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Mulheres no cinema: uma opinião fora do script

por Deborah Bizarria (10/03/2018)

Criação de cotas pode criar uma separação entre o ambiente sério e o ambiente “café com leite”.

Na edição do Oscar que mais premiou minorias, o discurso da atriz Frances McDormand foi um dos destaques da noite. Depois de pedir que as mulheres presentes se levantassem,  ela incentivou os produtores a marcarem reuniões. Afinal todas aquelas mulheres tinham bons projetos profissionais e histórias a contar. Contudo, McDormand terminou o discurso de maneira pouco clara, fazendo uma menção aos “inclusions riders”.

Inclusion riders, explicou a atriz após a cerimônia, são cláusulas contratuais para incentivar a diversidade tanto de atores como dos profissionais por trás das câmeras. Essas cláusulas são uma das soluções propostas pelo estudo Desigualdade em 900 Filmes Populares da pesquisadora Stacy Smith, da USC Annenberg.

Esse estudo traz algumas informações interessantes sobre a baixa representatividade feminina nos filmes hollywoodianos. Smith selecionou os 900 filmes mais populares em 2007-2016,  cem a cada ano, e mediu a proporção de mulheres que possuíam falas. O número ficou próximo dos 30% ano a ano. Quanto à participação por trás das câmeras, os números são ainda mais baixos: apenas 3,7% desses filmes foram dirigidos por mulheres.

Outra informação que andou circulando após a cerimônia analisava os premiados como melhor filme pela academia. Divulgado pela BBC, o gráfico aponta que as mulheres apresentaram uma participação, medida pela proporção de palavras, bem menor do que a dos homens.

Embora esses dados não possam ser generalizados para todos os filmes, podemos nos perguntar: o que deixamos de ganhar com tão pouca participação de personagens femininas entre os melhores filmes? Podemos estar perdendo boas narrativas, personagens mais complexos e mais diversidade na fórmula que usamos para contar grandes histórias. Então, é relevante discutir possíveis soluções e suas implicações. Stacy Smith em sua palestra para o TED propõe algumas:

* Just add five: adicionar cinco personagens femininas com falas em todos os filmes;

* Inclusion riders: garantia, por meio de contrato, que os personagens não centrais a narrativa sejam representantes da demografia do lugar onde se passa a história;

* Adoção de cotas de diversidade entre os funcionários da equipe de produção. Além disso, garantir que pelo menos uma mulher seja entrevistada para cargos de liderança dentro dos projetos.

Smith argumenta que os filmes escritos e dirigidos por mulheres, que não raro acabam se concentrando na produção independente, são bem mais inclusivos. No entanto, seu estudo mostra que a maioria dos executivos das grandes produtoras tendem a associar direção e liderança de projetos diretamente a homens. É interessante alguma iniciativa que venha a romper essa barreira, por exemplo. Então, é possível que essas propostas consigam aumentar a diversidade dentro da indústria, mas somente se causarem um engajamento real.

Contudo, se o discurso de seus defensores for impositivo ou acusar de machismo/opressão aqueles que forem relutantes em adotá-las, dificilmente vingarão. Criação de cotas, mesmo que no meio privado, pode criar uma separação entre o ambiente sério e o ambiente “café com leite”. Imagine uma situação em que grandes executivos decidem, apenas para agradar alguma estrela hollywoodiana, adotar algumas cotas e adicionar cinco mulheres em todos filmes. As minorias estarão ali, representadas na tela, sempre em papéis secundários. Nem serão lembradas após o término do filme, e dificilmente levadas a sério para subir na carreira e alcançar o protagonismo. Afinal, não houve vontade real de mudança, apenas vontade de parecer moralmente superior.

Recentemente, descobri uma iniciativa que, embora não seja intencionalmente inclusiva, colaborou com essa pauta e pode nos apontar uma solução criativa. O projeto The Black List divulga todos os anos desde 2005 uma lista com os melhores roteiros que não viraram filmes. Vários dos roteiros das listas viraram grandes sucessos de crítica e de bilheteria, o que garantiu muita credibilidade à iniciativa. Entre esses filmes, destaco: A Chegada, O Jogo da Imitação, Quem quer ser um milionário?, Juno, Django Livre e os indicados a premiações neste ano, Eu, Tonya e The Post. Além das listas, seus criadores decidiram dar um passo além e hoje auxiliam novos roteiristas a encaminhar seus roteiros aos estúdios mais adequados para suas histórias, sejam tradicionais ou o Netflix e a Amazon.

Mesmo não sendo sua intenção original, The Black List tem auxiliado na inclusão feminina em hollywood. No lançamento da lista de 2017, Franklin Leonard, fundador do projeto, disse estar satisfeito com o aumento na inclusão e diversidade em evidência. Enquanto entre os melhores filmes, em geral, mulheres representam 11% dos roteiristas, na lista elas correspondiam a 33%. Quanto a protagonistas femininas, geralmente representam 29%, já dentre os roteiros selecionados eram 45%. Caso a tendência se mantenha, o modelo desse projeto poderia ser facilmente replicado sem necessidade de grandes alterações a fim de aumentar a participação feminina nesse segmento.

Então, por que não apoiar curadorias que promovam a diversidade e que garantam qualidade de seus projetos? A beleza desse tipo de  iniciativa é que não se trata de uma mera imposição moralista, ao contrário, também traz benefícios à indústria e aos espectadores. É algo que pode ajudar a corrigir um erro de percepção e dar chance ao que,  equivocadamente, não chegava às telas de cinema.

Deborah Bizarria

Estudante de Economia na UFPE. Coordenadora nacional no Students for Liberty e liderança no Clube Frei Caneca.