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Até a Maria do Rosário tem razão às vezes

por Gabriel de Arruda Castro (17/03/2020)

Nossos adversários precisam ser tratados como seres humanos que são.

E se a Maria do Rosário tiver razão em alguma coisa?

Aliás: Maria do Rosário certamente tem razão em alguma coisa. Mesmo que se esforçasse para agir de forma errada 100% do tempo, ela só poderia fazê-lo se sempre soubesse as respostas corretas, o que evidentemente não é o caso. Ainda que sem querer, Maria do Rosário precisa fazer umas coisas certas de vez em quando.

E o que eu e o leitor desta revista virtual, conservadores que somos, devemos fazer diante disso?

O Padre Antonio Vieira, que não era marxista (dentre outras razões, porque morreu 121 anos antes de Karl Marx nascer), pregou certa vez, no Sermão da Primeira Dominga da Quaresma, que até do demônio pode-se aprender alguma coisa. O padre se referia à tentação de Cristo, quando o diabo, persistente, lhe ofereceu o mundo todo em troca de sua submissão. E nós, lembrava o padre, pouco fazemos para salvar nossa própria alma.

Que se ponha o demônio quarenta dias em um deserto para me tentar; e que eu nos quarenta dias da Quaresma não tome um quarto de hora de retiro para lhe saber resistir! Que vigie o demônio e espreite todas as ocasiões para me condenar: e que deixe eu passar tantas de minha salvação; e ocasiões que uma vez perdidas, não se podem recuperar! Que vá o demônio ao Templo de Jerusalém distante tantas léguas, para me despenhar ao pecado; e que tendo eu a Igreja à porta, não me saiba ir metter em um canto d’ella, como o Publicano, para chorar meus pecados! Que o demônio para me persuadir estude e alegue os livros sagrados; e que eu não abra um só espiritual, para que Deus falle comigo, já que eu não sei falar com ele! Que o demônio vencido a primeira e segunda vez, insista, e não desmaie para me render; e que se comecei acaso alguma obra boa, a primeira dificuldade desista, e não tenha constância nem perseverança em nada!

Feitos os descontos retóricos apropriados, é difícil refutar o que disse o jesuíta. Por conseguinte, até com Maria do Rosário se pode aprender algo.

Como jornalista, eis algo que notei nas minhas interações com a deputada: ela é normalmente gentil no trato pessoal. E, por mais que as consequências de suas ideias sejam desastrosas, tem uma preocupação genuína com o que acredita serem os mais vulneráveis da sociedade. Não é fingimento.

E o que fazer diante do fato de que Maria do Rosário não é o mal encarnado?

Se alguém perguntasse a Sobral Pinto, ele tinha uma resposta clara.

Você sabe quem foi Sobral Pinto. Foi o velhinho católico, conservador, contra o divórcio etc, que advogou (de graça) para comunistas como Luís Carlos Prestes. Sobral Pinto era radicalmente anticomunista, e sempre deixou isso claro. Escreveu até um livro sobre o assunto. Mas, sempre que a Constituição estava sendo desrespeitada, não importava a vítima, ele se dispunha a atuar. Por uma razão apenas: como católico, Sobral Pinto vivia o princípio de que se deve odiar o pecado e amar o pecador. Foi assim que ele respondeu à OAB quando designado a defender Luís Carlos Prestes e o alemão Harry Berger, outro militante comunista:

O que me falta em capacidade, sobra-me, porém, em boa vontade para me submeter às imposições do Conselho da Ordem; e em compreensão humana para, fiel aos impulsos do meu coração cristão, situar no meio da anarquia contemporânea a atitude desses dois semelhantes, criados, como eu e todos nós, à imagem de Deus.

Maria do Rosário foi criada à imagem e semelhança de Deus.

Marielle Franco foi criada à imagem e semelhança de Deus.

Por mais inacreditável que pareça, até mesmo Luiz Inácio Lula da Silva foi criado à imagem e semelhança de Deus.

O Brasil seria melhor se gente como Maria do Rosário e Lula jamais tivesse ocupado um mandato, e se a maior parte das ideias deles tivesse sido ignorada. É um acinte que Lula esteja fora da cadeia. Ainda assim, a lei de Deus e a lei dos homens nos compelem a reconhecer que eles têm a dignidade inerente a todo ser humano. Desumanizá-los é, na verdade, negar a essência divina e a possibilidade de redenção de cada homem. É, em última análise, rejeitar o sacrifício de Cristo.

As ideias dos petistas, e as ideias do PSOL (quando as houver) precisam ser enfrentadas incessantemente. Os corruptos precisam ser denunciados, condenados e enjaulados. Ainda assim, nossos adversários precisam ser tratados como seres humanos que são. É melhor sofrer uma injustiça do que cometer uma injustiça, escreveu Platão (e Aristóteles. E Terrence Malick nesse novo filme Uma vida oculta, que você deveria ir ver).

Arthur Brooks, um escritor e pesquisador respeitado que, como eu e o leitor, é um conservador,  tem pregado contra a polarização política nos Estados Unidos – sem abrir mão das suas próprias convicções. Ele costuma citar a descoberta do que que se chama de “assimetria de atribuição de motivação”. Em resumo: os democratas acreditam que seus colegas de partido são movidos somente pelas boas intenções enquanto os republicanos agem por puro ódio. Os republicanos pensam da mesma forma, invertidos os papéis.

E não é verdade que a esquerda seja movida apenas pelo ódio. Basta pensar nos seus parentes de esquerda. Todos eles são cínicos, assassinos em potencial? Ou alguns agem, mesmo de que de forma equivocada, pelo espírito da caridade?

Tratar Marina Silva, Guilherme Boulos e Geraldo Alckmin como integrantes de um bloco monolítico que merece ser destruído a qualquer custo é virar as costas para a verdade. E qualquer pessoa que acredite em Deus deveria tremer diante da hipótese de estar cometendo uma injustiça.

Parte da nossa direita incorre no erro descrito por Brooks: acredita que toda a esquerda é movida apenas pelo ódio, ao passo que a direita é sempre virtuosa, faça o que fizer.

E como corrigir isso?

Eu também não sei ao certo.

Mas tenho convicção de que a saída não é fazer piadas sobre uma mãe assassinada a tiros, como Marielle Franco, ou expor a imagem de familiares de Maria do Rosário, ou usar as palavras mais sujas do dicionário para insultar o alvo político do momento.

Então é preciso tratar os comunistas com a dignidade que eles não nos conferem? Sim. Como Sobral Pinto, acredito que a superioridade moral dos conservadores exige o respeito a alguns princípios inegociáveis. É preciso adotar uma moral mais elevada do que a dos nossos adversários e, sim, isso nos impede de usar as mesmas armas que eles. A fraude, a mentira, o insulto rasteiro e a difamação não são ferramentas legítimas do embate político.

Se nós lutamos por valores elevados, perenes, deixá-los de lado por causa da guerra política é abrir mão da vitória por antecipação. O único meio pelo qual os relativistas podem nos derrotar é nos contagiando com o seu relativismo.

Talvez você não der a mínima para Sobral Pinto, que já morreu há quase 30 anos, e para Arthur Brooks, que nunca passou perto da Rodoviária de Brasília. Mas talvez possa se interessar pelo que disse Jesus Cristo: “Amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam; bendizei os que vos maldizem, e orai pelos que vos caluniam.”

E sim, isto vale para Maria do Rosário.

Gabriel de Arruda Castro

Foi jornalista da revista Veja e é doutorando em Política no Hillsdale College, Michigan.