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O começo da sabedoria será tratar seu cargo com respeito, mas tratar a ele próprio sem respeito - porque isso não renderá nada e porque, como um ser humano, ele não merece nenhum.

Eliot A. Cohen, The American Interest
trad. Daniel Lopes e Pedro Novaes

Confesso que saí de Washington para fugir da posse.

Para além das dores de cabeça com segurança, fechamento de ruas e a considerável perspectiva de protestos violentos no dia do evento, ou nos dias seguintes, a própria perspectiva do evento me encheu de nojo. Eu quis estar bem longe da agradável cidade que é nossa capital nacional. Donald J. Trump repetidamente tem se revelado um ignorante mentiroso, desonesto e narcisista, incapaz de pensamentos ou atos generosos; de fato, incapaz de ver qualquer coisa além de si mesmo. A ideia desse homem vivendo na casa de Lincoln é repugnante.

Mas ele é o presidente, então o que se pode fazer? Particularmente, o que intelectuais conservadores podem fazer?

A coisa mais importante é falar a verdade; de fato, tornar-se uma espécie de fanático nesse tema. Isso significa, claro, reconhecer bens que ele ou seu governo possam fazer – aumentar o gasto com defesa, um ataque a regulações excessivas e parar a perseguição às católicas Irmãzinhas dos Pobres ou às escolas autônomas. Mais importante será acusá-lo toda vez que ele ou seus inferiores mentirem: toda vez que ele disser ter um plano, quando não tem; toda vez que zombar de um herói e negar ter dito o que disse; toda vez que alegar ter criado empregos que foram fruto dos esforços de outros; toda vez que negar ter feito um discurso inflamatório que fez. E significa bater de frente com os Reince Priebus e Kellyanne Conway quando eles mentirem às 11 da manhã para acobertar ultrajantes mentiras que seu chefe tuitou seis horas antes.

Trump mente porque mentir faz parte de sua natureza. É de se suspeitar que não exista nada no interior desse homem que estremeça, ainda que ligeiramente, diante de uma inverdade. Não é incomum que políticos, num grau muito maior que outras pessoas, acreditem no que querem acreditar, ou mudem sua interpretação da realidade de acordo com o que lhes pareça conveniente. Com Trump, no entanto, esse desejo de acreditar é patológico: sua psique está tão completamente apaixonada por Trump que não existe espaço para nada mais, nem para ninguém mais.

Não mudaremos sua pessoa – ninguém pode mudá-la. Seus filhos podem ser capazes de aparar algumas extremidades, e seus conselheiros mais próximos podem desviá-lo dos caminhos mais erráticos, mas nada o ensinará gravitas, magnanimidade ou sabedoria. Até que ele seja impedido, descartado em quatro anos, sucumba à doença ou dure por oito anos, ele será quem aprendemos que ele é, e assim permanecerá. O começo da sabedoria será tratar seu cargo com respeito, mas tratar a ele próprio sem respeito – porque isso não renderá nada e porque, como um ser humano, ele não merece nenhum. Ele permanecerá errático, temperamental, vingativo e, talvez acima de tudo, profundamente inseguro. Um homem que debocha de John McCain, denuncia pais Gold Star, rosna para um ator que o parodia e se diverte com a deficiência de um repórter é alguém cujo centro é vazio, e cuja necessidade por aprovação é ilimitada exatamente por seu vazio ser tão completo.

Esse é Trump. E seus inferiores? Seus ministros são, afinal de contas, em grande medida republicanos normais – alguns muito bons, alguns medíocres, alguns simplesmente tolos. Todos os seus subordinados políticos já sabem, ou descobrirão, que a corrupção do poder funciona (inicialmente) não ao forçá-lo a fazer ou dizer coisas ultrajantes, mas ao induzi-lo a persistentemente esconder a verdade. Eles, por exemplo, se verão fingindo que nós temos uma política coerente para a Europa, quando na verdade não temos. Eles desculparão um relacionamento insalubre e possivelmente sinistro com Vladimir Putin como se fosse um exercício de realpolitik.

Eles dirão a si mesmos que foram trabalhar para o homem porque acham que podem influenciá-lo; descobrirão – ou, mais provavelmente, seus amigos e parceiros de fora observarão – que na verdade é ele quem os está influenciando. Muitos poucos se indignarão e pedirão demissão, porque dano à integridade não se cura fácil. Como Sir Thomas More coloca em A man for all seasons, de Robert Bolt, eles serão como o sujeito que, ao prestar juramento, “segura o próprio ser nas mãos, como água”, e quando as abrem, “não tem esperança de reencontrá-lo”. Eles tentarão abrir os dedos apenas um pouco, mas não funcionará: a água sairá rapidamente. Muitos deles jamais se reencontrarão, e passarão o resto de suas carreiras inventando desculpas para coisas que, em certo ponto do passado, eles próprios já sabiam ser indesculpáveis.

Haverá exceções – militares principalmente, eu suspeito. Jim Mattis e John Kelly já testemunharam o melhor e o pior da natureza humana. O contato com gente como Trump não os corromperá. De outro lado, há o General Flynn, o grande oficial da inteligência cuja vida política o levou a puxar o histérico coro de “cadeia nela!”. Pode haver alguns jovens que sairão limpos, sobretudo em cantos do governo onde possam se esquivar do lodo que cobrirá aqueles mais acima na pirâmide. E haverá, sem dúvida, patriotas abnegados que taparão o nariz por um tempo e simplesmente entrarão em campo, sentindo o gosto amargo e impedindo que ele se dissipe.

Todos eles, mais cedo ou mais tarde, se verão em jantares onde alguém dirá: “Donald Trump é um rato. Ele é um trapaceiro, um valentão que não sabe de nada, não se importa com nossas leis e nossa história e que está arruinando a presidência e nosso país. E isso não é uma opinião, mas fatos demonstráveis”. O silêncio cairá sobre a mesa, enquanto os olhares se voltarão para o ocupante de cargo político, que terá que dizer algo. Deitado na cama, na manhã seguinte, ele se verá obrigado a refletir sobre o que terá dito na noite anterior, e encontrará dificuldade para explicar tudo a seus netos daqui a 20 anos.

Seria injusto e despropositado bombardear indicados políticos desta administração ao assumirem cargos, como também persegui-los quando deixarem o governo. O risco que sua reputação correrá, entretanto, é bem real, e alguns deles, em determinado momento, se arrependerão por terem sucumbido àquilo que os levou a entrar: a sedução da ambição ou à certeza de seu próprio valor. De um modo ou outro, nossa esperança ou o desejo de dar força aos melhores entre eles não deve ser motivo para pegar leve. Ninguém que apoie Trump pode se dizer surpreso por suas ações. Ninguém que se junte a seu governo tem permissão para alegar ignorância. Todos sabemos quem e o que ele é.

E o resto de nós? “A vigilância eterna é o preço da liberdade”, diz o velho ditado, que nunca soou mais verdadeiro. Churchill, como sempre, oferece o estado de espírito adequado: “Nunca ceder. Nunca, nunca, nunca. Nunca fazer concessões de nenhum tipo, grandes ou pequenas, amplas ou triviais, exceto com base em convicções calcadas na honra ou no bom senso”.

O tempo de Trump passará. As instituições o conterão e as leis o cercarão se ainda houver gente suficiente que se importe com ambas e não faça concessões por medo ou em função da pressão que ele possa exercer a partir de seu poderoso cargo. Ele pode convocar arruaceiros ou trolls na internet, tentar lançar a Receita ou o FBI sobre seus oponentes ou simplesmente atacar as pessoas a partir do Salão Oval. A história, todavia, nos ensina que pretensos tiranos geralmente encontram fins pouco agradáveis. Seu tempo passa e as turbas que os aplaudiam os denunciam com a mesma veemência.

Ao alienar grupo após grupo de forma reiterada e gratuita, Trump iniciou o processo de autodestruição de sua administração – a comunidade de inteligência, os jornalistas e afro-americanos, apenas para começar, e isso somente nas poucas semanas que antecederam sua posse. Ele prosseguirá por caminhos que sequer podemos imaginar.

Será uma partida dura até o fim, entretanto. Por isso, enquanto as autoridades recolhem o lixo, desmontam as arquibancadas e processam aqueles presos por violação da ordem, eu voltarei para Washington. Lá, como muitos outros, pretendo fincar pé, pronto a oferecer elogios sempre que merecidos, mas sobretudo para me opor e expor, para contradizer e enfrentar, sem desculpas, sem concessões e sem hesitação. Quaisquer aliados que eu encontre nessa empreitada, não tenho dúvida, serão infinitamente superiores àqueles na bagunça da Casa Branca.

* Eliot A. Cohen é historiador militar e professor da Johns Hopkins University. Serviu no governo de George W. Bush de 2007 a 2009. Seu novo livro é The big stick: The limits of soft power and the necessity of military force.

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