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O genocídio stalinista na Ucrânia

por Marcel Novaes (17/01/2018)

O ponto mais forte do livro de Anne Applebaum são os depoimentos.

“Red famine: Stalin’s war on Ukraine”, de Anne Applebaum (Doubleday, 2017, 496 páginas)

Applebaum também é autora de Gulag: A history, vencedor do prêmio Pulitzer com edição brasileira esgotada, e do excelente Cortina de Ferro: O esfacelamento do leste europeu, publicado aqui pela Três Estrelas.

Segundo a autora, seu trabalho na elaboração de Red Famine se beneficiou do fato de arquivos oficiais em Kiev, capital da Ucrânia, terem sido abertos ao público depois do fim da União Soviética. Além do material de arquivo, o livro se baseia na coleta de relatos orais realizada por pesquisadores ucranianos. Em lugar de revelações inéditas, o que Applebaum oferece nesta obra é uma perspectiva ampla e atualizada do tema. Em particular, estabelece o número de mortos em torno de 4,5 milhões de pessoas.

Os primeiros capítulos examinam a luta por independência da Ucrânia e o tratamento dispensado ao país pela Rússia durante os primeiros anos do governo bolchevique. Somos lembrados de que os bolcheviques inicialmente organizaram a economia de acordo com o que ficou conhecido como Comunismo de Guerra, que incluía controle total pelo estado da produção agrícola. Camponeses eram proibidos de vender sua colheitas no mercado, sendo obrigados a fornecer tudo ao governo a um preço fixo.

Com os preços sendo artificialmente diminuídos e congelados pelo governo, os camponeses perderam o incentivo para participar da negociação. Era preferível estocar os grãos ou tentar trocá-los por produtos industrializados no mercado negro. Ambas as práticas foram severamente reprimidas. Quem incorresse nelas era considerado inimigo da revolução. Forças militares eram usadas para garantir o sucesso da coleta de grãos. Applebaum reproduz o depoimento de um camponês a esse respeito: “se eles querem, pegam os grãos; se querem, nos prendem; o que quiserem fazer, eles fazem”.

Como resultado, a produção agrícola diminuiu sistematicamente. De acordo com o livro, a Rússia produzia 20 milhões de toneladas de grãos antes da revolução, enquanto a produção foi de 8,5 milhões de toneladas em 1920 e de apenas 2,9 milhões em 1921. Nesse ano, a fome atingiu o país, afetando dezenas de milhões de pessoas. A partir de 1922, Lênin deu início à Nova Política Econômica, conhecida como NEP, um proto-capitalismo no qual o controle do estado foi relaxado e mecanismos de compra e venda voltaram a funcionar, de modo incipiente. Mais importante, o confisco de grãos foi abolido e a produção agrícola cresceu ano a ano.

Parte da culpa era colocada sobre os kulaks, um dos inimigos favoritos do comunismo soviético. Esses eram fazendeiros bem sucedidos que, por seu próprio sucesso, acabavam acusados de traidores e sabotadores da revolução. Os camponeses russos viviam um dilema impossível: se produzissem pouco, passariam fome; se tivessem uma grande produção e melhorassem muito sua condição de vida, automaticamente se tornavam kulaks e inimigos públicos.

O ponto mais forte do livro são os depoimentos. Por exemplo, um deles trata do grau de arbitrariedade envolvido no combate aos kulaks:

Qualquer um que expressasse descontentamento era kulak. Famílias camponesas que nunca tinham usado trabalho assalariado eram considerados kulaks. Um casa com duas vacas, uma vaca e uma cabra ou dois cavalos era kulak (…) Os camponeses faziam reuniões para decidir quem seriam os kulaks. Eu ficava chocada com tudo isso, mas eles explicaram: “Recebemos ordens para denunciar kulaks, o que podemos fazer?” A fim de poupar as crianças, eles normalmente escolhiam homens solteiros.

Em 1928, a quantidade de grãos disponíveis para serem comprados pelo governo foi muito menor que o esperado. Camponeses foram acusados de estar escondendo seus grãos, o que muitas vezes era mesmo verdade (escondiam para ter o que comer ou uma renda mínima para sobrevivência). Sob o comando de Stálin, a Nova Política Econômica terminou e voltou a ser obrigatória a entrega de toda a produção de grãos ao governo.

Stálin ofereceu à questão agrícola a única solução possível dentro de sua forma comunista de ver o mundo: já que fazendas pequenas familiares sem tecnologia nunca alimentariam o país, e fazendas grandes, produtivas e prósperas acabariam produzindo kulaks, a saída era combinar fazendas grandes com um modelo de propriedade coletiva. O fim da propriedade privada no campo era o caminho.

A coletivização agrária, juntamente com a industrialização acelerada no contexto dos planos quinquenais, seria a marca da nova política econômica stalinista. Os camponeses teriam confiscadas suas terras, seus animais, suas máquinas e até suas casas. Tudo pertenceria ao estado e todos seriam funcionários públicos com salário fixo, muitas vezes recebendo seu pagamento na forma de comida.

Naturalmente, houve resistência à coletivização. Camponeses sacrificavam seus próprios animais para não entregá-los. Milhares de pequenas revoltas aconteceram por todo o país. Poucos meses depois do anúncio oficial do processo, a polícia soviética já havia prendido mais de 15 mil pessoas acusadas de “sabotagem”.

A mudança radical que foi a criação das fazendas coletivas encontrou grandes dificuldades. Havia problemas com a quantidade e a qualidade dos tratores, dos silos e outras máquinas; os gerentes enviados de Moscou eram incompetentes; os camponeses trabalhavam com relutância e má vontade. As colheitas foram muito menores do que o esperado. Percebendo que haveria falta de grãos, o governo intensificou o confisco. Nas palavras de um camponês,

As autoridades fazem assim: mandam as chamadas brigadas que vão (…) e conduzem uma busca tão completa que até revolvem o chão (…) buscam através das paredes (…) no jardim, no telhado de palha, e se acharem alguns quilos [de comida] levam embora (…) a vida é assim aqui.

Em muitos lugares, camponeses tinham de escolher entre comer seus grãos ou plantá-los; ao escolherem comer, condenavam a colheita seguinte. Em 1932, apenas dois terços dos campos férteis da Ucrânia foram semeados.

O partido comunista da Ucrânia avisou Moscou que o confisco precisava parar e que não seria possível transferir grãos Ucrânia para a Rússia. Ao contrário, a Rússia precisava enviar ajuda. Até mesmo dirigentes importantes como Kaganovich e Molotov insistiram com Stálin nesse sentido. Ele respondeu que “Na minha opinião, a Ucrânia já recebeu mais do que o suficiente”. Em uma carta a Kaganovich, Stálin escreveu: “A coisa principal agora é a Ucrânia. A situação na Ucrânia está terrível (…) Dizem que (…) 50 comitês de distritos se pronunciaram contra o plano de requisição de grãos, que o consideraram irrealista (…) O que é isso?”

Conforme a situação piorava, membros locais do partido comunista se recusavam a obedecer ordens. “Não vamos aceitar o plano de requisição de grãos”, escreveu um deles, “pois ele não pode ser cumprido. Forçar as pessoas a passar fome é criminoso. Para mim é melhor entregar minha carteirinha do partido do que condenar os fazendeiros à fome”.

Applebaum reproduz vários relatos de cortar o coração, como estes: “Quando algo era encontrado, eles espalhavam pelo chão e se divertiam com a visão de crianças chorando enquanto recolhiam grãos de lentilha ou feijão com terra”; “jogaram toda nossa sopa no chão e exigiram saber como era possível que tivéssemos algo para fazer sopa”; “perguntaram por que ainda não havia morrido ninguém da nossa família”. O livro tem também vários relatos da agonia da fome, bastante dramáticos.

A colheita de 1933 foi 60% menor na Ucrânia do que diziam as delirantes previsões oficiais (foram 40% menores na União Soviética como um todo). A reação do governo foi a seguinte: já que produziram menos, terão de entregar tudo. Não era permitido guardar grãos para semear no futuro, nem sequer para alimentação. Com o tempo, as brigadas de busca de grãos ficaram mais audaciosas e começaram a levar tudo que fosse comestível, até frutas, até os cachorros.

Outras providências legais foram tomadas. Primeiro, distritos que não cumprissem suas quotas de grãos foram proibidos de obter querosene, óleo, sal e fósforos (para impedi-los de cozinhar). Depois, foram proibidos de realizar qualquer comércio envolvendo grãos (para impedi-los de comprar comida). Fazendas que entravam na “lista negra” ficavam proibidas de usar tratores. Em janeiro de 1933, o governo soviético mandou fechar as fronteiras da Ucrânia para evitar a fuga em massa da população. Camponeses encontrados em cidades eram devolvidos ao campo.

Como era simplesmente inconcebível que o sistema fosse falho, a culpa pela calamidade só poderia estar na implementação. A Ucrânia só podia estar infestada de traidores e sabotadores; 27 mil ucranianos foram presos em 1932 sob essas acusações. Ao mesmo tempo, silêncio total era mantido na imprensa e nos discursos oficiais a respeito do tema. No papel, as mortes eram todas causadas por “doenças infecciosas” ou “parada cardíaca”. Em muitas vilas, os registros de óbitos foram destruídos. Nenhum jornalista estrangeiro obtinha autorização para visitar a Ucrânia.

A tese de Applebaum – como indica o subtítulo do livro – é de que Stálin produziu a fome na Ucrânia de forma intencional, a fim de matar o máximo possível de ucranianos. É uma tese controversa. Que as políticas stalinistas foram responsáveis pela magnitude da calamidade está fora de dúvida. Porém, o que outros estudiosos argumentam é que o objetivo era tirar o máximo possível dos grãos do país sem que ninguém soubesse quanto era isso. No ambiente ultra-neurótico do stalinismo, todos os relatos de falta de grãos eram considerados fake news produzidas por espiões ou contra-revolucionários.

A autora enfatiza que Stálin pretendia dizimar a intelligentsia ucraniana, cujo nacionalismo era visto como fonte de problemas. O livro conta um pouco da perseguição que existiu aos artistas, escritores e intelectuais ucranianos, porém a relação entre essa perseguição e os problemas no campo, que afinal é o aspecto do livro que se pretende original, me parece um pouco forçada.

Marcel Novaes

Professor, autor de Do czarismo ao comunismo (Três Estrelas, 2017) e O grande experimento (Record, 2016), sobre a revolução americana.