PESQUISA

Vida e morte de um crápula

por Daniel Lopes (18/12/2012)

Resenha dos livros de Annick Cojean e Andrei Netto sobre a Líbia de Kadafi e a queda do regime

"O harém de Kadafi: A história real de uma das jovens presas do ditador da Líbia", de Annick Cojean

“O harém de Kadafi: A história real de uma das jovens presas do ditador da Líbia”, de Annick Cojean

"O silêncio contra Muamar Kadafi", de Andrei Netto

“O silêncio contra Muamar Kadafi”, de Andrei Netto

1.

Depois da Otan entrar no confronto líbio em 2011, auxiliando na derrubada da ditadura e depois na caçada a Muamar Kadafi, entre diversas bobagens da “militância global” que tivemos que ouvir – a vitória dos rebeldes seria antes de mais nada uma vitória das velhas potências e uma derrota dos “BRICS”; a Otan praticaria ou já estava praticando um “massacre” de líbios; etc. – fomos submetidos à previsão do sétimo dia que informava sobre a iminente entrada da Líbia no caos e na Idade Média, já que os rebeldes seriam essencialmente fundamentalistas religiosos. Exaustivamente, nós ingênuos de todo o mundo fomos alertados do respeito que o “coronel” tinha pelas mulheres, comprovado no papel de destaque que elas tinham na sociedade líbia.

Bem, agora está comprovado além de qualquer dúvida razoável que isso era lorota. Também. A exemplo do Kadafi trabalhador pelo bem-estar de seu povo e defensor dos humilhados e ofendidos africanos, também sua atitude pública perante as mulheres era só fachada. Sempre houve indícios de sua sordidez no trato com o sexo oposto; na Líbia mesmo, nunca foi segredo. Mas a militância global, como de praxe, deu o benefício da dúvida ao homem forte “anti-imperialista”. Após as investigações de Annick Cojean em solo líbio, será impossível falar do respeito que Kadafi tinha pelas mulheres sem parecer um completo idiota.

Cojean é correspondente internacional do Le Monde. Foi cobrindo a queda da ditadura kadafista em outubro de 2011 que ela conheceu Soraya (um pseudônimo), uma jovem que passara vários anos sob o poder do líder da Líbia. Soraya é a principal peça de O harém de Kadafi. Não porque seu sofrimento tenha sido pior que o de outras vítimas conhecidas do ditador, mas porque ela foi a vítima mais acessível e aberta a Cojean. Tinha 15 anos em 2004, quando, em uma visita de Kadafi a sua escola, foi tocada de forma especial pelo homem; era o sinal para que membros de sua equipe de “serviços” sequestrassem a menina nos dias seguintes e a levassem até ele.

O ditador fazia isso com frequência. Tinha uma verdadeira sede por virgens. Crianças virgens. Que não apenas estuprava, como espancava regularmente, por anos, com toques de sadismo. A investigação de Cojean nos leva até os subsolos de Bab al-Azizia, símbolo máximo do poder da ditadura. Nesses subsolos, inúmeras jovens (e eventualmente uns poucos meninos) estavam constantemente à disposição de Kadafi, podendo ser solicitadas por ele a qualquer hora do dia ou da noite, e tendo que se apresentar imediatamente, para serem, se o tirano estivesse de bom humor, apenas violentadas.

Megalomania é algo idiossincrático dos autocráticos, que por definição acham que são magnânimos demais para que seus países consigam dar certo sem eles estarem no comando. Daí a se achar com direitos especiais para dispor como quiser da vida de indivíduos em suas fronteiras é um passo não necessariamente difícil. Até aí, Kadafi não se diferenciava muito de seus congêneres no mundo árabe e em outros quadrantes do planeta. Acontece que ele levava sua “posse” do povo líbio até os limites do literal.

Especialmente das líbias. “Sou o mestre da Líbia”, disse ele a uma de suas presas. “Todos os líbios me pertencem, inclusive você!”. As integrantes do seu harém eram menos do que objetos. Seres animados, podiam ser vítimas de extremas crueldades devido ao simples e instintivo ato de reagir a um puxão ou um tapa. As boçalidades saídas da boca de Kadafi, conforme relatado por Soraya e outras vítimas e íntimos do círculo kadafista, são dignas de um demente chefe de facção criminosa em favela brasileira, não de um chefe de Estado em vida privada. Sua boçalidade inconfundivelmente exalava misoginia (“Todas as mulheres são putas! Aisha [sua falecida mãe] também era uma puta”). A Líbia estava em posse de um homem que consultava feiticeiros de todo o continente, colhia sangue de virgens para usar em rituais de magia negra e consumia haxixe ou cocaína antes de compromissos públicos com autoridades nacionais ou estrangeiras.

No momento, consigo imaginar seu mandonismo, sadismo e ódio implacável encontrando paralelo nos tempos mais recentes apenas, não em Saddam pai, mas em seus filhos Uday e Qusay. As “amazonas”, famosas integrantes de sua guarda feminina e símbolo mundial da suposta dedicação de Kadafi em prol das mulheres, nada mais eram que suas preferidas do harém, as mais comportadas. Entre quatro paredes, o ditador tinha desdém pelos tabus sexuais impostos pelo islã, e se deleitava em cometer estupros durante datas sagradas. Aliás, ele se aproveitava dos tabus religiosos em relação ao sexo para contar com o silêncio das meninas exploradas por ele e pelos integrantes de seu círculo. Elas prefeririam manter silêncio a revelar terem sido violentadas e perder o respeito da família – ou mesmo serem mortas por homens da família, para esta ter a “honra” salva. Quase todas realmente mantiveram o silêncio.

Essa análise do problema mais sistêmico que as mulheres líbias enfrentam é outro ponto forte do livro de Annick Cojean. A culpabilização das vítimas de estupro é uma cultura vergonha, que a nova Líbia terá que enfrentar seriamente. Soraya mesmo, só contou com a solidariedade do pai. De seus dois irmãos ela foge, porque teme que resolvam matá-la para recuperar a honra.

Faisal Krekshi, um médico formado na Itália e na Grã-Bretanha que, com a queda do regime, assumiu a reitoria da Universidade de Trípoli, descobriu nos subterrâneos da instituição recintos e documentos que comprovam a existência de uma rede de exploração sexual de alunas, para proveito do “Líder”. Na universidade, diz ele, “o sexo era moeda de troca, meio de promoção, instrumento de poder. Os costumes do Guia se revelavam contagiosos. Sua máfia operava da mesma maneira. O sistema estava completamente corrompido”. Ocidentais que compraram a propaganda de uma Líbia kadafista como exemplo positivo de trato das mulheres se espantarão com o depoimento que a jurista Hana al-Galal, de Benghazi, deu a Cojean: “Você não imagina o medo que as moças tinham de parecer por demais brilhantes, inteligentes, talentosas ou bonitas. Elas se impediam de falar em público, renunciavam a postos de notoriedade e restringiam suas ambições. Chegaram a renunciar à vaidade, abandonando as saias curtas e as camisas femininas, como as que usavam nos anos 1960, para adotar o véu e as vestes amplas, que cobriam o corpo todo. A atitude low profile passou a ser a regra de ouro, assim como a disposição em parecer invisível. Nas assembleias e reuniões, as mulheres eram como fantasmas”.

Não surpreende que, durante a revolta desencadeada em fevereiro de 2011, Soraya, já livre de Kadafi, tenha se identificado bastante com Iman al-Obeidi, a jovem que irrompeu num hotel de Trípoli levantando a roupa e mostrando marcas do estupro grupal cometido por partidários do regime, pelo “crime” de sua família ser de Benghazi, nascedouro da revolução.

Por falar no desencadeamento da revolta, foi uma felicidade Soraya já não estar mais em Bab al-Azizia na época – ela foi para a Tunísia, voltou para a Líbia e foi novamente para a Tunísia. Segundo fontes, as escravas sexuais que ainda se encontravam lá foram assassinadas, para evitar que, se o regime caísse, elas se transformassem em testemunhas de acusação.

O depoimento de Soraya, uma entre tantas vítimas de Kadafi, também deixa claro por que levar tiranos caídos à Justiça é melhor do que simplesmente eliminá-los. É para proveito das vítimas. Ao saber da morte de Kadafi nas mãos de rebeldes, a reação inicial de Soraya foi de grande felicidade – até pela informação adicional de que o homem mau tivera o ânus violentamente perfurado quando ainda estava em vida. Mas, passados alguns instantes, ela lamentou o ocorrido. Queria tê-lo visto no xilindró. “Eu tinha de contar minha história e fazer uma acusação implacável contra meu carrasco”, conta a Cojean. “Pois eu queria vê-lo bem atrás das grades. Queria ter com ele um último cara a cara, olhá-lo direto nos olhos e lhe perguntar friamente: Por quê? Por que você fez isso comigo? Por que me violentou? Por que me sequestrou, me bateu e me insultou? Por que me obrigou a beber e a fumar? Por que me roubou a vida? Por quê?”.

Em suma, catarse e castigo. Para Kadafi, a morte foi muito pouco.

2.

A queda do regime kadafista, que fez miséria na Líbia por quase meio século, é narrada por Andrei Netto, correspondente do Estadão, em O silencia contra Muamar Kadafi.

Esse livro está entre as melhores coisas que eu já li sobre a Primavera Árabe. Deve ser o melhor material disponível em português. Se você tiver que ler apenas um livro sobre a revolta líbia, leia O silêncio contra Muamar Kadafi. Ele vai desde a eclosão da revolta popular, incialmente pacífica, até a morte do ditador, em outubro. (Na verdade verdadeira, ele vai até os acontecimentos mais recentes na Líbia pós-Kadafi.)

Dizer que Andrei Netto é um repórter internacional com grande conhecimento de história e geopolítica é ainda dizer só parte da razão pela qual você deve ler essa obra. Ele tem um texto estupendo – sua reconstituição das horas finais de Kadafi precisa ir parar nos cursos de jornalismo. Foi um dos primeiros jornalistas a entrarem no oeste líbio, em fevereiro, quando as forças armadas ainda controlavam grande parte da região e a imprensa estrangeira entrava toda pelo leste, mais seguro nas mãos de rebeldes. E ele teve as fontes certas em diversas cidades. Andrei Netto foi, em resumo, o homem certo no lugar certo na hora certa, o que lhe permite contar fatos e fazer certas ligações no esquema maior do levante líbio que ninguém mais conseguiria fazer.

Andrei entrou na Líbia ilegalmente, claro. Um grande risco. O governo líbio dissera claramente que trataria jornalistas estrangeiros fora de seu controle como alvos legítimos de guerra. Andrei e o iraquiano Gaith Abdul-Ahad, correspondente do Guardian, entraram no país em conflito pelo posto de fronteira com a cidade tunisiana de Dehiba, menos policiado que o posto próximo a Ben Gardane, mais ao norte da Tunísia. As principais vantagens de se estar no oeste eram que, ao contrário de Benghazi, dava para topar com forças e manifestantes pró-Kadafi, entrevistar rebeldes e se aproximar de seus objetos e táticas de guerra, sentido assim mais amplamente o pulso do país em guerra; e, ao contrário de Trípoli, dava para trabalhar sem ser ciceroneado e vigiado por assessores e espiões da ditadura.

Em locais como Nalut, Andrei sentiu a onipresença do discurso democrático, mesmo entre religiosos. “Queremos transformar uma ditadura em um país libre”, disse um deles, “com presidente eleito por homens e mulheres e regido por uma Constituição. Não será um regime religioso. Teremos um Estado secular”. É verdade que os rebeldes líbios estavam ansiosos para transmitir à comunidade internacional a mensagem de que não eram militantes islâmicos, e era razoável que muitos jornalistas e analistas vissem falas como a citada acima como possíveis peças de propaganda. Ademais, sempre foi do conhecimento de todo mundo que a Líbia possui muitos fundamentalistas e que esses fundamentalistas odiavam Kadafi. Mas, com as primeiras eleições livres, ficou provado que muitas daquelas falas de tranquilização ouvidas durante a revolta realmente tinham fundo de verdade e eram representativas do espírito de grande parcela do povo líbio. Andrei: “(…) a insurgência na Líbia era um levante complexo, promovido por diferentes setores da sociedade, inclusive das classes médias, e não um movimento de radicais islâmicos e marginais”. Se a queda de Kadafi não garantiria por si um futuro melhor para as mulheres líbias, mas era parte importante para tal, sua queda era simplesmente indispensável para a construção de um sistema político decente e a constituição de um país democrático.

Naquelas semanas iniciais de revolta, Andrei Netto também testemunhou o excessivo otimismo da liderança rebelde, que chegou a acreditar que estava a coisa de dias de tomar Trípoli. Desde logo, no entanto, o jornalista brasileiro ficou sabendo que assaltar a capital com forças estacionadas a seu oeste, mesmo sem ter antes liberado todas as cidades entre Benghazi e Trípoli, era uma tática central dos rebeldes, o que ficaria claro nos momentos finais da ditadura. Toda a lógica por trás desse programa está descrito em O silêncio contra Muamar Kadafi.

Andrei e Gaith foram pegos por milicianos kadafistas em março, na cidade de Sabratha, um centro pró-regime, quando tentavam passar escondidos e chegar até Zawiyah, bem próxima de Trípoli e à época majoritariamente controlada por forças oposicionistas, mas prestes a sofrer um contra-ataque brutal. A cidade de Zawiyah seria um dos principais palcos do teatro de crimes de guerra do governo de Kadafi. Não ter conseguido chegar até lá foi a grande frustração de Andrei Netto. Ele acredita que, se tivesse sido um dos primeiros estrangeiros a reportarem a partir do local, poderia ter chamado a atenção do mundo para a repressão a caminho e ajudar na diminuição da matança. Meses depois – após ter sido passado das milícias para o Exército para funcionários da diplomacia líbia e enfim liberado sob a condição de sair o mais rápido possível do país – Andrei voltaria ao oeste da Líbia e enfim pisaria em Zawiyah, para então nos descrever um cenário desolador.

Os detalhes revelados por Andrei Netto do planejamento e execução da tomada de Trípoli são impagáveis. Ainda em maio, o morador de Trípoli Abdel Majid Mlega, um empresário nascido na cidade de Zintan, no oeste, propôs a Mohammed Othman, chefe militar rebelde, um encontro secreto. Neste, Mlega revelou seu plano para a “Batalha de Trípoli”. O empresário levou um grosso volume com ideias e relatórios, montados a partir de informações de contatos que tinha entre comandantes oposicionistas, com informações sobre as unidades militares da capital, como localização, efetivo, como e para onde estavam se movimentando para reprimir a rebelião.

Othman saiu da reunião com esse volume e concluiu que realmente valia ouro. A tática propugnada por Mlega, que seria adotada pelos rebeldes na investida final, incluía pontos como o fortalecimento da ofensiva rebelde na cidade de Brega, no leste, para desviar a atenção do regime, e um massivo número de ataques de precisão da Otan para destruir as instalações militares de Trípoli, antes dos rebeldes finalmente partirem para tomar as ruas da capital. Dessa forma, finalmente fazemos sentido, nós outsiders, daquelas sucessivas investidas e batidas em retirada dos rebeldes em Brega, aparentemente puros sinais de despreparo e desespero. E a chuva de bombas da Otan em Trípoli nos dias que antecederam a queda de Bab al-Azizia fica completamente explicada dentro da grande estratégia oposicionista de rapidamente anular a pegada militar da ditadura na capital.

Sim, a Otan, a partir de certo momento, passou a atuar em estreito entendimento com a liderança oposicionista. Ninguém pode mais afirmar que a Organização teve papel apenas periférico na queda de Kadafi. Sua atuação foi decisiva para um desfecho ainda em 2011. E isso foi bom. Sem a intervenção, o tirano poderia cair um dia, mas provavelmente ainda estivesse resistindo, e o mundo presenciando duas Sírias em 2012. Quando um relutante Obama finalmente concordou com um envolvimento maior do poder aéreo estadunidense, França e Grã-Bretanha em armar os rebeldes do oeste como Emirados Árabes e Qatar haviam armado os do leste, e os comandos do ocidente e dos rebeldes em unificar a coordenação e lutar uma batalha só, a sorte do regime estava traçada.

Acho que só discordo de Andrei Netto na página 224. Ao saber da iminente intervenção estrangeira em “seu” país, Kadafi alertou que “milhares de líbios morreriam em caso de intervenção dos Estados Unidos ou da Otan” e apelou para o surrado discurso pseudorevolucionário de uma Líbia progressista em resistência contra o imperialismo querendo escravizar o país e roubar seu petróleo. Escreve Andrei que esse blábláblá, “no início nacionalista de sua ditadura, havia servido para reunir a sociedade civil, mas (…) naquele momento não surtia mais efeito, nem em âmbito interno nem externo”.

Qual o quê! Essas linhas kadafistas foram hits no ocidente, quando da intervenção da Otan, e ainda fazem sucesso em alguns influentes guetos de elite. O corpo de Kadafi já estava em exibição na cidade martirizada de Misrata, mas minhas linhas do tempo em redes sociais ainda estavam repletas de militantes por um mundo melhor repassando as mentiras dos milhares de mortos e apontando o dedo marotamente para o petróleo líbio como se fossem as pessoas mais escoladas do bairro.

Mas o livro de Andrei Netto (como o de Annick Cojean) mostra que ainda há gente corajosa e íntegra lutando por boas causas, e essa é mais uma razão para você tê-lo.

::: O harém de Kadafi :::
::: Annick Cojean (trad. Saulo Krieger) ::: Verus Editora, 2012, 253 páginas :::
::: compre na Livraria Cultura :::

::: O silêncio contra Muamar Kadafi :::
::: Andrei Netto ::: Companhia das Letras, 2012, 368 páginas :::
::: compre na Livraria Cultura :::

Daniel Lopes

Editor da Amálgama.