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Três dias que não abalaram coisa nenhuma

por Daniel Lopes (25/01/2018)

Eleição sem Lula é 7 de outubro.

Segunda, 22 de janeiro

Entre a gente que começou a chegar a Porto Alegre ainda no domingo, está a argentina Nadya Loscado, jovem que participa de “vivências” nos acampamentos do MST no RS. Seu discurso é original: “Para nós na Argentina é importante defender a democracia no Brasil para barrar o avanço do neoliberalismo no continente”. Quem ainda não estava convencido da importância de se juntar aos protestos, agora com certeza aderiu.

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Paulo Pimenta, mais conhecido por ter sido um dos primeiros a decretar a morte de Dilma na Câmara durante o processo de impeachment, apela para o bairrismo, até porque vai buscar a reeleição este ano. “Porto Alegre nunca fugiu à luta quando esteve em jogo o destino do Brasil. Porto Alegre dos extremos que se digladiam, mas se respeitam: verão e inverno, chimangos e maragatos, Bonfim e Moinhos, Grêmio e Inter. Mas tamanha diversidade só fecunda onde habita a liberdade. Libertem Porto Alegre e deixem o Brasil retomar o fio da história que o golpe rompeu”. É o tipo de prosa que encanta José Sarney.

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Falando a Lindbergh Farias, João Pedro Stédile cobrou um enfrentamento da Globo, “madrinha daquele juizinho de Curitiba que se acha acima da Constituição”. Durante a manhã, um acampamento que esteticamente lembra a cracolândia se formou em frente à sede da Globo no Rio de Janeiro. Ainda que o acampamento também possa lembrar a cracolândia em outro quesito – saúde mental –, numericamente a diferença é abismal. No levantamento mais recente da prefeitura de São Paulo, havia mais de 1.800 viciados em crack. Em frente à Globo, o número de viciados em Lula girou em torno de 150.

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O dia está sendo péssimo para quem ainda quer fazer acreditar que o petismo é compatível com a democracia liberal. “Só a luta institucional não vai nos levar a lugar nenhum”, disse o eterno estudante Lindbergh Farias em reunião com os estudantes eternos da UNE.

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Gleisi Hoffmann disse que as investigações anticorrupção mataram a ex-primeira dama Marisa Letícia. O inegável é que as investigações decretarão a morte da carreira de senadora de Gleisi, que deve fugir para a Câmara em 2019 para escapar da cadeia.

Aliás, a melhor foto do dia foi esta de Gleisi, Lindbergh e outros atores carregando uma faixa pró-Lula. São dezessete processos atrás dessa faixa. Como dias atrás um ministro do STF falou ao Globo, a guerra dessa gente, de intimidação contra a Justiça, não é apenas pró-Lula, é também em causa própria.

Terça, 23 de janeiro

O vice-presidente do PT gaúcho, Carlos Pestana, disse que os próprios manifestantes trabalharão para não permitir que minorias violentas cometam abusos na quarta-feira. “A orientação é para que toda militância venha de cara limpa”. Isso, pelo menos, eu acho bastante provável.

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O encantado repórter de uma controversa revista humorística de São Paulo chamada Carta Capital encontrou solidariedade e apoio a Lula que “ultrapassam fronteiras”. Mais especificamente, um grupo de doze pessoas que vieram da Argentina. Elas são integrantes do Movimento Popular Pátria Grande, que está no Brasil para defender a democracia e combater a pauperização iniciada no segundo em que Michel Temer assumiu a cadeira de Dilma Rousseff, processo idêntico ao que se iniciou na Argentina no instante em que Maurício Macri assumiu a cadeira de Cristina Kirchner.

O Pátria Grande também participa de eventos na Venezuela – a favor de Nicolás Maduro, que, como sabemos, é um defensor da democracia graças ao qual a pauperização virou página do passado venezuelano.

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Guilherme Boulos, candidato a Lula que, aos 36 anos, já é quase tão grotesco quanto seu modelo aos 72 anos, deixou claro em Porto Alegre que acatar decisões judiciais não é uma das prioridades do movimento social de que é dono. Por exemplo, sobre a ordem judicial proibindo a ocupação da avenida Paulista: “Se eles fecham a porta, a gente vai ter que ter força para arrombar essa mesma porta para garantir a democracia do país”.

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De cima de um trio em frente à Assembleia gaúcha, Dilma Rousseff, talvez em um esforço para ser contratada como analista política da Folha de S. Paulo, declarou que “Lula não é um radical, só não é uma pessoa que negocia suas próprias convicções”. Então é urgente evitar que o ex-presidente continue discursando, de outra forma as pessoas vão ficar com a ideia errada.

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O dia vai chegando ao fim. Em um momento George Constanza, Lula fala de si mesmo em terceira pessoa em um comício em Porto Alegre. “Eu não sei se é medo do Lula voltar em 2018. Se for medo, é bom. O mercado tem medo do Lula, mas eu não preciso do mercado, eu preciso de empreendedores, de empresas produtivas, de agricultores familiares”. Também, para descontrair o público: “A imprensa não tem compromisso com a verdade, é covarde, não respeita as famílias (sic)”.

Luiz Marinho, no mesmo comício: “Se condenarem o Lula vão apagar fogo com gasolina. Depois, arquem com as consequências”. Nós sabemos que Marinho vai deixar a tarefa de arriscar a vida por Lula a pessoas menores, porque no segundo semestre ele pretende disputar o governo de São Paulo.

Quarta, 24 de janeiro

O dia acordou com uma pesquisa da Idea Big Data publicada em O Globo. 56% dos 2.002 entrevistados acreditavam que Lula teria um julgamento justo no TRF-4. 65% tinha uma visão desfavorável do Partido dos Trabalhadores. O povo não é bobo.

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Lula foi absolvido por unanimidade. Pelo “Tribunal Popular” organizado em Salvador pelos Juristas pela Democracia. Todos os sete jurados inocentaram o ex-presidente. O Juiz Pela Democracia Maurício Salles Brasil pontuou que a decisão foi “soberana”. Cumpra-se.

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Um cutista sul-mato-grossense que foi a Porto Alegre com ganas de defender a democracia e também com um mandado de prisão nos calcanhares foi detido pela polícia gaúcha. No que mais perto se viu da “revolta popular” prometida pelos figurões petistas, um punhado de cutistas atirou pedras contra a sede da Justiça Federal na Paraíba.

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Após o relator Gebran Neto abrir o placar contra Lula no TRF-4, Gleisi Hoffmann pediu aos fieis de Porto Alegre: “Vamos radicalizar. Não vamos sair das ruas”. Em seguida, voou para o ato com Lula em São Paulo.

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3 a 0 contra Lula confirmado. Pena aumentada. O PT soltou nota assinada por sua presidente Gleisi, denunciando o “engajamento político-partidário de setores do sistema judicial, orquestrado pela Rede Globo”, os golpistas “entregando nossas riquezas” etc. A nota bateu o bingo de jargões do petismo golpeado pela realidade. É a sibamachadização do partido que os formadorezinhos de opiõezinhas até outro dia juravam ser o Partido Trabalhista ou o Partido Democrata brasileiro.

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A candidatura de Lula se tornou impossível até para os padrões da nossa democracia capiau. Ministros do TSE disseram a Nilson Klava, da Globo News, que a impugnação de uma hipotética candidatura do petista são favas contadas.

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Pela lógica, a prisão de Lula dentro das próximas semanas deveria ser uma certeza. Mas na democracia roceira, nunca se sabe. Marco Aurélio Mello, do STF, opinou que uma prisão do condenado incendiaria o país. Assim como o incêndio ocorrido após o impeachment de Dilma? Assim como o incêndio ocorrido após a condenação de Lula na primeira instância? Assim como o incêndio ocorrido nesta quarta nas ruas de todo o Brasil? Francamente. Já ficou provado que gatos no cio causam mais barulho do que esses furdunços sindicais.

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Em discurso no final do dia em São Paulo, Lula encerrou assim sua fala: “Quero avisar a elite brasileira. Esperem, porque nós vamos voltar”. O atualmente combalido cartel de empreiteiras deve ter se animado.

Daniel Lopes

Editor da Amálgama.