer desatinos.

O amor que surge desse encontro contrasta com o amor com que se debatem os personagens ao longo da trama. De um lado, Aliócha, obstinado em manter sua força de espírito e sua disposição benevolente, sem cálculos premeditados, sem gestos ensaiados, apenas com seu olhar franco e desarmado que se traduz naquela palavra de reconhecimento – “irmã”. De outro lado, Grúchenka, a alma decaída e dissoluta, que trama mil vinganças e perfídias, mas que sabe reconhecer o verdadeiro amor quando ele se manifesta diante de seus olhos, e que imediatamente se permite a conversão. Conversão à verdade, pois o que ambos sentem em seus corações neste momento é que este amor é a verdade, e por isso se permitem entregar-se completamente. As maquinações mundanas se desarmam, o amor é reconhecido, e vem à tona a verdade do “fundo insubornável do ser”, na expressão de Ortega y Gasset.

Enfatizemos novamente o poder inesperado deste encontro, para melhor compreendermos do que falamos quando falamos de amor. O processo é desencadeado por Aliócha, em virtude de, sendo monge noviço, ter se aprofundado no autoconhecimento, na autoaceitação, na interiorização, na ordenação da alma e no cultivo do espírito – o que se reflete no modo como Grúchenka se refere a ele, “me acontece de olhar para ti como para minha própria consciência”. Grúchenka, por sua vez, é animada por uma exaltação apenas aparentemente espontânea, precisando de muita força para se manifestar de coração sob tanto ressentimento, despeito e mágoa. E o desabrochar desse amor purificado que trazia na sua alma ocorre diante da simples confiança que Aliócha lhe transmite, confiança em que ela e o jovem monge são, em essência, almas irmãs. Aliócha não faz qualquer manobra ou cálculo para alcançar o coração dela, apenas pressupõe que o amor também lá vigorava – mesma situação abordada por Kierkegaard em seu belíssimo livro dedicado ao amor: “aquele que ama pressupõe que o amor esteja presente no coração da outra pessoa, e justamente com essa pressuposição ele edifica nela o amor a partir do fundamento – na medida em que ele, é claro, amorosamente o pressupõe no fundamento” (p. 248).

Nesse sentido, Kierkegaard destaca precisamente um esforço interior necessário, o autodomínio, sendo este um dos atributos por excelência cultivados e transmitidos pela tradição monástica que Aliócha exerce:

não é o caso pois de se perguntar o que o amoroso, que quer edificar, deve então fazer para transformar a outra pessoa ou para forçá-la a demonstrar o amor, mas se trata, isso sim, de como o amoroso de maneira edificante força a si mesmo. Observa: já é edificante considerar que o amoroso edifica pelo autodomínio! Apenas o desamoroso imagina que deve edificar pressionando o outro; o amoroso pressupõe constantemente que o amor está presente, justamente assim ele edifica.[…] O amoroso trabalha com muita calma e solenidade, e no entanto as forças da eternidade estão em ação; humildemente, o amor se faz mais desapercebido justamente quando mais trabalha, sim, seu trabalho é como se não fizesse nada (p. 248-249).

Que palavras poderiam melhor descrever a ação de Aliócha sobre os demais personagens, em especial nesta passagem junto a Grúchenka?

Neste ponto, é oportuno lançarmos mão de outro romance de Dostoiévski, para melhor compreendermos a caracterização que ora apresentamos. Observemos que o herói de O Idiota, Míchkin, é em muitos aspectos semelhante a Aliócha – benevolente, voluntarioso, passivo, caridoso, simples, franco; também tem a capacidade de penetrar quase imediatamente na interioridade de seus interlocutores, bem como de desarticular as más intenções, malícias e segundas intenções daqueles com quem se depara. No entanto, se a ingenuidade de Míchkin o faz vítima de circunstâncias terríveis, é porque não alcança a mesma pureza de coração de Aliócha, o que corresponde novamente às palavras de Kierkegaard: “Crer em tudo por leviandade, inexperiência, ingenuidade, é um conhecimento, é um conhecimento tolo; mas tudo crer por amor, é uma opção exercida em virtude do amor. […] só há um caminho para preservar-se de jamais ser enganado, é crer em tudo por amor” (p. 266-267). Sabe-se que Dostoiévski criou Míchkin inspirado pela “figura de absoluta beleza: Cristo” –  mas com Aliócha, herói de seu último romance, o autor parece ter avançado ainda mais nesta sua inspiração.

No entanto, as forças do mundo indicam que o amor não é benquisto, que atrapalha os desejos, pois coloca todos os aspectos da vida sob suas verdadeiras perspectivas. O amor não é compreendido quando não é vivido como a verdade. As forças mundanas são representadas nesta cena por Rakítin, o noviço que desde o início do romance se mostra dissimulado e mesquinho. Ele não apenas não compreende o amor que está testemunhando, como se ofende com a situação e interfere reiteradamente no sentido de voltar a arrastar Aliócha e Grúchenka para a “realidade” do mundo.

Como reflete Kierkegaard, “o amor ao próximo tem as perfeições da eternidade – daí resulta talvez que às vezes ele combine tão pouco com as condições da vida terrena, com as diversidades temporais do que é do mundo, e que tão facilmente ele seja incompreendido e exposto ao ódio, e que em todo caso seja uma tarefa tão ingrata amar ao próximo” (p. 90). Segundo o filósofo dinamarquês, o amor é reconhecível apenas pelos frutos, estando essencialmente oculto no mais recôndito do coração de cada sujeito. Ou seja, é necessário crer no amor para reconhecê-lo nos seus frutos.

Aliócha, como discípulo sinceramente devotado de seu stárietz, procura em todas as circunstâncias cumprir o mandamento do amor. Seu êxito diante de Grúchenka é o fruto do pleno cumprimento desta lei – o que volta a acontecer diante de diversos personagens da trama. Mas é apenas após este episódio que o jovem monge compreende de fato o que o mundo espera do amor; compreende de fato como a temporalidade se abre ao amor eterno. Novamente, recorramos às palavras de Kierkegaard sobre o mandamento do amor: “Lá onde o puramente humano quer precipitar-se para a frente, o mandamento retém; lá onde o puramente humano quer perder a coragem, o mandamento reforça; lá onde o puramente humano quer declarar-se cansado e experiente, o mandamento inflama e dá sabedoria” (p. 61).

Na cena seguinte do romance, após sair da casa de Grúchenka, Aliócha vai ao mosteiro velar o corpo sem vida do seu mestre. Exausto, adormece enquanto ouve a leitura da passagem dos Evangelhos em que se narra o milagre da transformação da água em vinho. As palavras da leitura continuam ecoando em sua mente enquanto sonha com o stárietz. Ao acordar, sente-se revigorado e pleno de alegria. Caminha para dentro da noite – “o silêncio da terra parecia fundir-se ao silêncio do céu, o mistério da terra tocava o mistério das estrelas” – e, num êxtase místico incontido, se arroja sobre a terra, beijando-a e beijando-a muitas vezes – “exaltado, jurava amá-la, amá-la até a consumação dos séculos”. Aliócha sente neste momento que alcança a unidade do seu ser, o momento decisivo para a sua vida – fruto da “lição” que acabara de aprender junto a Grúchenka.

3.

As arestas que vão sendo aparadas ao longo da cena entre Aliócha e Grúchenka, com seus diálogos truncados, repetições de palavras, ênfases desarticuladas diante da exaltada comoção que experimentam – tudo isso nos faz perceber que não estamos diante apenas de uma narrativa poderosa feita para causar impressão, mas sim de uma criação artística que fala diretamente ao coração e que assim nos torna partícipes do drama, fazendo jus à definição de George Eliot: “A arte é a coisa mais próxima da vida; é um modo de aumentar a experiência e ampliar nosso contato com os semelhantes para além do nosso destino pessoal”.

Essa proximidade, no entanto, às vezes deixa de ser apreendida em toda a sua dimensão, seja por falta de uma leitura atenta, seja por inexperiência, seja por não dar a devida atenção ao peso das palavras e do sentido que revelam – dificuldade que é atestada pelos comentários e resenhas sobre o livro, que abordam seus mais diversos aspectos (o painel social russo, o mistério do crime, as relações familiares, os conflitos ideológicos, o niilismo, a violência das paixões etc.), mas dificilmente refletem sobre, afinal, a característica mais fundamental do herói do romance: o aprendizado e o esforço de Aliócha por cumprir o mandamento do amor. Eis a alma deste romance, feito com amor, pelo amor, para o amor.

O encontro das “almas que amam” na cena que abordamos reforça o sentido essencialmente cristão da obra dostoievskiana, que se manifesta através da fé na verdade do amor. Amor que não apenas banha em plenitude o momento presente – o espanto diante da sua graça – como ancora a existência no fundamento da eternidade – como coloca Kierkegaard:

Pois o que vincula o temporal e a eternidade, o que é, senão o amor, que justamente por isso existe antes de tudo, e permanece depois que tudo acabou. Mas justamente porque o amor é assim o vínculo da eternidade, e justamente porque a temporalidade e a eternidade são de natureza diferente, justamente por isso o amor pode parecer um fardo para a sagacidade terrena da temporalidade, e por isso na temporalidade pode parecer ao homem sensual um imenso alívio lançar para longe de si este vínculo da eternidade. (p. 20-21)

Cristo, sendo Deus e homem simultaneamente, é a máxima inspiração de Dostoiévski para os paradoxos da relação entre graça e pecado que perpassam toda a narrativa. Cada ação de seus personagens principais é reveladora da ambivalente condição humana. Um mesmo gesto, atitude ou palavra revela, simultaneamente, um potencial de queda e outro de redenção – “dois abismos, dois abismos, senhores, em um só instante – sem isso somos infelizes e insatisfeitos, nossa existência não está completa”, como profere o promotor no julgamento final. Ainda mais apropriado é o discurso do advogado de defesa:

Sim, esses corações – oh, deixai-me defender esses corações tão rara e injustamente compreendidos –, esses corações anseiam muito amiúde pelo terno, pelo belo e pelo justo, precisamente como uma espécie de contraste consigo mesmos, com sua violência, com sua crueldade – anseiam de forma inconsciente, e anseiam de fato. Apaixonados e cruéis na aparência, são capazes de amar martirizando-se, por exemplo uma mulher, e devotando-lhe obrigatoriamente um amor espiritual e supremo. Mais uma vez não riais de mim: é justamente o que acontece com maior frequência com essas naturezas! Elas apenas não conseguem esconder sua paixão – às vezes muito grosseira – e é isso que impressiona, é isso que se percebe, mas não se vê dentro do homem. Ao contrário, todas as suas paixões se suavizam rapidamente, mas ao lado de um ser nobre e belo essa pessoa aparentemente grosseira e cruel procura a renovação, procura a possibilidade de corrigir-se, de tornar-se melhor, de fazer-se elevada e honesta – “elevada e bela”, por mais que se ridicularize esta expressão.

Se nos propomos afirmar que o romance trata da redenção pelo amor – conduzido pelo aprendizado de Aliócha, ligando o mosteiro e o mundo –, resta abordar a ideia mais célebre do romance, popularizada através de uma citação apócrifa que funde parte do texto de Dostoiévski com parte de textos de Nietzsche: “Se Deus está morto, então tudo é permitido”. Sentença derivada da ideia de Ivan Karamázov (o irmão do meio, o mais culto e letrado), que expressa inclinação pela possibilidade de não haver qualquer conteúdo real nas virtudes e na moral se não existir a eternidade, a imortalidade da alma ou Deus – enfim, se não existir um Absoluto que transcenda a temporalidade humana. Tal ideia, que terá consequências terríveis na trama, volta a aparecer em diversas ocasiões ao longo da obra, às vezes servindo como acusação contra o cinismo de Ivan, que não demonstra a mesma força de espírito para assumir as responsabilidades da ideia que nutre.

Na cosmovisão da modernidade que renega o fundamento do Absoluto – Deus, a eternidade, a imortalidade da alma – emerge uma entorpecida concepção de liberdade em que se anseia pelo “tudo é permitido”, ou por aquele seu eco, “é proibido proibir”, da revolução dos costumes dos anos 1960. Nesse sentido, o anseio acalentado por Ivan – e pelas ideologias progressistas de modo geral – é antipodal ao de Aliócha, cuja conduta é permeada pelos princípios transcendentes da cosmovisão cristã; e, todavia, quem poderia acusar Aliócha de não agir com plena liberdade? Tudo indica que falta à cosmovisão moderna que rejeita o fundamento do Absoluto uma consciência mais amadurecida sobre a sentença evangélica de Santo Agostinho: “Ama, e faz o que queres”. Através do amor intermediado por Deus, conforme revelado nos Evangelhos, tudo é permitido.

 

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Lucas Petry Bender

Licenciado em História, pós-graduado em Filosofia. Servidor público na área da cultura, vive em Porto Alegre.