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Melhores Leituras – 2008

por Amálgama (22/12/2008)

[o Amálgama pediu a alguns escritores, jornalistas e blogueiros – inclusive, alguns de seus colaboradores – que escrevessem um pouco sobre o melhor livro que leram neste 2008 que se encerra. para quem lê muito, escolhas desse tipo nunca são fáceis, mas o esforço para eleger um entre tantos livros faz parte do espírito da brincadeira. […]

[o Amálgama pediu a alguns escritores, jornalistas e blogueiros – inclusive, alguns de seus colaboradores – que escrevessem um pouco sobre o melhor livro que leram neste 2008 que se encerra. para quem lê muito, escolhas desse tipo nunca são fáceis, mas o esforço para eleger um entre tantos livros faz parte do espírito da brincadeira. abaixo, o resultado. e todos os leitores estão convidados a dizer qual a obra que mais curtiram ler no ano. — Daniel Lopes]

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[Jon Lee Anderson, repórter da New Yorker]

Permitam-me recomendar um livro que ainda será lançado, que li em em versão não totalmente revisada. É um livro incomum, extraordinário mesmo, sobre um general iraquiano de idade e sua “jornada moral” pela vida.

É algo diferente de tudo que já vi sobre a guerra do Iraque, e que em várias maneiras a transcende; é mais uma investigação da psique e da consciência humana, e o general em questão (que volta a ter uma vida normal graças aos esforços de amigos e familiares) poderia facilmente ter sido um oficial do Terceiro Reich como o foi no Iraque moderno.

O livro se chama The weight of a mustard seed, de Wendell Steavenson. A autora é uma jovem escritora anglo-americana extremamente talentosa (veja, por exemplo, seu livro sobre a Geórgia publicado anteriormente, Stories I stole), e estou certo de que ainda ouviremos muito sobre ela nos anos que virão.

[Tiago Casagrande, publicitário, co-editor do Verbeat Blogs]

Peguei Identidade, de Zygmunt Bauman, na mão. Folheei, tanta frase linda pra citar. Larguei no chão, procurando um competidor. Puxei A Fila sem Fim dos Demônios Descontentes, da Bruna Beber. Reli um par de poesias. Pensei no quanto os versos dela fazem com que eu me sinta bem – de alguma forma compreendido. E no quanto isso se parece com o efeito da entrevista do velho sociólogo polonês; textos que me colocam no mundo, que preenchem com palavras o que não sei dizer. Aí é que me deu o estalo da melhor leitura de 2008. Um livro que tem vindo comigo pelo que não disse; pelos espaços, pelas lacunas. Estava na mesma pilha da estante, fininho em sobrecapa verde. Incompletos, de Albano Martins Ribeiro, eu nem comprei; ganhei de brinde, num pacote d’Os Vira Lata (editora/distribuidora de Branco Leone, também conhecido como “seu alter ego”). Trata-se de um livro de contos, que parece descompromissado – e não duvido que o autor admita – porém suscita tentativas de compreensão da humanidade enquanto nós mesmos caminhando neste ermo de desesperança a que chamamos “Terra”. É, grandioso assim – e por rarefeito, o título já indica.

Luiz Biajoni disse que os contos são como fatias de pão de sanduíche, que, se unidas, não formam um pão inteiro. Milton Ribeiro lembra de Erico Verissimo para adequar “cristalizações do fugidio amoroso” à obra. Albano/Branco sabe usar o leitor, e o manipula com os espaços abertos de seu texto. Manipula para provocar reflexões, tangenciar a identificação, ao mesmo tempo em que faz de conta que nem. Dissimulado, sim. Talvez seja mesmo o método. Que Incompletos, descrito, chega a dar coceira – livro de contos, fragmentário, sobre relacionamentos, contendo sexo (a sobrecapa verde tapa uma moça nua) e um pouco da urbe? O cheiro de jovem-autor-indie-descolado invade o ambiente. Mas só até o início da leitura. Ou ao primeiro contato com Branco – que deve assinar como Albano pra parecer mais sério -, ele mesmo a antítese de hype. É uma figura que transmite sua autenticidade pelas palavras, e isso é algo tão raro quanto meu exemplar, número 81 da tiragem de 100 exemplares. E raro como as proposições que faz, múltiplas e em diversos níveis, sem deixar transparecer; generoso e torturante ao dar tantos caminhos ao leitor. Incompletos, digo, apesar do óbvio exposto na frase, não me traz nenhum sentido de completude; pelo contrário, esvazia, ao exigir que eu use tanto minhas próprias experiências para assimilar o texto. E engraçado notar que, por um método totalmente avesso aos outros dois grandes livros que li este ano, Incompletos me conquista por, também, me dar lugar aqui no mundo.

[Rafael Rodrigues, estudante de Letras e colunista do Digestivo Cultural]

Na revista Cult de abril de 2006, li um ensaio do escritor Thales Guaracy sobre o livro The breaking point, de Stephen Koch, que tem como personagens centrais os escritores John dos Passos e Ernest Hemingway. Como pano de fundo, o assassinato de José Robles Pazos, amigo de Dos Passos, e a guerra civil espanhola. Desde então esperava, mas não com muita esperança, que o livro fosse editado no Brasil. Eis que, para minha grata surpresa, isso acontece em 2008 e, finalmente, posso ler The breaking point, traduzido corretamente aqui para O ponto de ruptura (Difel). O livro conta como uma amizade antes fraterna, entre Dos Passos e Hemingway, foi colocada de lado por causa de politicagens e vaidades. E de como a carreira de um escritor brilhante (Dos Passos) foi caminhando para o ostracismo, por culpa (?) das escolhas corretas e íntegras que ele fez. Fui convidado a escrever sobre o melhor livro que li em 2008, mas às vezes gosto de fazer firula – no bom sentido, por favor – e, por isso, escolhi falar de O ponto de ruptura, um livro que não li ainda. Mas só a espera de dois anos por sua publicação em português já vale o livro, e, a contar por outro livro de Stephen Koch que estou lendo, promete ser uma obra de qualidade inquestionável. Certamente é o melhor livro que não li em 2008.

[Pedro Jansen, jornalista, editor do Yahoo! Posts]

Depois de muito tempo sem sentir exatamente um enjôo ou um trauma profundo depois da leitura de um livro, mesmo tendo devorado clássicos da cultura loser (como Pergunte ao Pó) e livros que traduzem o mal estar de uma época (como O Grande Gatsby), ler Homem Comum (Cia. das Letras, 2007), em suas poucas e bem efetivas páginas, me provocou uma doença estranha.

Desde que li a última palavra do meu preferido de Roth, penso na morte de uma maneira completamente diferente, apostando no absurdo e ignorando o fato de que sou falho e mortal, tentando ignorar o fato de que o fim tarda mas não falha. Ou seria exatamente o contrário e por isso tatuei um “memento mori” no braço direito.

Mas perceba, é pensar em Homem Comum e meu cérebro passa a trabalhar de uma forma diferente e eu sigo a lembrar da depressão profunda – e, pelos deuses, temporária – que me acometeu nos dois dias que levei para ler o livro. Uma outra depressão, menor e ainda assim incômoda, me acompanha simplesmente por ter terminado o livro e me despedido de seus personagens. Acho que esta nunca vai me deixar…

[Julio Daio Borges, editor do Digestivo Cultural]

O melhor livro de literatura que li em 2008 foi Paris não tem fim (Cosac Naify, 2007), de Enrique Vila-Matas. Antipático na Flip 2005, divertido na sua coletânea sobre os Bartlebys da literatura, Vila-Matas só foi me arrebatar, como escritor, agora. A historia é banal: aquela, velha conhecida, de um jovem escrevinhador que vai do “interior” para uma “capital”; no caso, a história dele próprio, Vila-Matas, que vai da Espanha a Paris e tenta “acontecer” com jovem autor. É como se um desses milhares de blogueiros-metidos-a-escritores de agora, daqui a algumas décadas, escrevesse sobre o ridículo da sua situação e das suas pretensões de se lançar como verdadeiros literatos. E é incrível porque, a partir do seu fracasso, Vila-Matas constrói grande literatura (de verdade). O anti-herói está na moda desde Doistoiévski – desde Dom Quixote? -, mas um autor que se assume como tal é mais corajoso do que o normal. O estilo é impecável. Reli trechos muito, muito engraçados até em voz alta. Um livro para se voltar. O que é raro.

[André Gazola, estudante de Letras]

Orgulho e Preconceito (Civilização Brasileira, 2006). De longe, o melhor livro que li em 2008. Há tempos eu ouvia falar dos clássicos de Jane Austen e nunca dava muita bola. Acabei assistindo o filme e percebi tudo que estava perdendo. Em Orgulho e Preconceito, considerado por muitos a obra-prima da autora inglesa, é exposto um tema bastante comum até o início do século XX: o casamento por interesse. Mas não pensem que falo de um simples romance no qual o herói e a heroína ficam juntos no final; entremeados ao enredo estão diversos conflitos que revelam os podres da corte inglesa do século XIX unidos ao tipo de atitude que deu o primeiro título à obra: Primeiras Impressões. Austen constrói personagens incrivelmente reais, de uma personalidade que extrapola as páginas do livro e que incitam a imaginação do leitor. Não é por nada que não param de sair filmes, séries e documentários sobre a autora e suas obras.

[Daniel Lopes, editor do Amálgama]

Na sexta-feira, 17 de novembro de 1978, os jornalistas Luiz Cláudio Cunha e J. B. Scalco bateram à porta de um apartamento em condomínio da rua Botafogo, bairro Menino Deus, Porto Alegre. Scalco, fotógrafo, e Cunha, então diretor da sucursal da revista Veja na capital gaúcha, foram até lá porque este recebeu um telefonema anônimo que alertava para a ocorrência de um sequestro. Moravam no apartamento, o anônimo dissera a Cunha, um casal de refugiados da ditadura uruguaia, junto com seus dois filhos pequenos, um menino e uma menina. Ao chegarem ao local, perguntando em espanhol pelos moradores, os dois jornalistas se viram diante de uma pistola de grosso calibre e obrigados a entrar no apartamento, onde foram revistados por alguns homens, enquanto outros se escondiam no escuro. Ao revelar ser repórtere de Veja, Cunha notou certo constrangimento entre os seqüestradores, e os dois foram logo liberados.

Eles não sabiam, mas acabavam de frustar um plano que os policiais brasileiros e uruguaios em poder do casal uruguaio tinham traçado: fazer a moça uruguaia de isca para atrair o peixe grande Hugo Cores, um dos mais ativos e procurados esquerdistas uruguaios no exterior – no caso, ele estava exilado em São Paulo, de onde telefonara à sucursal de Veja (sim, fora ele). Como Cunha chegara falando espanhol, os militares pensaram por um momento ser Hugo Cores caindo no anzol.

Os dois adultos uruguaios naquele dia em poder de agentes das ditaduras brasileira e uruguaia eram Lílian Celiberti e Universindo Díaz. As crianças, Camilo e Francesca. Agora, 30 anos após os acontecimentos na rua Botafogo, Luiz Cláudio Cunha conta em O sequestro dos uruguaios – uma reportagem dos tempos da ditadura (L&PM, 2008) como Lílian, Universindo e os filhos acabaram sendo os únicos sobreviventes das guarras da temida Condor, a repressão binacional que seqüestrou, torturou e “desapareceu” centenas de “terroristas” nos anos de chumbo. E não há dúvida: não tivesse Cores feito o telefonema a Veja e não houvesse Cunha ido conferir a pista, hoje nenhum dos quatro uruguaios estaria vivo – ao contrário da ditadura brasileira, crianças filhas de subversivos nunca foram um constrangimento para os militares uruguaios.

Assim, O sequestro dos uruguaios é um clássico do jornalismo. Monumental – são quase 500 páginas –, descreve com detalhes não apenas a atuação de personagens diretamente envolvidos na operação (como o delegado-torturador do DOPS de Porto Alegre, Paulo Seeling, hoje com 76 anos, ainda vivo e impune), mas vai e vem no tempo em relação àquele 78, numa verdadeira anatomia da política e da imprensa brasileiras ante a violência instaurada pelo Golpe. Há espaço, no relato, para magistrados corajosos (como Raymundo Faoro, então presidente da OAB) e coniventes. Para políticos altivos (como Pedro Simon) e políticos sacanas (todos da Arena). Para jornais e jornalistas covardes (como, no geral, o Zero Hora) e seus colegas que honraram o nome da profissão (como Elio Gaspari, no Jornal do Brasil). E há dois substanciosos anexos – sobre a ditadura uruguaia e a operação Condor. Sem esquecer a mais que provada contribuição da CIA para a generalização da tortura no Cone Sul – às vezes diretamente, como no caso do agente Dan Mitrione, que torturava mendigos e prostitutas para mostrar aos esforçados militares uruguaios os pontos fracos do ser humano.

Hoje, Lílian dirige uma revista feminista em Montevideu; Universindo é documentarista e historiador da Biblioteca Nacional, também na capital uruguaia; Camilo, que tinha oito anos na época do sequestro, trabalha como cozinheiro em Barcelona e tem dois filhos; e Francesa, com três anos em 78, agora é desenhista gráfica, mora no Uruguai e tem um filho. Uma história com raro final feliz, apesar das torturas e demais percalços no meio do caminho, que Luiz Cláudio Cunha eternizou. Leitura obrigatória.

[Alessandro Martins, do blog Livros e Afins]

Fiquei entre dois livros e nenhum deles é exatamente um lançamento. Assombro, de Chuck Palahniuk, e Dale Cooper: Minha Vida, Minhas Gravações (Globo, 1991, esgotado). Entre a qualidade literária (divertidíssima, visceral e psicótica) de Palahniuk e a minha empolgação de fã da obra de David Lynch e da série Twin Peaks, fiquei com a segunda. O prazer de ler é um dos meus parâmetros, e talvez alguns me condenem por esse critério. Mas para mim ele é válido. Pois bem.

O livro Dale Cooper, escrito por Scott Frost, surgiu depois da série Twin Peaks, provavelmente motivado pelo sucesso que o programa fez na tevê na época. O agente especial do FBI que investigava a morte de Laura Palmer, criado pelo diretor David Lynch e por Mark Frost, possivelmente foi um dos personagens de ficção mais interessantes e influentes do final do século passado. Uma de suas características era interagir com um gravador, armazenando no aparelho suas impressões e suas observações muito peculiares acerca do mundo e acerca dos cafés e tortas de amora que sorvia às fartas. Certamente, há muito de Lynch nele, pelo menos na série. No livro, no entanto, há o registro da vida de Cooper da adolescência ao dia em que ele é chamado às investigações em Twin Peaks e, assim, joga-se uma luz de possibilidades sobre como ele se tornou o que se tornou: alguém que olha o mundo com uma mistura de simplicidade e estranhamento, usando métodos nada convencionais de investigação. Trata-se de um personagem contraditório, pois ao mesmo tempo em que é um defensor da lei do mundo (é um investigador do FBI), também está fora do mundo e das leis habituais dele, buscando o que há por trás delas. Certamente, o livro em si não é uma obra de arte e talvez não interesse a quem não gosta ou não está familiarizado com David Lynch. Mas estamos em uma época em que a obra artística (no caso de Twin Peaks podemos chamar de grande obra artística os capítulos que vão do 1 ao 16, os dirigidos por Lynch) lança seus tentáculos para todos os lados e para todos os suportes. Portanto, ele faz parte de algo maior e, provavelmente, por estar nesse conjunto, foi um dos livros, ao lado de Assombro, que mais me empolgaram neste ano.

[Guga Schultze, colunista do Digestivo Cultural]

Não me lembro mais se foi no final do ano passado ou no início desse ano que eu li o livro de Hunter Thompson sobre os Hell’s Angels. Era um livro que eu tinha vontade de ler há muitos anos. De qualquer jeito vou computar como lido em 2008 porque tem tudo a ver. No ano da eleição de Barack Obama me bateu a nostalgia de uma América que eu amei, um Estados Unidos particular e único, longe das politicadas dos jornais e sempre ausente do jornalismo interessado nas oscilações da economia, nas fofocas políticas e nas relações internacionais.

Hunter Thompson, que suicidou-se em 2005, lá pelos 68 anos de idade, foi um jornalista escritor, com ênfase na segunda característica, porque a qualidade de seus textos é sempre mais literária que jornalística. Na linha de escritores como Henry Miller (com quem se parecia fisicamente), Kerouak, Celine e outros da mesma laia, Thompson descreveu a América das grandes freeways, dos postos de gasolina semi abandonados margeando os desertos, da Los Angeles mapeada pelo asfalto; milhares de milhas num labirinto mítico que se estende por toda sua superfície mas tem aquela qualidade subterrânea onde só algumas criaturas específicas sobrevivem.

Seguindo com os Angels da Califórnia por um ano, Thompson fez a reportagem definitiva sobre os caras. O livro, Hell’s Angels – Medo e delírio sobre duas rodas, foi editado pela Conrad (2004, esgotado) a partir da edição original americana, de 1967. Logo na primeira página, um mini depoimento de um carcereiro da prisão municipal de San Francisco, California:

“Eles não são caras maus, individualmente. Vou te contar uma coisa: prefiro ter que cuidar de um bando de Hell’s Angels do que desses manifestantes dos direitos civis. (…)”

Bem, é um livro sobre a escória. Mas é o único que não faz parte dessa escória: a maioria dos lançamentos literários desse ano… hua!

[Rodrigo de Souza Leão, escritor]

Um dos melhores livros que li neste ano foi Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares (Cia. Das Letras, 2006). Trata-se de um livro construído de maneira engenhosa. É uma leitura caótica, onde há uma concepção circular de literatura e de desenvolvimento de personagem. O ocorrido com os personagens é narrado no presente, no passado e no futuro. Tudo converge para um possível final, que é justamente o começo do opúsculo. Ou seja, o fim é o início. Também a loucura é apropriada como temática: o que é muito interessante. Há um universo dentro de cada um dos internos do hospício de Gonçalo, apesar de ele dar mais voz a dois em especial, que acabam se enamorando. Mas não se trata de um livro de amor. É mais que isso. É vida pura. Na veia.

[Vanessa Souza, colaboradora do Amálgama]

“Que outras coisas as filhas fazem além de deixar a gente louca?” – pergunta-se uma das protagonistas de Memória inventada – um romance de mães e filhas, da americana-judia Erica Jong (Record, 1999). O livro, um tanto autobiográfico – como toda a obra de Erica –, narra a saga de quatro gerações de mulheres judias, que contam e (re)inventam suas histórias.

A trajetória dessas quatro fortes mulheres começa na Rússia, em 1905, com a pintora Sarah, e acaba em 2005, com a pesquisadora do Museu de História Judaica de Nova York, Sara. Fugindo dos cossacos, Sarah – a com agá no nome – aperta tanto seu bebê contra o peito, que acaba por sufocá-lo. Esse trágico acontecimento jamais é apagado da memória de Sarah, a criança morta assombra, literalmente, as gerações seguintes no trato com os filhos. Como educar sem sufocar?

“Você acha que é a primeira filha na história a sentir-se assim? Toda filha aprende a culpar a mamãe e inocentar o papai! É assim que os papais permanecem no poder. Se as mães e as filhas algum dia formassem um sindicato – isso mudaria tudo! Mas em vez disso lutamos umas contra as outras, e os pais ficam livres como os chefes capitalistas”, escreve Sophia Levitsky – filha de Sarah – para sua filha Salomé, em uma carta jamais enviada.

[Luiz Biajoni, jornalista e escritor, colaborador do Amálgama]

O melhor livro que li em 2008 foi Minúsculos Assassinatos e Alguns Copos de Leite, da Fal Azevedo (Rocco, 2008). Demorei para iniciar a leitura, pois o primeiro e curto capítulo de uma só página, chamado “Hortelã” (os capítulos tem nomes comestíveis), apontava algo poético demais, “O vento aqui invade cada fresta, cada vão, cada canto. […]”. Achei que o romance seguiria nessa linha e nem virava a página. Vencida essa birra, no segundo parágrafo do segundo capítulo, “Maçã”: “Na madrugada em que minha irmã Violeta, então com 17 anos, encheu a cara de pó e estourou o carro na Rodovia dos Imigrantes, eu estava bêbada, deitada no sofá da casa do Pai, tentando decidir se vomitava ali ou no banheiro. Não me lembro dos argumentos pró e contra, mas sei que o lobby do banheiro perdeu, porque eu e o sofá fomos encontrados, ao amanhecer, cobertos de vômito, mas não de vergonha. […]”.

Daí, até a página 200, temos a história de Alma, perdida-e-encontrada num mundo estranhamente real e fantasmagórico; a complicada relação com as pessoas, a busca por uma calma que sempre foge de seus dedos, a autocrítica irônica que não espanta seus demônios. Narrado em dois tempos espaciais pela protagonista, a edição separa esses dois tempos com fontes tipográficas diferentes, solução que eu não usaria: deixaria o leitor perceber o quando das coisas. Mas esse é um detalhe que não atrapalha esse romance denso, que tem um estranho tom de autobiografia confessional. Alma é um grande personagem que só uma grande autora como a Fal poderia delinear.

[Camila Pavanelli, colaboradora do Amálgama]

Narrado em primeira pessoa, El Común Olvido (Norma, 2002), de Sylvia Molloy, conta a história de um homem que, tendo morado a maior parte da vida nos EUA, volta à sua Buenos Aires natal para desfazer-se das cinzas da mãe, morta há dois anos. Mas Daniel não se desfaz apenas dessas cinzas: a viagem lhe permite atribuir palavra e sentido a não-lembranças que pesam em sua subjetividade como blocos de concreto maciços e inúteis. Conversando e convivendo com pessoas que conheceram seus pais, Daniel transforma essas não-lembranças em história – a sua história, que ressignifica sua própria identidade. A fúria factual e detalhista do início do livro dá lugar à aceitação dos vazios, lapsos e esquecimentos que Daniel vai recolhendo do discurso dos amigos, familiares e amantes da mãe, compondo uma teia de significações na qual a sexualidade dos personagens ocupa posição central.

Daniel é um personagem em trânsito, espacial e temporalmente: não pode sentir-se argentino nem estado-unidense; enquanto se acerca de seu passado argentino, arrisca-se a perder seu amor atual nos Estados Unidos. Acompanhar o trabalho de memória – e, por que não dizer, reconstituição subjetiva – desse personagem resultou numa das experiências mais prazerosas que vivi este ano – além de tudo, fez-me recuperar diversas lembranças pré-conscientes de minha própria safra. Com efeito, mesmo sem narrar grandes acontecimentos dramáticos – e sem, por outro lado, cair num vazio intrasubjetivo no qual nada acontece além das elucubrações do narrador -, El Común Olvido aprofunda-se na dimensão emocional de algumas das experiências e lembranças mais significativas da vida de seus personagens, conduzindo o leitor tanto à empatia quanto à auto-reflexão. Recomendo-o a todos que se interessam pelo tema da memória e do esquecimento na literatura.

[Eustáquio Gomes, escritor]

Li talvez uma trintena de livros em 2008, dos quais destaco os que me vêm de pronto à memória: O nariz do morto, de Antônio Carlos Villaça, talvez o mais desamarrado, livre e soberbo livro de memórias já escrito no Brasil; À espera dos bárbaros e Vida e época de Michael K., dois romances de J. M. Coetzee que precedem Desonra, sua obra-prima definitiva; Eu, um outro, um híbrido magnífico de Imre Kertész; o pungente Carta a D., de André Gorz; O livro das emoções, de João Almino, um autor que domina seu ofício; e Vertigem, de W. G. Sebald, esplêndido até mesmo quando se torna um pouquinho tedioso.

Mas, ao longo de 2008, nenhum livro me interessou tanto quando Diário selvagem, obra póstuma de José Carlos Oliveira (org. Jason Tércio, Civilização Brasileira, 2005). Li-o em janeiro e o reli em junho como se fosse um livro novo, tão rico e revelador é da personalidade desse escritor que sonhou ser “maior que Machado de Assis” e terminou como simples cronista da paisagem carioca entre 1960 e 1986, ano de sua morte, aos 51 de idade, de pancreatite crônica. Autor de obra curta e desigual, Carlinhos levou vida intensa, neurótica e etílica, o que não constituiria vantagem alguma não tivesse ele registrado com minúcia o seu drama cotidiano neste diário de altíssima voltagem e franqueza impressionante.

[Alex Castro, escritor]

O livro do ano é The Racial Contract, de Charles W. Mills. Segundo o autor, numa sociedade racialmente estruturada e profundamente desigual, as únicas pessoas que são psicologicamente capazes de negar a centralidade do racismo são justamente aquelas que pertencem à raça privilegiada: a raça, para eles, torna-se invisível porque o mundo é estruturado em função deles; eles são a norma em oposição a qual são medidas as pessoas de outras raças (“esses outros tem raça, não eu!”). Assim como o peixe não vê a água, os membros da raça dominante não vêem o racismo.

Parte fundamental do Contrato Racial é justamente o acordo tácito de não fazer certas perguntas e de aceitar como naturais o status quo, a distribuição desigual de renda e oportunidades, a farsa de que igualdade jurídica é suficiente para solucionar séculos de privilégios raciais e, mais importante no caso do Brasil, concordar que o acordo não é racista, mas questioná-lo sim.

Charles W. Mills nasceu na Jamaica, mulato, filho de professores universitários. Como um bom filho de qualquer elite, teve uma infância privilegiada sem jamais ter que pensar em raça. Foi somente quando chegou nos Estados Unidos que “descobriu ser negro”.

[Sérgio Rodrigues, escritor e crítico]

O estranho Austerlitz (Cia. das Letras, 2008), do não menos estranho W. G. Sebald, foi minha leitura marcante do ano que está terminando. Talvez estivesse destinado a garantir essa primazia em qualquer situação: é absurdamente original seu modo de insinuar uma história dramática por meio – ou mais propriamente por trás – de uma linguagem fria e minuciosa de acadêmico; é de cortar os pulsos a desolação da paisagem interior que o personagem-título, um judeu que teve a família e a própria memória massacradas pela Segunda Guerra, projeta nas fortificações e estações ferroviárias européias que são seus objetos de estudo. Às vezes parece que, mais do que tema, a História sopra cada palavra da narrativa.

Só que, como se tudo isso não bastasse, entrou em cena o acaso, um dos deuses brincalhões da História segundo Sebald: li Austerlitz num momento em que escrevia meu novo livro, também ele um romance histórico, chamado Elza, a garota, a ser lançado em março pela Nova Fronteira. Contra a influência direta acho que me protegi bastante bem (seria preciso ter uma autoconfiança sobrenatural para arriscar um estilo tão monótono e não-romanesco), mas talvez fosse inevitável que ecos de Austerlitz ficassem escondidos aqui e ali, atrás de certas esquinas do texto. Aquele sopro da História não é fácil de esquecer.

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