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A discussão – ficção, biografia, autoficção? – é o que menos importa

"Divórcio", de Ricardo Lísias. (Alfaguara, 2013, 240 páginas)

“Divórcio”, de Ricardo Lísias. (Alfaguara, 2013, 240 páginas)

Divórcio é um dos melhores romances brasileiros lançados em 2013. Ricardo Lísias, que ainda colhia o merecido reconhecimento por O céu dos suicidas, lançado um ano antes, retorna com um projeto – para dizer o mínimo – ousado. Narrado em primeira pessoa pelo protagonista Ricardo Lísias, o romance se divide em 15 capítulos, ou melhor, 15 quilômetros. De saída, portanto, dois aspectos já chamam a atenção: 1) a analogia entre a história narrada e um percurso dividido em quilômetros e 2) a coincidência dos nomes de autor e narrador: ambos Ricardo Lísias. Mais à frente retomo esses aspectos.

No início do livro, o narrador percebe-se com o corpo em carne viva, dias depois de encontrar e ler o diário da esposa, com quem estava casado havia apenas 4 meses. A leitura que a mulher fazia dele – e que ele só descobre ao ler o diário –, mais do que resultar no divórcio, tira-lhe a pele. Esse evento traumático, aos poucos revelado, por meio inclusive de trechos do diário, é o ponto de partida do romance, que relata o atravessamento dos 15 quilômetros por parte do narrador, atravessamento este que implica o resgate de memórias (e outros traumas), a repetição, o contato com a loucura, as possibilidades e entraves para escrever e publicar o livro que estamos lendo, a redescoberta de si (“Morro só mais uma vez”) – e tudo isso no plano da linguagem.

A ex-mulher, uma jornalista de cultura, o descrevia no diário de forma pejorativa, mantinha relações extraconjugais em troca de informações privilegiadas e, mais do que se casar com o homem Ricardo, talvez tenha se casado, por status, com o escritor Ricardo Lísias. Na corrida por se recuperar do golpe, o narrador busca compreendê-lo e, vale dizer, o faz implicando-se aos eventos. Então, o leitor pode perguntar: que paixão seria essa que fez o narrador dividir a vida com uma mulher afeita às futilidades e falta de ética, próprias à sociedade do espetáculo e do consumo? Que homem era esse ao lado daquela mulher – e que o próprio descobre ao adentrar o diário (os olhos) dela?

Um homem morto.

Se ao ler o diário Ricardo se descobre morto, o divórcio, isto é, a morte da relação conjugal, é condição para o seu retorno à vida. Mas para isso ele precisa restaurar a pele – membrana de contato com o mundo. É muito interessante, nesse sentido, a inserção da corrida na história – e podemos retomar um dos aspectos que chamam a atenção no início do livro. Ricardo passa a treinar, tendo como finalidade a Corrida Internacional de São Silvestre, cujo trajeto se estende por 15 quilômetros justamente: “O livro e as corridas me trouxeram uma pele nova e agora quero me tornar uma pessoa melhor”.

Mas há outros desafios a enfrentar: as ameaças da ex-mulher caso ele publicasse o livro (trechos passaram a circular na internet, um conto sobre o episódio fora publicado), bem como as retaliações do grupo de jornalistas ligados a ela. E agora podemos retomar o outro aspecto mencionado no início – o fato de narrador e autor terem o mesmo nome.

Aliás, as coincidências entre vida real e ficção não param por aí. Lísias viveu de fato um divórcio, correu a São Silvestre, joga xadrez; o Festival de Cannes, em que a ex-mulher esteve presente a trabalho, premiou o filme A árvore da vida em 2011; Ricardo Lísias escreveu o romance O céu dos suicidas e teve um conto publicado na revista Granta. Esses elementos, mencionados no livro, fazem com que a crítica classifique Divórcio com um romance de autoficção, isto é, um misto de ficção e autobiografia.

Curiosamente, o narrador conta que, no período de crise, sentiu-se dentro de um de seus contos, quer dizer, da vida real, transportou-se à ficção. Analogamente – e às avessas –, em Divórcio é o livro de ficção que se refere a fatos da vida real. A discussão – ficção, biografia, autoficção? – é o que menos importa, porque, com a habilidade do autor, ela é trabalhada dentro da própria trama. Às ameaças da ex-mulher, ele responde: ninguém pode me processar por criar um personagem de ficção. Para alimentar a ambiguidade, as personagens não são nomeadas, à exceção de um psicanalista, um professor de xadrez e uma advogada, pessoas que ajudaram Ricardo, mas que não aparecem na trama.

Escreve o narrador: “Divórcio pode ser visto como uma manifestação de ressentimento. O cara ficou um ano remoendo um casamento que em quatro meses não deu certo. É o raciocínio típico de quem não conhece os mecanismos da literatura. Estou esse tempo todo achando termos que me pareçam adequados para construir uma determinada narrativa. Escolhi essa porque não tinha possibilidade, doze meses atrás, de pensar em outra”. E mais à frente: “há um narrador visivelmente criado e diferente do autor. O livro foi escrito, Excelência, para justamente causar uma separação”.

Dessa perspectiva, emblema da abertura à alteridade, o divórcio é também entre autor e narrador – não havendo uma confluência plena entre eles, como se poderia presumir. Portanto, não se trata apenas de ficcionalizar aspectos da vida real ou se basear neles para criar o romance. No extremo oposto ao dos furos jornalísticos, sustentados por “fontes anônimas” e fechados em si mesmos, a potência da ficção de Ricardo Lísias não consiste somente na invenção, mas na possibilidade ilimitada e verdadeiramente livre de se inventar que inventou. Ainda a maior das verdades.

Renato Tardivo

Psicanalista e escritor. Publicou os livros de contos Do avesso (2010) e Silente (2012), além de Porvir que vem antes de tudo: Literatura e cinema em Lavoura Arcaica (2012).

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