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Donald Trump não precisa do seu apoio – e talvez não mereça

por Gabriel de Arruda Castro (23/03/2017)

No Brasil, muitos interpretam Donald Trump tão literalmente quanto um adventista lê o livro de Gênesis.

A eleição de Donald Trump e as primeiras semanas do novo governo expuseram de forma irreversível o partidarismo da imprensa americana. Aqui estão algumas coisas escritas a respeito dele:

1. “Procure o narcisista. O alvo mais óbvio na lista de hoje é, claro, Donald Trump. Quando ele olha para uma taça, ele é hipnotizado pelo próprio reflexo. Se Donald Trump tivesse um corpo um pouco diferente, ele competiria no Miss América. Mas qualquer que seja a profundeza do encanto consigo mesmo, o demagogo tem de dizer algo. Então, o que Trump diz? Que ele é um homem de negócios bem sucedido e é disto que os Estados Unidos precisam no Salão Oval”.
2. “Com frequência, ele age como um moleque mimado que cresceu demais”.
3. “Bill Clinton cometeu adultério e talvez tenha cometido estupro, mas ele mentiu sobre isso. Ele sabia que era errado. Ele viveu, como um adúltero e um hipócrita, dentro das normas cristãs. Trump contou vantagem sobre seus adultérios e elencava seus flertes”.
4. “É claro que ele não é um conservador. Ele foi a favor da Nancy Pelosi antes de ser contra ela”.
5. “Donald Trump é um mentiroso”.
6. “Trump é sórdido e provavelmente estúpido também”.
7. “Ele ainda não sabe o que civilização significa”.

Prova de que os críticos de Trump estão todos fora da realidade?

Talvez, não fosse por um detalhe: as declarações acima foram feitas por alguns dos nomes mais notáveis nomes do conservadorismo. Respectivamente: William Buckley, Thomas Sowell, Andrew Klavan, Andrew Breitbart , Ben Shapiro, Dennis Prager, Roger Scruton.

É claro que, em muitos casos, os mesmos autores já fizeram elogios às políticas de Trump. Acontece que, para a direita brasileira, pelo menos a direita que se entrincheira nos blogs e nas caixas de comentários da internet, não há nuances: a mídia mente sobre Trump – logo, Trump está sempre certo e todos os seus críticos são tão desonestos quanto a mídia.

Faça o teste: procure, entre os articulistas da direita brasileira – no geral, pessoas dignas e inteligentes – frases tão duras contra Trump quanto essas acima. Dificilmente encontrará.

Isso pode dizer muito sobre nossa personalidade como povo cordial, no sentido freyriano do termo. Talvez venha do trauma de termos vivido os últimos anos sob um governo de esquerda, cercado por outros governos de esquerda, com um esquerdista na Casa Branca e uma imprensa predominantemente de esquerda, e bispos católicos de esquerda, e professores universitários de esquerda.

Mas não podemos fazer disso uma razão para ignorar a verdade.

E a verdade não é muito difícil de decifrar: Donald Trump não pertence a movimento nenhum senão aquele sediado em sua própria cabeça e que pretende entroná-lo como o maior vencedor de todos os tempos.

Como homem de negócios, o pai de Ivanka aprendeu a ser um sofista: muda suas opiniões até fisgar o cliente. Uma das iscas foi a construção do muro na fronteira com o México. Pegou. Outras, como explorar a falta da certidão de nascimento de Barack Obama ou prometer a punição de mulheres que fazem aborto, parecem não ter soado tão bem. E aí ele passa a dizer que não foi exatamente aquilo que disse.

A essa altura, depois de tantos rodopios verbais do autoproclamado melhor golfista rico do mundo, muitos de seus aliados embarcaram na tese de que não se deve levar Trump ao pé da letra. Por essa perspectiva, quando ele diz que vai construir um muro em toda a fronteira com o México, o que devemos entender é que haverá mais segurança e que, em algumas áreas, barreiras físicas serão erguidas. A prometida deportação dos 11 milhões de ilegais vai virar uma força-tarefa para expulsar apenas os mais malvados. O banimento total de muçulmanos, para o bem ou para o mal, já se transformou em restrição geográfica que vale também para cristãos dos países listados.

Talvez seja essa mesmo a chave para entendê-lo. Mas, no Brasil, muitos interpretam Donald Trump tão literalmente quanto um adventista lê o livro de Gênesis. Acreditam que o homem é o salvador do Ocidente, o restaurador da moralidade cristã. Vibram como se cada ataque à imprensa fosse um passo de uma estratégia bem pensada, não a reação instintiva de alguém que, pelo menor motivo, insulta a quem quer que seja – o que inclui praticamente todo o Partido Republicano, a atriz Kristen Stewart, a ex-miss Alicia Machado, a lutadora Ronda Rousey e um púlpito da Casa Branca (sim).

O dono da Trump Tower é vingativo e não pede perdão nem a Deus. É ele próprio quem diz.

Diante de credenciais tão singulares, por assim dizer, desde cedo muitos conservadores de peso se opuseram à candidatura de Trump. Aos poucos, conforme a candidatura dele contra Hilllary se tornava inevitável, muitos políticos acabaram entrando no barco por sobrevivência e estratégia. Mas suponho que os blogueiros brasileiros não têm a mesma necessidade.

E não seria preciso fazer oposição a Trump. Basta tratar do assunto com mais objetividade.

Se consideram que a agressividade dele é uma resposta necessária à insanidade da esquerda, e que a vitória contra Hillary foi importante por permitir uma trégua na ofensiva contra os valores tradicionais americanos, que Deus os abençoe. Mas se querem transformar Trump em ícone do conservadorismo, algo está errado.

O que é um conservador

Embora a adesão a um credo não esteja entre as características do conservadorismo político, é evidente que o termo se refere a um conjunto concreto de ideias e práticas. E os 10 pontos de Russel Kirk são úteis para isso, especialmente no ambiente americano.

O número 1, por exemplo, diz: “O conservador acredita que existe uma ordem moral duradoura.” O número 6: “Conservadores são refreados pelo seu princípio da imperfectibilidade”. Nono, “o conservador compreende a necessidade de restrições prudentes sobre o poder e sobre as paixões humanas”.

Algum desses pode honestamente ser usado para descrever Donald Trump, autor de frases como “I alone can fix it”?

Outra forma de medir a afinidade de Trump com o conservadorismo é olhar para seus aliados dentro do partido Republicano – que, até o surgimento da ala trumpista, era dividido principalmente entre o establishment (ideologicamente moderado e apegado ao poder) e a ala conservadora constitucionalista (menos transigente e mais ligada aos movimentos populares como o Tea Party).

Onde estavam, então, os conservadores durante a ascensão de Trump?

Uma referência objetiva é o ranking da Heritage Foundation, a principal fonte de ideias para políticas conservadoras nos últimos 40 anos. É um índice que avalia parlamentares de acordo com a adesão deles a cinco princípios: livre iniciativa, governo limitado, liberdade individual, valores americanos tradicionais e uma defesa nacional forte.

O número 1  do ranking é Mike Lee. Ele foi o sujeito que tentou barrar a candidatura de Trump, literalmente no grito, durante a convenção republicana. O número 2 é Ben Sasse, que também se recusou a apoiar o marido da Melania. O número 3 é Ted Cruz – que resistiu até a última hora antes de anunciar que votaria em Trump, e fez um discurso desafiador na convenção republicana – “Vote your conscience”. O número 4 é Rand Paul, outro crítico constante de Trump.

Ao lado da Heritage, a revista National Review foi a principal referência intelectual do movimento conservador americano nos últimos 50 anos. Também de lá veio um sonoro “não” a Trump.

Quem apoiou o agora presidente desde cedo? Parte do establishment. A parte menos conservadora. Gente com Chris Christie, governador de Nova Jersey que volta e meia aparecia por aí abraçado com Obama. Ou Rudolf Giuliani,  que foi um grande prefeito de Nova York mas sempre apoiou o aborto e o casamento gay.

Se a direita critica, geralmente com razão, o viés esquerdista da imprensa, não pode se tornar um espelho dela. A obsessão pela estratégia, pelo “controle da narrativa”, pela “guerra política” e tudo o mais precisa ceder espaço à verdade.  A esquerda já nem crê na verdade. Mas os conservadores precisam ser diferentes.

A europeização da direita americana

Ignorar as nuances também nos fará perder uma oportunidade de entender o momento crucial que os Estados Unidos atravessam e de aprender lições bastante úteis.

A vitória de Trump, sobretudo a vitória nas primárias republicanas, traz os sinais de que a direita americana está se tornando parecida com a direita europeia – o que significa, basicamente, menos familiarizada com as próprias raízes religiosas. O declínio no número de cristãos praticantes nunca foi tão acentuado, em todas as regiões dos Estados Unidos. Andrew Klavan, um dos mais talentosos autores conservadores em atividade, definiu Trump como o “primeiro presidente pós-cristão”.

A continuar essa inflexão, a política mudará para sempre.

Isso não significa que os republicanos nunca mais voltarão ao poder. Partidos de direita ganham eleições com frequência na Alemanha, na Inglaterra, na França. Mas isso, a essa altura, já importa muito pouco no grande esquema das coisas.

A direita secularista ora cede à agenda cultural da esquerda por completo desde que preservada alguma liberdade econômica, como o Partido Conservador na Inglaterra, ora se consolida em movimentos populistas anti-imigração, capitaneados por figuras como Marine Le Pen e Geert Wilders. Em pouco esses partidos coincidem com a visão espiritual do homem na qual se baseia o conservadorismo. Quase não se fala do que pode de fato salvar a alma desses países: revitalizar as famílias, as comunidades locais, a cultura, o respeito mútuo. Interromper a carnificina do aborto também não está na agenda desses grupos.

Os descendenes pós-cristãos do conservadorismo se sustentam em uma identidade tribal esvaziada, que rejeita o invasor islâmico mas nada têm a oferecer contra ele nos campos da metafísica e dos valores.

Tratar Trump como a reencarnação de Ronald Reagan, e não uma mutação dentro da direita americana, é um passo na direção errada.

De volta ao Brasil

É evidente que os meios de comunicação americanos são majoritariamente democratas. Nas eleições passadas, 96% das doações de campanha feitas por trabalhadores da indústria jornalística favoreceram Hillary Clinton.

Ainda assim, a pergunta permanece: é tudo falso? É mentira que Trump se declarou seguidas vezes a favor do aborto? É mentira que ele doou dinheiro para Hillary Clinton? Que ele se orgulha de traído sua ex-esposa? Que ele acusou o pai de Ted Cruz de envolvimento na morte de John Kennedy? Que o general Michael Flynn, conselheiro de Segurança Nacional, renunciou por ter omitido contatos com representantes da Rússia?

Trump disse ou não que seu trecho favorito da Bíblia é “olho por olho”? Chamou ou não chamou o pão da ceia de “little cracker”? Disse ou não que prefere os militares que não foram capturados durante a guerra? Que Ben Carson é um médico apenas “OK”? Que Carly Fiorina parece demente?

A nossa tendência natural é filtrar os fatos para reter apenas aquilo que nos interessa. E nisso não há mistério: se você não está fazendo um esforço deliberado para superar esses vieses, certamente está enganando a si mesmo sem perceber.

Há muito o que elogiar no governo Trump. As nomeações para sua equipe foram apropriadas, e a indicação de Neil Gorsuch para a Suprema Corte deixa o país um passo mais longe do radicalismo jurídico. Mas isso ocorreu sobretudo porque o partido ainda é herdeiro da melhor tradição conservadora americana – a começar pelo vice Mike Pence, que, por acaso, apoiou Ted Cruz nas primárias.

Ao mesmo tempo, como não existe uma escola de políticas públicas trumpista, o staff do governo vem das fileiras tradicionais: a Heritage Foundation, o Partido Republicano, as universidades conservadoras.

Trump, sem amarras, é uma síntese do que pode have de pior em grandes homens de negócio: materialista, impiedoso, arrogante, vingativo, egoísta. É o sujeito que queria nomear a irmã para a Suprema Corte e colocou os próprios filhos e o genro dentro do governo. Compare o comportamento pessoal dele com o de George Washington, Ronald Reagan ou mesmo o de George W. Bush. A diferença é gigantesca.

Pode um homem desses acabar sendo um bom presidente?

Pode. Bill Clinton, sob a devida coerção de um Congresso Republicano e de um opinião pública conservadora, reduziu programas sociais e apoiou até mesmo uma emenda federal instituindo o casamento entre homem e mulher, algo que nem os republicanos fariam em 2017.

Mas um fator fundamental para isso é a temperatura do lado de fora da Casa Branca. A blogosfera e a caixadecomentariosfera da direita brasileira tratam os arroubos infantis de Trump como genialidade e lhe dão um apoio entusiasmado e emocionado independentemente do que o homem faça. Se a direita americana seguir o mesmo rumo, o governo Trump terá menos chances de dar certo.

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Gabriel de Arruda Castro

Jornalista formado pela UnB e mestre em administração pública pela Universidade da Pensilvânia.