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Um passaporte para o mundo da música clássica

por Carla Gullo (21/04/2020)

O repertório escolhido pelo autor auxilia e nos proporciona uma oportunidade de pausar a leitura para ouvir música.

“Falando de música: oito lições sobre música clássica”, de Leandro Oliveira (Todavia, 2020, 128 páginas)

Falar de música não é simples, mas faz toda a diferença para a escuta e para a formação auditiva. Confesso que, mesmo tendo formação em música e filosofia, estes momentos de discussão mais profunda e densa são raros. Falando de Música é um convite a conhecer a música em diversas temáticas, a partir de um estilo agradável e pessoal – e, ao mesmo tempo, com uma escrita criteriosa e objetiva.

Ao longo do texto, temos o prazer da descoberta de peculiaridades da história da música e da experiência do autor. São passagens semelhantes aos momentos preciosos que acontecem em aulas de música, uma característica da educação musical que depende da experiência de vida do professor.

Falando de Música, do músico e crítico Leandro Oliveira, é dividido em oito lições sobre música clássica, uma por capítulo. Música clássica é definida logo no primeiro capítulo. É o assunto mais complexo entre os escolhidos pelo autor. A expressão é utilizada maneiras diversas, e obviamente nunca se chega a um significado preciso.

O livro tem uma função pedagógica importante para o público geral: ele possibilita uma introdução e uma compreensão inicial sobre temas que são bem interessantes, não só para quem estuda música, mas para quem gosta de ouvi-la. Como Oliveira afirma, a música clássica tem um público fiel, cujos protocolos e regras de comportamento e características específicas são requeridas pelos membros frequentadores a outras pessoas que não estão habituadas a este universo. De certa forma, o livro elucida por que existem certos rituais, como o bis, colocando em questão a etiqueta das salas de concerto.

Não é mais possível escutar música da mesma forma depois de passar por algumas discussões do livro – por exemplo, o que significa o aplauso, ou a possibilidade de uma variedade de palmas pela plateia para uma comunicação elegante e sofisticada com o intérprete. Provavelmente não irei aplaudir da mesma forma nas salas de concerto, mas desafio a refletirmos que ninguém irá aplaudir da mesma forma ao sairmos de uma pandemia. Fiquei imaginando que provavelmente esta etiqueta, ou irá mudar ou virá à tona de forma mais consciente coletivamente, já que só o fato de ser possível a presença de público em salas de concerto tornará, por si só, o evento uma grande experiência a ser aplaudida.

Para os estudiosos de música, professores e músicos, o livro é igualmente interessante, porque discute assuntos um tanto intocados pela “comunidade musical” e desperta a curiosidade para argumentações filosóficas sobre música que precisariam ser mais difundidas. Leandro Oliveira é extremamente objetivo e sintético ao apresentar as diferentes ideias e revela a sua opinião de forma coerente. Ao final de cada capítulo, ele deixa de presente ao leitor sugestões de leitura, tornando disponível uma literatura especializada para quem quiser se aprofundar. Muitos livros indicados são referência que todo estudante de música ou pessoa que gostaria de conhecer música mais detalhadamente deveria conhecer; outros são fonte de pesquisa que esmiúçam argumentos ou temas abordados em cada capítulo.

Para você experimentar um pouco do que foi abordado nas seis primeiras lições, na sétima lição (ou capítulo), há uma seleção de músicas que formam um panorama básico para um ouvinte curioso, que quer conhecer melhor música clássica e não sabe por onde seguir – ou aquele que quer organizar a discoteca. De fato, não é fácil fazer uma curadoria diante do vasto repertório clássico, mas, como o próprio autor afirma, a melhor sugestão é ouvir cada vez mais para conhecer melhor. O repertório escolhido pelo autor auxilia e nos proporciona uma oportunidade de pausar a leitura para ouvir música. (Fiz uma playlist no Spotify, caso alguém se interesse.)

Outra discussão desenvolvida no livro é a lição “O Silêncio, com S maiúsculo”. Seria o silêncio um problema conceitual, filosófico? Pensando partir das experiências de John Cage, “o silêncio e o ruído são, por um lado, disponibilidades mentais e, por outro, acordos culturais que nos permitem dar sentido a qualquer obra musical”. Assim, a ausência de som é uma impossibilidade, algo marcadamente presente na música contemporânea, onde o próprio símbolo do silêncio na partitura, as pausas, se tornaram ruídos.

Outra questão filosófica: a cultura humaniza? Ou ela está próxima à barbárie mais do que imaginamos? Talvez o diálogo que a música clássica mantém entre gerações dê continuidade ao que é humano e sensível, que é inerente à expressão artística, e preservá-la se torna-se uma tarefa humanística.

Na minha opinião, esta obra preenche uma lacuna no universo crítico brasileiro. Seus temas deveriam ser mais acessíveis ao público, não estando restrito ao próprio grupo que frequenta salas de concertos: escutar música é uma arte que pode ser apreendida e aprendida. A música clássica vive em um mundo que poderia ser mais acessível – se ela fosse mais discutida. De forma instigante e inteligente, Leandro Oliveira faz sua parte para proporcionar um acesso qualificado a esse mundo.

Carla Gullo

Estudou filosofia na Universidade Federal de Goiás.