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Sobre patos, cisnes e mosquinhas observadoras

por Camila Pavanelli (11/05/2012)

Então, o moço declara: "Chegamos aqui como uma dupla e continuaremos como uma dupla."

Aparentemente, há um novo fenômeno de audiência nos reality shows de calouros (aliás, alguma vez não houve?): uma dupla de adolescentes que canta ópera (regojizemo-nos, pois os gringos ainda não descobriram a música romântico-sertaneja brasileira). Assista ao vídeo. Serão apenas oito minutos na sua vida e, quem estamos tentando enganar, ambos sabemos que tanto eu quanto você já passamos oito minutos fazendo coisas piores do que assistir a um clipe de reality show de calouro.

Este post faz uma análise que me pareceu bastante equivocada das causas do sucesso do vídeo. Mas faz também um pedido importante aos leitores, que repito aqui: assista a ele e fique atento à sua reação.

O argumento do post, resumido no título, é que temos aí apenas uma reedição do sucesso de Susan Boyle, a patinha feia que virou cisne assim que abriu a boca para cantar. Mas a análise vai um pouco além: o programa jogaria com nossa expectativa de que o participante feioso vai a-ha-zar. O post nos pergunta mais ou menos o seguinte: amg, você acha mesmo que Simon Cowell não sabia que o gordinho efetivamente canta? Ele é produtor executivo daquela desgraça. Se ele está colocando no ar – de novo – um feioso talentoso, é porque deve haver uma boa (isto é, lucrativa) razão para isso. O argumento, em suma, é de que o feioso talentoso está lá justamente para que nossa expectativa seja confirmada e nos sintamos sumamente satisfeitos e inteligentes com isso – viu, viu, eu sabia que o feioso cantava bem desde o princípio!

Bem, isso até é verdade. Mas, se você viu o vídeo, não deve ter ignorado que o feioso em questão não estava sozinho – fato que a análise do Partial Objects desconsidera por completo.

Porque o elefante no meio da sala – a diferença e a novidade em relação ao vídeo de Susan Boyle – é que o feioso, desta vez, está acompanhado. E não por outro feioso, mas por uma moça bonita. Que, quando os dois sobem no palco, é praticamente a única a se pronunciar, com simpatia e desenvoltura. Em seguida, os telespectadores são confrontados com uma breve entrevista com os dois, anterior à sua subida ao palco. Nesta parte do vídeo, a moça põe a mão carinhosa e condescendentemente sobre o ombro do feioso. A narrativa é a seguinte: moça bonita concede caridosamente a graça de seu charme e se sujeita a fazer dupla com (e ainda animar feito cheerleader e servir de terapeuta reconfortadora do) gordo esquisitão com auto-declarados problemas de confiança e auto-estima. Uma bela e edificante história de amizade entre o patinho feio e o cisne, portanto. Se Susan Boyle era o pato que vira cisne, pato e cisne, aqui, estão lado a lado*.

Esta parte do vídeo termina com o menino dizendo emocionado, “Eu não subiria no palco esta noite se não tivesse Charlotte ao meu lado”. Corta para o palco novamente e eles, enfim, cantam.

Não comentarei a cantoria aqui. Direi apenas o mínimo necessário para avançar meu argumento, que é o seguinte: o moço canta direitinho. E a moça escorrega em não poucos momentos.

A plateia vai à loucura, todos-aplaude, o clichê de sempre. Os jurados se pronunciam. Mais clichês. Chega a hora da verdade – a hora de Simon Cowell.

Simon, diferentemente do que argumenta o post do Partial Objects, não está ali (apenas) representando um papel para nos fazer parecer inteligentes. Ele está ali, como sempre esteve, para mostrar que o rei está nu – isto é, para falar o que todo mundo pensa mas ou não teve coragem de admitir ou, com muito maior probabilidade, não teve capacidade de articular.

Acontece que, aqui, apenas metade do rei está nu. Ele diz com todas as letras aquilo que já sabíamos: que o menino é ótimo, e a menina apenas OK. E, uma vez estabelecido isso, resta a dúvida que Simon verbaliza sem mais delongas: a moça poderia prejudicar o moço na competição?

Então, o moço, que estivera quietinho de início mas depois da cantoria foi o primeiro a se pronunciar, agradecendo efusivamente os aplausos recebidos, declara: “Chegamos aqui como uma dupla e continuaremos como uma dupla.”

Este, telespectadores, é o momento catártico-emocionante do vídeo. Poderia haver gesto mais magnânimo?

Nossa empatia, emoção, catarse, chame do que quiser, não está propriamente no fato de que o feioso cante bem. Afinal, ele não é o primeiro a fazê-lo. A empatia está precisamente neste pronunciamento, nesta frase. Pois, com ela, há uma inversão de papéis. O gordo feioso que parecia carregado nas costas pela menina bonita de repente vira a futura super-estrela levando a reboque sua amiguinha simpática, porém pouco talentosa. Súbita e inesperadamente, os papéis se invertem – nem tanto porque o feioso cante bem, mas porque a bonita canta mal (ou, vá lá, não tão bem assim). Então, continuamos com um cisne e um pato – só que, agora, os papéis foram trocados. Agora é o ex-pato quem está por cima da carne seca (ou dos fish’n’chips, por que não), com o poder de alavancar ou destruir uma carreira. E, de posse deste poder, ele opta por ajudar a amiga, retribuindo com gratidão todo o auxílio anterior que lhe fora concedido.

Este é o lance. Agora o feioso pode se mostrar superior à bonita em dois níveis distintos, operando uma reviravolta dramática na narrativa. Primeiro, ele se mostra superior a ela no nível musical – mas esse é o de menos. Já sabíamos de antemão que ele cantaria bem (talvez não esperássemos que cantasse melhor do que ela, mas certamente já sabíamos que cantaria bem). O nível mais importante, porém, é o segundo. Ao se recusar a desfazer a dupla, ele mostra sua superioridade moral, pois fica estabelecido que é ele quem carrega a dupla nas costas, e certamente não o faz em interesse próprio (sozinho, muito mais facilmente ele se tornaria um superstar).

Há também um aspecto adicional. Acompanhe minha hipótese: a impressão inicial de quem vê o vídeo, assim logo no primeiro frame, deve ser algo próximo a: “gordo feioso faz dupla com menina bonita”. Mas, até o final do vídeo, isso tem grandes chances de se modificar. Porque, quando reparamos bem, vemos que o gordo pode até ser feio, mas muito mais do que um gordo feio, é um adolescente estiloso de cabelos compridos que canta ópera vestindo uma camiseta do Jimi Hendrix. Quem não quer ser amigo desse cara? Em compensação, logo percebemos que sua parceira nem é tão bonita assim – ela é bem comum, na verdade, tornada bonita à primeira vista apenas devido à evidente fuga-dos-padrões de seu companheiro de palco.

Ou seja: somos piores, muito piores do que imaginávamos. Não é que queríamos nos sentir inteligentes ao prever o talento do feioso e nem muito menos que queríamos vê-lo dar a volta por cima, redimindo sua condição de feio. Não, isso já não basta. Já não basta ser feio – ou gordo, o que, hoje em dia, são adjetivos praticamente intercambiáveis -, mas cantar bem. É necessário, além disso, ser uma pessoa moralmente superior. Susan Boyle era “feia, mas canta muito!”. Jonathan é “feio, mas canta muito e é um cara legal!”.

Assim, para todos nós que somos feios e não cantamos nada, Jonathan mostra que resta pelo menos o consolo de sermos pessoas legais.

Será mesmo?

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*Isso para não falar na tensão sexual à la Cyrano de Bergerac implícita na dupla. “Será que ele é apaixonado por ela? Se for, não tem a menor chance”, etc.

Camila Pavanelli

Doutoranda em Psicologia Social na USP.