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Nada funciona no Estado onicompetente

por Amálgama Traduções (18/02/2016)

Nada faz mais sucesso que o fracasso, porque o fracasso provê trabalho para ainda mais burocratas.

Theodore Dalrymple, City Journal (inverno de 2007)
tradução: Thiago da Silva Paz

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Semana passada, o governo britânico anunciou – porque a oposição no Parlamento o forçou – que 70 prisioneiros, incluindo três homicidas e um número não específico de assaltantes, traficantes e titulares de passaportes falsos, haviam escapado de uma única prisão de segurança mínima apenas neste ano. Vinte e oito deles ainda estavam à solta.

Que tantos deles tenham fugido sugere que não eram as pessoas de caráter reformado que justificassem baixos níveis de segurança em primeiro lugar: mas, como de costume na Grã-Bretanha, constrangimento temporário logo se afunda em profunda amnésia. O fato é que o episódio inteiro foi precisamente o que esperamos de nossa administração pública e não algo fora do comum.

Na mesma semana, meus antigos colegas de trabalho, médicos seniores no hospital em que trabalhei até minha recente aposentadoria, receberam uma brochura com seus contracheques mensais. Ela os oferecia, e também a todos os outros empregados, treinamento em alfabetização: um pouco tarde em suas carreiras como médicos, alguém poderia pensar.

Os médicos seniores poderiam ter até 30 horas de cursos livres para melhorarem sua literacia e habilidades numéricas, tudo durante o expediente, claro. Nesses cursos, eles poderiam aprender a soletrar ao menos algumas palavras, pontuar, somar e resolver frações, e como ler gráficos.

“Você tem um perfil SPIKEY [sic]?”, perguntava o panfleto, que prosseguia a explicar: “Um perfil spikey é um em que a pessoa é bem alfabetizada, mas não é boa em matemática, ou visse-versa [sic]”. O leitor poderia se dirigir a um dos não menos que quatro membros do pessoal de apoio do hospital que eram “contatos” para os cursos, dentre eles o Coordenador de Treinamento Vocacional e o Coordenador de Treinamento Não-Vocacional. Caso nenhum estivesse disponível para atender ao telefone ou responder aos e-mails, o leitor poderia contatar uma das três agências governamentais centrais que lidam com o problema dos empregados iletrados ou que tem dificuldades com números.

Eis um verdadeiro caso em que os lunáticos tomaram o controle do manicômio; mas há mais da ignorância e incompetência que perpassa o panfleto do que pode ser visto. Tais ignorância e incompetência são tão sistemáticas e difundidas no serviço público britânico que, se não forem o resultado de uma política deliberada, poderiam bem ser. Na verdade, há um relacionamento profundamente catalítico entre a corrupção intelectual, moral e econômica do serviço público britânico e a degeneração do caráter nacional. O que, dentre todos os vários fatores, surgiu primeiro e é, portanto, a causa definitiva, não é fácil de dizer; como de costume, suspeito que erros intelectuais estão na raiz de muitos males. Mas por que tais erros encontraram tão pronta aceitação levanta o espectro de um regresso infinito de explicação, que talvez possamos evitar apenas invocando uma abordagem dialética.

Três novos livros nos dão uma ideia da natureza da corrupção que surgiu a partir da extensão cada vez maior de responsabilidade governamental auto-atribuída na Grã-Bretanha. Quando os tiver terminado, você terá dúvidas sobre se Gogol, Kafka ou Orwell oferecem melhores ideias sobre a realidade britânica contemporânea. Gogol captura a absurdidade muito bem, e Kafka, a ansiedade causada pela consciência de forças sinistras mas não identificáveis por trás do que está acontecendo; mas você também precisa de Orwell para apreciar, e às vezes mesmo admirar, a cara-de-pau com que entidades oficiais torcem a linguagem para dizer o oposto do que comumente se queria dizer.

Dois dos livros são escritos por homens que trabalham na linha de frente do serviço público, um nas forças policiais, e o outro na educação. Como eu, escrevem de maneira pseudônima. Ao descrever sua rotina diária, o agente de polícia David Copperfield e o professor Frank Chalk mostram como o estado britânico funciona, ou melhor, opera, com devastador efeito no caráter britânico.

Copperfield, cujo site é tão irritante para políticos no poder que se sentem obrigados a denegri-lo no Parlamento, e cujo livro é intitulado Wasting Police Time (“Desperdiçando o Tempo da Polícia”, em tradução livre), é um policial comum em uma cidade britânica comum. Como ele deixa claro no livro, muito pouco do seu tempo no trabalho é gasto em atividades que poderiam impedir crimes, descobrir quem os cometeu, ou os trazer à justiça. Sua iniciação na cultura da incompetência burocrática politicamente correta foi imediata à sua adesão: ele havia suposto, ingenuamente, que o maior propósito de seu trabalho era a proteção do público pela supressão dos criminosos, e não, como ele descobriu, “mudar o mundo racista, homofóbico e falocêntrico em que vivemos”. Os primeiros três dias de seu treinamento foram sobre preconceito e discriminação – em resumo, “treinamento sobre diversidade”. Nunca houve nenhum treinamento em investigação criminal, uma parte menor e secundária do trabalho policial moderno na Grã-Bretanha.

A mandatada e politicamente inspirada obsessão com o racismo é perceptível no discurso constrangedor e condescendente que o vice-chefe (da polícia) de North Wales, Clive Wolfendale, fez na reunião inaugural da Associação de Policiais Negros de North Wales. Ele decidiu, Copperfield relata, se dirigir aos policiais negros em versos de rap, o que faz tanto sentido quanto se dirigir a Nelson Mandela em pidgin. Eis um excerto do discurso de Wolfendale:

Guardem as câmeras e blocos por um tempo.
Tenho que mandar umas palavras pro vento.
Ser cana [policial] se você é preto não é mole.
Se não se encaixar, pode ser que você rode.
Melhor ficar de boa igual a um rei.
Não há lugar pra gente entre os de Colwyn Bay [força policial].

Isso deve ter encorajado bastante os policiais negros: se o vice-chefe (e branco), em sua desajeitada tentativa de demonstrar simpatia com eles, os tivesse chamado de bando de selvagens, ele dificilmente teria sido mais claro. Seu discurso revela o que suspeito já há muito: que antirracismo é o novo racismo.

Também é, e simultaneamente, uma oportunidade de trabalho e uma esquiva do trabalho. Copperfield relata como, em 1999, um policial disse a um motorista negro que não respondeu a uma pergunta, que “além de negro, você é surdo”. O relatório do inquérito oficial da queixa subsequente tinha 62 páginas de anexos, 20 páginas de depoimentos de testemunhas, e 172 páginas de entrevistas transcritas. Os procedimentos legais e disciplinares levaram 19 anos para serem completados.

Entrementes, enquanto a polícia despende tanta energia (e dinheiro) em tais incidentes, crimes como assaltos nas ruas e agressões continuam seu inexorável crescimento e transformam grande parte do país em uma zona interdita para todos, exceto bêbados e inclinados à violência.

Copperfield, que entrou para a polícia cheio de idealismo, logo percebeu (e como não perceberia?) que o preenchimento de procedimentos burocráticos é mais importante para a polícia do que tudo o mais. Tudo está em ordem se os formulários são preenchidos corretamente. Uma simples prisão leva até seis horas para ser processada, tantos e variados são os formulários. Ele percebeu que há mais empregados que não são policiais do que agentes em seu posto policial; e dos últimos, a maioria faz trabalho burocrático. O estacionamento é lotado o dia inteiro, de segunda à sexta, mas a cidade toda tem apenas três ou quatro agentes patrulhando as ruas – em carros, claro, não a pé.

O autor descreve a corrupção intelectual e moral que toda essa burocracia traz consigo: pegue, por exemplo, a chamada Detenção Administrativa, que permite à polícia e seus chefes políticos enganar ao público sobre a seriedade e eficiência com que as autoridades combatem a criminalidade. Funciona mais ou menos assim: alguém liga para a polícia a respeito de uma briga qualquer – um vizinho acusa o outro de conduta ameaçadora, digamos, e o acusado, por sua vez, acusa o acusador. Os policiais registram as duas queixas como crimes e recolhem testemunhos de todas possíveis testemunhas. Isto, claro, pode levar bastante tempo, porque pelo tempo que os policiais levaram para chegar, as testemunhas já terão, provavelmente, se dispersado. Elas têm de ser achadas e contatadas, e – porque a polícia agora é tão ultrassensível aos desejos do público – horários mutuamente convenientes precisam ser arranjados para o recolhimento dos testemunhos.

Quando, finalmente, a polícia reúne todas as informações, tudo é registrado. Claro, ninguém é processado, porque, então, os queixosos já terão retirado suas queixas, e de qualquer forma as autoridades teriam considerado a situação toda como muito trivial para valer um julgamento. Mas os dois crimes são registrados como tendo sido resolvidos. E, visto que os políticos no comando julgam a atividade da polícia pela proporção de crimes solucionados, os policiais não dirigem atenção aos crimes de verdade, em que a detenção é difícil e o sucesso é incerto.

A inutilidade de uma polícia que já atraiu a admiração do mundo é, hoje, senso comum para todo britânico que chama a polícia apenas para obter um número de ocorrência para fins de seguridade, sem nenhuma expectativa ou esperança de esforço por uma solução. Isto não ocorre porque os policiais são preguiçosos, mal-intencionados, corruptos ou estúpidos, ainda que, no sistema presente, pudessem bem ser: porque o sistema em que trabalham os impõe todos os efeitos (ou defeitos) dessas qualidades. O agente Copperfield é, claramente, uma pessoa que quer fazer um bom trabalho, como a maioria dos policiais que conheci, mas o sistema ativa e deliberadamente os previne de o fazê-lo.

Calhou de eu estar lendo o livro de Copperfield enquanto esperava para entrevistar um homem na prisão, e dois policiais à paisana viram. Eles haviam lido o livro, e eu os perguntei se o que Copperfield escreveu era verdade. “Cada palavra”, responderam.

O livro de Frank Chalk, It’s Your Time You’re Wasting (“Você está Desperdiçando seu Tempo”, em tradução livre), fala essencialmente a mesma coisa, no que diz respeito à educação. É necessário dizer que, em um país que gasta $5,200 por ano durante 11 anos com a educação de cada criança, um quinto dessas crianças sai da escola virtualmente incapaz de ler, escrever ou fazer cálculos aritméticos simples. Requer considerável organização para alcançar tão pouco, especialmente quando os meios pelos quais praticamente todas as crianças podem ser ensinadas a ler em padrão elevado são perfeitamente bem conhecidos. Uma pequena autoridade educacional local em Escócia, por exemplo, West Dumbarton, virtualmente eliminou a iliteracia infantil, apesar do fato de que sua população está entre as mais pobres da Escócia, usando métodos de ensino simples e a um custo adicional de precisamente $25 por pupilo.

A corrupção intelectual do sistema educacional inglês está quase completa (o sistema escocês é muito superior). Por exemplo, há uma inspetoria escolar governamental, encarregada da manutenção dos padrões. Entretanto, ela dá às escolas um aviso de visita várias semanas antes de uma iminente inspeção, tempo o bastante para até mesmo os mais preguiçosos administradores escolares construir uma vila Potemkin. Então a inspetoria critica todas as coisas erradas: os inspetores criticaram Frank Chalk, por exemplo, por ter imposto disciplina em suas aulas e, assim, ter impedido a espontaneidade e criatividade das crianças – o que, nas condições da escola na favela em que ele leciona, elas expressam principalmente com atos de vandalismo. A inspetoria escolar, portanto, parece crer na verdade do dictum do anarquista Bakunin – de que o impulso destrutivo também é criativo.

Como epígrafe de seu livro, Chalk cita o vice-primeiro-ministro John Prescott. Nas imortais palavras daquele grande homem, que dizem tudo sobre o calibre do governo britânico que se precisa saber, “Se você estabelece uma escola que se torna uma boa escola, o maior perigo é de que todos queiram ir para lá”. E isso não bastaria.

No mundo dos espelhos da moderna administração pública britânica, nada faz mais sucesso que o fracasso, porque o fracasso provê trabalho para ainda mais funcionários e confere um papel ainda mais providencial ao governo. Uma criança que não aprende a ler corretamente frequentemente se comporta mal na escola e, assim, vira sujeito (ou objeto?) de sindicâncias por assistentes sociais ou psicólogos educacionais. Como Chalk descreve, eles sempre descobrem que a criança em questão tem baixa autoestima e, portanto, deve poder assistir apenas às aulas que sente que pode aguentar. A chamada Equipe Sênior de Gestão na escola – professores que se refugiaram em uma função preponderantemente administrativa – lida com todos os problemas disciplinares por meio do apaziguamento, por falta de qualquer outro método permissível disponível para ela.

Uma perversa ideologia reina, em que verdade e probidade não contam. Ao dar notas aos trabalhos das crianças, é esperado que Chalk faça apenas comentários favoráveis, elaborados para inflar egos mais do que para melhorar o desempenho. Exames públicos não tencionam mais testar a aprendizagem educacional por um padrão invariável, mas prover o governo com estatísticas que evidenciem resultados sempre melhores. Na busca de tal excelência, não apenas os exames exigem cada vez menos das crianças, mas os chamados cursos, que podem ser feitos pelos pais das crianças ou mesmo pelos próprios professores, são parte importante nas notas que as crianças recebem – e as notas são dadas pelos mesmos professores cujo desempenho é avaliado pelas notas de seus alunos. O resultado, claro, é um pântano de corrupção em que os professores se tornam completos cínicos sem respeito próprio aguardando pela aposentadoria.

O perfeito emblema da natureza gogoliana, kafkaeska e orwelliana da administração pública britânica é o termo “inclusão social” como aplicado no campo educacional. As escolas não podem mais expulsar crianças mal comportadas – isso seria o oposto da inclusão social – então, um punhado de crianças assim pode tornar em inúteis centenas ou mesmo milhares de horas de aprendizado, ou mesmo centenas de seus pares que, como resultado, estarão menos propensos a obter êxito na vida. Professores como Chalk são forçados a ensinar em salas mistas, que podem incluir deficientes mentais (tendo as escolas especiais sido fechadas em nome da inclusão social). As crianças mais inteligentes na sala irrequietas de tédio, enquanto o professor luta persistentemente para incutir entendimento nas mentes das menos inteligentes daquilo que os alunos mais inteligentes já compreenderam muito antes. Aos mais inteligentes não é ensinado o que poderiam aprender, enquanto aos menos inteligentes é ensinado o que não podem aprender. O resultado é caos, ressentimento, desinteresse e desespero por todos os lados.

A Grã-Bretanha possui, hoje, mais burocratas educacionais do que professores, assim como possui mais administradores do serviço de saúde que leitos hospitalares. Nenhum fracasso auto-evidente ou completamente previsível, ou catástrofe por eles causada a mando dos seus chefes políticos jamais afeta suas carreiras, em parte porque eles se deslocam de um posto a outro tão rápido que nenhum deles é responsabilizado por nada. O hospital público em que minha esposa trabalhou como médica antes de sua recente aposentadoria construiu uma extensão de $28 milhões, mas o que era uma necessidade imperiosa para a saúde da população da cidade seis anos atrás tornou-se igualmente supérfluo quatro anos depois e teve de ser fechado com grande urgência, ainda que com o asseguramento público dos burocratas então no comando, de que eles estavam “apaixonadamente” comprometidos com o bem-estar da população. Ninguém, claro, foi jamais responsabilizado por esse caro fiasco, que continha a absurdidade que Gogol retrata, a ameaça que Kafka evoca (os empregados estavam, como um todo, muito amedrontados por suas carreiras para falarem), e a mendacidade que Orwell dramatiza.

Ideias sobre por que o caro fracasso é tão vitalmente necessário ao governo britânico – ou, de fato, a qualquer governo uma vez que ele se arroga responsabilidade por quase tudo, da dieta nacional à forma como as pessoas pensam – vislumbres do livro recente do consultor de gestão David Craig, Plundering the Public Sector (“Pilhando o Setor Público”, em tradução livre). Craig cataloga o que, à primeira vista, parece a incrível incompetência do governo britânico em seu esforço por “modernizar” a administração pública. Por exemplo, nem um único projeto de tecnologia da informação de larga-escala instituído pelo governo funciona. O Serviço Nacional de Saúde (NHS) gastou $60 bilhões em um sistema unificado de tecnologia da informação, do qual nenhuma parte funciona de fato. Projetos são rotineiramente cancelados após $400 ou $500 milhões terem sido gastos neles. Modernização, no setor público da Grã-Bretanha, significa atraso e ineficiência adquiridos a custos colossais.

Como isso se explica? Aprendi uma valiosa lição quando, 20 anos atrás, trabalhei na Tanzânia. Este país lindo e privilegiado estava arrasado e chocantemente miserável economicamente. Um caco de espelho era um tesouro; o salário de um dia comprava um ovo no mercado. Era mais rápido ir para a Europa do que conseguir telefonar para lá. Nada, nem mesmo produtos mais básicos como sabão ou sal, estava disponível à maioria da população.

Em princípio, eu considerava o presidente, Juluis Nyerere, que era tão reverenciado em círculos “progressistas” como sendo o meio termo entre Jesus Cristo e Mao Tse Tung, um total incompetente. Como ele podia reconciliar o estado do país com sua retórica do desenvolvimento econômico e prosperidade para todos? Não tinha ele olhos para ver, nem ouvidos para ouvir?

Mas então me ocorreu a ideia, confesso que com constrangedora demora, de que alguém que tinha estado no poder virtualmente sem oposição por quase um quarto de século não poderia ser considerado incompetente, uma vez que se abandona a ridícula premissa de que ele estava tentando alcançar o que disse que estava. Como forma de se manter no poder, qual método poderia ser melhor do que ter um partido único todo poderoso distribuindo favores econômicos em condições de escassez geral? Isso explicava como, e por que, num país de pessoas involuntariamente magras, os oficiais do partido eram gordos. Não era incompetência; era competência de alta ordem. Infelizmente, isso foi muito ruim para a população como um todo.

O esquema na Grã-Bretanha é, claro, muito diferente. (Não é necessário acreditar que tais esquemas têm sido conscientemente elaborados, de maneira incidental; mais que isso, eles são inerentes no estatismo que vem naturalmente para tantos políticos pela importância que atribuem a si mesmos). Os círculos que unem o governo e os consultores que o assessoram em seus perenemente fracassados esquemas de modernização são feitos de ouro.

Como Craig demonstra (ainda que sem entender todas as implicações), os consultores precisam do fracasso na Grã-Bretanha para perpetuar os contratos que os permitem cobrar valores ultrajantes virtualmente ad libitum (Craig sugere que $140 bilhões desapareceram até agora, sem que haja um fim à vista); e, em contrapartida, o governo se beneficia de ter essa clientela rica, mas absolutamente dependente.

A beleza do sistema é que a dependência do caro fracasso atinge baixíssimos níveis da administração: por exemplo, todos os “civis” (como as pessoas que trabalham para a polícia, mas não são policiais são chamados) no posto policial do agente Copperfield, assim como os psicólogos que Frank Chalk ridiculariza. O Estado se tornou um vasto e intrincado Sistema de patrocínio, cuja influência muito poucos podem escapar. É essencialmente corporativista: o governo central, ávido por poder, se coloca como autoridade em tudo e reivindica ser onicompetente ambos moralmente e na prática; e por meio de impostos, licenciamentos, regulamentações e burocracia, destrói a independência de todas as organizações que intervém entre ele e os indivíduos. Se o Estado atrai cidadãos o bastante como seus dependentes, o governo central pode se manter no poder, se não para sempre, então por muito tempo, ao menos até a crise ou o cataclismo passar.

No final da cadeia de patrocínio no estado britânico está a subclasse[1], que (para mudar levemente a metáfora) forma os catadores ou esturjões de todo ecossistema corporativista. Empobrecidos e degradados o quão podem ser, eles são, ainda assim, essenciais a todo o sistema, pois sua existência provê uma prova ideológica da necessidade de um governo providencial em primeiro lugar, assim como justifica muitas oportunidades de emprego em si mesmas. Ambos Copperfield e Chalk descrevem com grande eloquência precisamente o que eu mesmo vi neste que é o mais miserável estrato da sociedade: grandes números de pessoas corrompidas até o âmago de seus seres por terem sido privadas de responsabilidade, propósito e auto-respeito, vazias de esperança e medo, vivendo no lugar mais próximo do purgatório que a sociedade moderna permite.

Claro, o sistema corporativista, ao menos em sua encarnação britânica, é um castelo de cartas, ou talvez uma melhor analogia seria com um esquema de pirâmide. Centenas de milhares de pessoas são empregadas para executar tarefas que não são meramente inúteis, mas obstrutivas do trabalho de verdade e economicamente contraproducentes. A burocracia se insinua nas menores frestas da vida cotidiana. Alugando uma casa recentemente, aprendi com um agente imobiliário que o governo envia inspetores, disfarçados de potenciais locatários, para checar se os estofados das cadeiras são retardadores de chamas. Os inspetores não têm outra função. As regulamentações mudam como mapas meteorológicos acelerados na televisão, criando a necessidade por ainda mais inspeções e inspetores. Novas regulamentações para proprietários excederam 1000 páginas; enquanto isso, a Grã-Bretanha abunda em habitações decadentes, enquanto os aluguéis estão entre os mais altos do mundo.

O governo tem que pagar por toda essa atividade, supostamente desenvolvida em benefício da população, de alguma forma. Ele está, simultaneamente, comprometido com um enorme gasto público e com o aparente, mas irreal, controle da dívida pública. O governo reconcilia o irreconciliável ao não incluir as extravagantemente generosas obrigações pensionárias do serviço público em seus cálculos da dívida – obrigações pensionárias que, devidamente contabilizadas, representam quase 56% do PIB. Também excluído está o crescente recurso governamental ao financiamento privado de instituições governamentais, que envolve enormes gastos futuros, sem que os custos de capitais apareçam nas contas nacionais.

Em outras palavras, o governo tornou as cínicas palavras finais de um monarca absoluto do século XVIII, Luís XV, no princípio guia de sua política: après nous, le déluge (Depois de nós, o dilúvio).

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Nota do tradutor: Dizer que decidi traduzir e publicar este texto, que data de 2007, por sua atualidade não seria dizer muito além do óbvio. Tampouco diria algo afirmar que o texto é profético. Em verdade, o texto é sintomático. Sintomático de mazelas que, se não são novas, apenas crescem e se agravam, como se pode perceber pelos valores mencionados, que, se parecem absurdos ainda hoje, tanto mais chocam ao se perceber que datam de quase uma década atrás.

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[1] Conforme nota da tradutora Márcia Xavier de Brito, do livro A vida na sarjeta, do mesmo autor deste texto, o termo underclass, traduzido como subclasse, não possui equivalente exato em português, mas refere-se “à classe composta por desempregados, jovens não empregáveis por falta de qualificação profissional e/ou dependência química, subempregados, doentes crônicos, idosos e pessoas com deficiência física, mães ou pais solteiros, minorias étnicas, etc., que são vítimas da armadilha da pobreza e não têm meios de sair dessa circunstância”.

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