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Todos contra um inimigo comum

por Rafael Valladão (03/04/2020)

A eventual convergência entre adversários políticos é um fenômeno recorrente na história da humanidade.

Lula e Doria se cumprimentaram pelo Twitter. O patriarca petista elogiou a conduta do governador de São Paulo, que recentemente mandou a polícia militar recolher 500 mil máscaras do estoque da empresa 3M. Segundo o chefe da quadrilha vermelha, Doria tomou a atitude correta em tempos de crise, amparando-se na legislação e atendendo à necessidade da população paulista. O tucano, por sua vez, respondeu afirmando que é hora de manter o foco no combate à expansão do coronavírus, deixando em segundo plano as divergências políticas.

Como era de se esperar, a horda bolsonarista manifestou repúdio pela união do governador e do ex-presidente. Bolsonaro tuitou: “Quando falamos em união, nos referimos aos que querem o melhor para o Brasil e para os brasileiros, não uma aliança com quem quase o destruiu por completo. Discordâncias temos entre meras posições. Superar divergência não é abandonar a própria honra nem a verdade”. O cãozinho de guarda do presidente, Carlos Bolsonaro, que, eleito vereador da capital fluminense, ganhou de presente uma sala particular no Planalto, teve a finesse de tuitar: “Ainda precisa desenhar? Eis as duas bandas da bunda”. Daí em diante, todos os fiéis da seita bolsolavética disseram amém. Para a massa fanatizada de bolsonaristas, trata-se de um conflito entre forças do bem e do mal. Tucanos e petistas querem isolar o presidente e derrubá-lo porque todo homem de bem faz inimigos. É o maniqueísmo moral de sempre.

Qualquer pessoa com um mínimo de maturidade intelectual, ou com experiência suficiente de vida nas costas, sabe que não se trata disso. A troca de tuítes entre Doria e Lula surpreendeu a quem? É verdade que os dois possuem um histórico considerável de ofensas e desavenças, sobretudo depois que o tucano decidiu surfar na onda do antipetismo e capitalizar apoio eleitoral a partir da oposição sistemática a Lula e seus asseclas. Acontece que a eventual convergência entre adversários políticos é um fenômeno recorrente na história da humanidade. Essa união de contrários é geralmente provisória, e tende a durar o tempo necessário para neutralizar ou eliminar uma ameaça comum. Evidentemente, aí incidem interesses contraditórios que pesam sobre a negociação estabelecida entre os líderes políticos. O interesse egoísta mobiliza as forças individuais do mercado, e é também a estratégia particular de cada grupo que movimenta o confronto político.

O que motiva grupos contrários a se unirem contra um inimigo comum é um certo instinto de sobrevivência coletiva. Ao contrário do que pensam alguns liberais desmiolados, o indivíduo partilha ideias e interesses com seu grupo de origem ou adoção. Cria-se aí uma afinidade de ideais ou de interesses, e é por isso que torcemos por um clube de futebol ou apoiamos este ou aquele candidato que nos ofereceu um cargo em seu possível gabinete. Como indivíduos e como sociedade, todos temos ideais e interesses. No caso dos grupos políticos, para os quais importa primeiramente conquistar e conservar o poder, a solidariedade está fundada na proteção de interesses comuns. Logo, é indiscutível que Doria e Lula, assim como o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, estão interessados na destruição de Jair Bolsonaro, pelo mesmo motivo por que o presidente da República está interessado em atacar seus adversários de primeira e última hora. Lição básica de Maquiavel. Mas não é só isso.

A disputa entre grupos políticos é sempre condicionada por fatores extrapolíticos, ou seja, por variáveis que escapam ao controle desejado. Engana-se quem pensa que tudo se reduz à luta interminável entre grupos mais ou menos poderosos. Antes, durante e depois das eleições há uma multidão de seres humanos necessitada de recursos mínimos de sobrevivência. Alguns são satisfatoriamente ofertados pelo mercado, outros dependem da intervenção direta ou indireta do Estado. Manter o fluxo de tais recursos, e, por conseguinte, manter a população humana viva, é um pré-requisito para a sobrevivência da sociedade – além de um ideal humanitário. Defunto não faz política. A conclusão que se impõe é a seguinte: a ação concreta dos agentes políticos pode resguardar, ou não, uma sociedade, pouco importando a intenção recôndita de tais agentes. É por isso que atenienses e espartanos uniram forças contra o Império Aquemênida que ameaçava toda a Grécia, e é também por isso que Churchill foi forçado a tolerar a participação da URSS no combate ao nazifascismo. Derrotado o inimigo comum, dissolve-se a coalizão e voltam todos a se odiar e a se digladiar normalmente. A Guerra do Peloponeso e a Guerra Fria estão aí para sustentar o argumento. O mesmo pode ser dito da união antibolsonarista.

Nesse caso, quem é o inimigo comum? Não é apenas Bolsonaro, mas também, e sobretudo, um vírus com altíssimo potencial de disseminação, que, se relegado a segundo plano, pode matar alguns milhões e devastar países inteiros. Já que o presidente da República decidiu cruzar os braços e subestimar uma ameaça real à saúde do povo brasileiro, então o inimigo comum de tucanos e petistas passa a ser o coronavírus e Bolsonaro. É lamentável a sorte do Brasil: ter um mandatário irresponsável no momento em que uma pandemia bate à porta. Graças ao arranjo federalista do Estado, felizmente, governadores e prefeitos possuem certa autonomia para responder à ameaça da covid-19.

Vivemos um momento histórico. O futuro próximo do Brasil depende da ação preventiva dos governantes, e os brasileiros sabem disso. Sentem-se ameaçados por um vírus que pode jogá-los no corredor da morte de algum hospital superlotado e precarizado. A memória popular haverá de gravar nitidamente o rosto de quem diminuiu o tamanho da ameaçada e aumentou o risco de vida. Doria, Lula e outros profissionais da política já perceberam isso. E o clã Bolsonaro?

Rafael Valladão

Professor de Ciências Humanas e Sociais. Foi colunista do Instituto Liberal e do Burke Instituto Conservador.