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Quando a esquerda compra os argumentos "anti-imperialistas" de tiranos

ditadores

A esquerda está defendendo o “legado” de Chávez e Maduro na Venezuela. Jura que o fato de cubano ter de usar o jornal do partido pra limpar a bunda é culpa do “embargo americano”, e não de Fidel Castro (o fato de venezuelanos fazerem o mesmo agora é insuficiente para que eles notem uma conexão óbvia entre eventos idênticos).

Partidos que tomaram as ruas no Brasil em 2013 diziam em 2003 que precisavam dar armas para Saddam Hussein enfrentar o “imperialismo”.

Prometiam o mesmo para o líder do Partido Socialista tanto da Sérvia quanto da Iugoslávia Slobodan Milošević, o cara que fez a maior limpeza étnica na Europa desde Adolf Hitler, e defendido por um Nobel como Harold Pinter.

O PCdoB, abertamente stalinista e principal aliado claro do PT (o PMDB é apenas fisiológico), declarou apoio ao ditador mais esquisito do mundo, Kim Jong-un, lamentando pela morte de seu pai, Kim Jong-Il, usando o nome do PT na carta (depois o PT negou, mas o nome ficou lá).

O homofóbico que assassina mulheres que “traem” maridos mortos Mahmoud Ahmadinejad é recebido com afagos por Lula – e, segundo Idelber “não sou comunista, mas” Avelar, quem o critica é a “elite Leblon-Morumbi”. Enquanto a iraniana Sakineh corria o risco de ser apedrejada, nem um pio do movimento feminista ou de Dilma Rousseff, então no auge da campanha eleitoral.

Muammar Kadafi foi chamado de “meu amigo, irmão e líder” pelo mesmíssimo Lula.

Robert Mugabe, o socialista que fez o Zimbábue inteiro ter um PIB de pouco mais de 50 dólares, era amigo de Chávez, que copiou seus métodos – que são a base da Escola de Frankfurt, do Direito Penal coitadista de Eugenio Zaffaroni e, claro, da economia distributivista dos nossos “mundo-melhoristas”.

Bashar al-Assad é outro socialista “baath”, como Saddam Hussein – apelando ao multiculturalismo e à concentração de poder do socialismo para favorecer “o social”. Depois que a coisa fede, acham lindo que ele caia.

Anwar Al Sadat ganhou o Nobel da Paz por favorecer a ascensão de Hosni Mubarak ao Egito, vencendo Israel e mantendo uma espécie de “trégua” em troca do poder brutal egípcio. Quando Mubarak foi derrubado pela Primavera Árabe, quem entrou foi a Irmandade Muçulmana, a organização mais anti-Ocidente que existe. Foi saudada por gente como Manuel Castells, o “maior sociólogo do mundo”.

O historiador marxista Eric Hobsbawm, perguntado pela BBC se valeria a pena Stalin ter matado 30 milhões de pessoas em troca da consecução do socialismo, respondeu apenas “Yes”. Apesar de judeu, recusou-se até a fazer escala em Tel Aviv, preferindo os genocidas hoje derrubados pela Primavera Árabe.

Slavoj Žižek, além de defender Mao (70 milhões de mortos na conta), Fidel, Che e a caterva toda, é um dos poucos socialistas a admitir o óbvio: que o nacional-socialismo é uma forma de, ehrr, socialismo, e que portanto o problema de Hitler foi não ter sido “suficientemente violento”: foi só contra os judeus, quando deveria ter mirado em todo o sistema capitalista. Também garante que o pior dos stalinismos é melhor do que a melhor democracia capitalista.

Mao Tsé-tung também é o ídolo de gente como Luiz Gushiken, que estava em altíssimo posto do governo Lula.

Sempre que o próprio povo tentou tirar o poder de genocidas do porte de Nicolae Ceauşescu, capaz de financiar experimentos com eletrochoque em bebês para que odiassem o capitalismo, ou Enver Hoxha, que proibiu até a comunistíssima barba, se diz que estão sofrendo golpes de “fascistas”, quase sempre “financiados pelos Estados Unidos”. Depois essa mesma galera fala em “criminalização dos movimentos sociais” (pergunte sobre isso para Lech Wałęsa, que, com o sindicato ilegal Solidariedade, conseguiu expulsar o comunismo da Polônia, sob o ditador Wojciech Jaruzelski).

Sob esse mesmo “argumento”, construíram uma das maiores bizarrices do mundo (até para padrões do mundo antigo): o Muro de Berlim, “barreira de proteção anti-fascista”, segundo Walter Ulbricht (nome completamente desconhecido da nossa esquerda).

Até quando Pol-Pot matou mais de 1/4 da população do Camboja de fome e no morticínio mais brutal da humanidade em menos de 8 anos, Noam Chomsky disse nas páginas do New York Times que ele apenas havia matado cerca de mil “traidores”.

Mas nós, direitistas, é que somos viúvos da ditadura.

Entendeu?

Flavio Morgenstern

Analista político, palestrante e tradutor. Escreve para o jornal Gazeta do Povo e o site do Instituto Millenium, entre outros. Seu primeiro livro é Por trás da máscara, sobre os protestos de 2013.