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Haruki Murakami: desde sempre, o menos oriental dos autores orientais

por Douglas Marques (05/04/2017)

Em ambas as obras temos um surpreendente tom realista e confessional, em primeira pessoa.

“Ouça a canção do vento. Pinball 1973”, de Haruki Murakami (Alfaguara, 2016, 264 páginas)

No período de um ano, na agora longínqua interseção entre as décadas de 70 e 80, o mercado editorial japonês observava ainda silencioso a publicação das duas primeiras novelas de um estreante que, poucos anos mais tarde, seria o seu maior best-seller internacional. As duas obras de Haruki Murakami em questão, Ouça a canção do vento e Pinball 1973, é sabido, foram posteriormente renegadas pelo próprio autor, que as considerou imaturas e por muito tempo dificultara o acesso aos livros fora do Japão. A edição brasileira, publicada recentemente pela Alfaguara, possui um curioso prefácio em que ele fala com carinho sobre as duas criações da sua juventude, ainda que com uma mal disfarçada vergonha ao considerá-las obras de “mesa de cozinha”, em referência ao local em que as escreveu.

Hábil artífice do imaginário, desde sua primeira publicação Murakami mostrou-se avesso às tradições literárias de seu país. Mais do que mirar autores clássicos como Yasunari Kawabata ou Junichiro Tanizaki, em diferentes entrevistas revela ser inspirado por nomes conhecidos do cânone ocidental – Kafka, Fitzgerald e Dostoiévski são os mais mencionados. Esse amor pelo Ocidente está presente em suas obras por meio de referências literárias, musicais e cinematográficas, abundantes em especial na primeira fase do autor. Foi enquanto trabalhava como proprietário de um bar de jazz em Tóquio que decidiu escrever seu primeiro romance.

Hoje, Murakami é nome certo nas listas de apostas para o Nobel de literatura e já traz no currículo láureas importantes como os prêmios Jerusalém, Franz Kafka e World Fantasy. Suas publicações marcaram época, encontrando junto ao leitor japonês um abrigo seguro contra os ataques da crítica literária mais tradicional, ainda em busca de um novo Yukio Mishima. Norwegian Wood, romance de formação semi-autobiográfico publicado em 1987, vendeu milhões de unidades e ajudou a formar uma geração de novos leitores – seu impacto na Terra do Sol Nascente lhe rendera comparações com o clássico americano O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger. Outros romances, como Caçando carneiros, Kafka à beira-mar e a trilogia 1Q84, todos disponíveis no Brasil, ajudaram a consolidar a fama internacional do mais ocidental dos autores orientais. A recente edição conjunta de Ouça a canção do vento e Pinball 1973 ajuda a compreender o início desse fenômeno.

Com referências a Flaubert, Beethoven, Bob Dylan e Elvis Presley, Ouça a canção do vento é uma criação selvagem em espírito e forma. O escritor cria capítulos concisos carregados de diálogos para tecer uma narrativa veloz como a juventude que tenta retratar. Acompanhamos três semanas na vida do narrador sem nome, um estudante de Tóquio que volta para o interior durante as férias. São noites e noites de encontros com J, o chinês dono do bar cenário de várias passagens do romance, e Rato, personagem que dá nome à trilogia que contém também Caçando carneiros e um spin-off, Dance Dance Dance.

Em meio a bebedeiras de fazer inveja ao Hemingway de O sol também se levanta, o narrador reflete sobre relacionamentos passados enquanto, no presente, se envolve com uma jovem lojista sem um dos dedos.

O romance mostra um Murakami ainda imaturo e à procura de seu estilo. Todavia, algumas constantes em seu universo já estão lá: a sensação de alienação, a garota desaparecida, o estranhamento e acontecimentos mal explicados. Contudo, sua marca registrada, o fantástico embutido no real, apareceria apenas em Pinball 1973.

O segundo romance do volume é a história de uma estranha obsessão pelo pinball, uma máquina de jogos muito comum nos antigos fliperamas. Ainda que não seja uma continuação direta de Ouça a canção do vento, seu protagonista também frequenta o bar de J e mantém laços de amizade com Rato. A insólita busca do narrador por uma máquina de pinball fora de circulação o leva aos limites da sanidade, o que resulta no primeiro contato de Murakami com o surreal e o preternatural. Como no livro anterior, também aqui surgem elementos que ajudariam a constituir sua identidade enquanto escritor, como a presença de gatos e o suicídio de uma personagem menor que será reconhecida por leitores de Norwegian Wood.

Em ambas as obras temos um surpreendente tom realista e confessional, em primeira pessoa. As narrativas, ainda que bastante simplistas do ponto de vista formal, possuem seus atrativos – Ouça a canção do vento foi indicado ao Prêmio Akutagawa, um dos mais prestigiados do Japão. É fato, porém, que as inúmeras referências a livros, músicas e filmes remetem mais a um processo adolescente de busca por identidade do que a uma conversa entre adultos. Não soa fidedigno, nem mesmo no universo de absurdos de Murakami, o uso abundante de nomes da indústria cultural, seja na narrativa, seja nos diálogos. O efeito é o de um empobrecimento da experiência, que por vezes assemelha-se mais à leitura de um texto de blog do que de um bom romance.

Ainda que as duas histórias careçam de profundidade e de uma escrita mais interessante, são bons passatempos para quem já está familiarizado com Haruki Murakami. Para alguém que deseja conhecê-lo, nem tanto. Se esse é o seu caso, prefira o já citado Kafka à beira-mar ou Caçando carneiros.

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Douglas Marques

Psicólogo curitibano, atua junto a migrantes e refugiados. Também se refugia, mas nos livros. Está concluindo especialização em antropologia cultural.