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Um livro maior do que suas páginas

por Douglas Marques (11/05/2015)

Houellebecq diz que a ideia de uma França que deixa para trás as suas tradições partiu de suas próprias perdas

"Submissão", de Michel Houellebecq (Alfaguara, 2015, 256 páginas)

“Submissão”, de Michel Houellebecq (Alfaguara, 2015, 256 páginas)

Submissão é um livro maior do que a história que narra. Não se lê uma obra dessa natureza sem ler também o seu contexto. Ter os olhos abertos para a história recente, não apenas europeia mas também a nossa e a de todo o mundo, é a chave para a sua compreensão.

O novo lançamento da Alfaguara tem em mãos a responsabilidade de reaproximar a literatura das discussões importantes da contemporaneidade. Laurent Joffrin, editor-chefe do veículo esquerdista Libération, disse que a publicação de Submissão marca o retorno das ideias de extrema-direita na literatura séria francesa. Pode-se concordar ou discordar do argumento de Joffrin, mas a sua essência prevalece: Submissão é, sim, um livro de ideias e assume essa postura desde o início. Não é sem propósito, afinal, que o narrador, um intelectual – que certamente recusaria o adjetivo –, cita nomes como Michel Onfray, Pascal Bruckner, Platão, Kant ou Nietzsche: as ideias estão lá, de uma forma ou de outra, servindo de base ou contraponto às do protagonista François.

Porém, foi num infortúnio atípico, desses em que o destino parece possuir um sardônico senso de humor, que a trajetória de Submissão cruzou com a da tragédia que abriu os noticiários de 2015. Desde então, é difícil separar o lançamento do livro dos atentados terroristas que vitimaram doze pessoas em Paris no início do ano. No dia 7 de janeiro, dois homens armados com fuzis Kalashnikov invadiram a redação do semanário satírico Charlie Hebdo e dispararam contra seus colaboradores.

Dentre as muitas mortes estava a de Bernard Maris, um conhecido economista de esquerda e amigo pessoal de Michel Houellebecq. Ao saber da notícia, o autor cancelou de imediato a turnê de promoção do livro, lançado no mesmo dia dos tiroteios. Como muitos, também disse: “Je suis Charlie“.

“É a primeira vez na minha vida em que alguém que conheço é assassinado”, afirmou em entrevista à emissora francesa Canal+, com semblante claramente abatido. “Não estou em boas condições”, continuou. A visão de um escritor habituado a provocações e a polêmicas subitamente sensibilizado chama a atenção. Houellebecq, que normalmente se alinha à direita no espectro político, não compartilhava das mesmas convicções de Maris ou da própria Charlie Hebdo, mas tem em comum com eles a aversão por dogmatismos e o gosto pela liberdade.

Portanto, é irônico que a capa da Charlie naquele dia trazia justamente a figura de um decrépito e caricaturado Houellebecq, acompanhada dos dizeres “As previsões do mago Houellebecq”. Era ele o alvo principal das chacotas da edição, que, nas palavras da revista americana New Republic, mirava os islamofóbicos – adjetivo muitas vezes atribuído ao escritor. Mas por que Charlie mirava em Houellebecq?

Finalmente, Submissão.

O belo projeto gráfico em preto e dourado da editora Alfaguara traz já na capa a inscrição “O livro mais polêmico do ano”. Talvez mais justiça à obra faça o comentário de Emmanuel Carrère, feito para o Le Monde – ambos, escritor e jornal, alinhados à esquerda; detalhe que friso para que se entenda que a discussão proposta pelo escritor não cabe no território estreito dos fundamentalismos seculares da política contemporânea. A citação de Carrère está em destaque na contracapa: “Se há qualquer um hoje em dia, não só na literatura francesa como na mundial, que reflita sobre a enorme mutação em curso que todos nós sentimos e não sabemos como analisar, esse escritor é Houellebecq.”

A mutação em questão tem a ver com um mundo multicultural cujo centro é a Europa. É essa falta de compreensão de todos em relação a todos que é explorada com maestria em Submissão. Ninguém entende ninguém no mundo quase distópico do romance.

Hoje, a França possui 10% de sua população seguidora do Islã. Em 2022, no futuro imaginado por Houellebecq, esse número torna-se expressivamente maior, especialmente com a ascensão política da Fraternidade Muçulmana, liderada pelo carismático Mohammed Ben Abbas. A palavra “moderado” é usada seguidamente para descrevê-lo, uma espécie de selo de aprovação ocidental que lhe permite trafegar confortavelmente entre socialistas e liberais. Um embate eleitoral pela presidência o coloca de frente com Marine Le Pen, personagem real que lidera o partido de extrema-direita Frente Nacional.

Surge François, professor de literatura especialista no grande representante do realismo Joris-Karl Huysmans. Sujeito apolítico por escolha, François é pego no meio de uma agitação social e política que coloca radicais islâmicos de um lado e adeptos de um movimento identitário do outro, ambos à margem da legalidade. Os dois grupos praticam uma série de atentados terroristas contra alvos estratégicos, colocando em risco os cidadãos franceses. Ninguém quer ficar atrás no jogo político. De seu lado, a imprensa cerra os olhos para a violência que toma conta das ruas de Paris e da França, deixando de noticiar o que todos veem.

Se há um caos externo, há também um caos dentro de François. Incapaz de amar e ser amado, lida constantemente com a frustração de ter seus relacionamentos abreviados por parceiras que cedo ou tarde dizem ter “encontrado alguém” – “Mas eu não sou alguém?”, indaga-se o professor. A última delas, Myriam, jovem e judia, parte com a família para Israel, com medo das consequências da eleição. É o que desestabiliza de vez o homem, que se desespera ante a perspectiva de envelhecer e morrer ignorante das benesses do amor.

Enquanto isso, Mohammed Ben Abbes é eleito graças a uma aliança com o Partido Socialista, o mesmo do atual presidente François Hollande. E, quase instantaneamente, a vida muda – para melhor no caso de alguns, para pior no de outros.

Houellebecq diz que a ideia de uma França que deixa para trás as suas tradições partiu de suas próprias perdas. Em entrevista à Paris Review, o autor explicou que foram as mortes de seu cão, a quem era muito apegado, e de seus pais que o impulsionaram à escrita do romance. Os acontecimentos tiveram o efeito de questionar seu ateísmo, erigido sobre bases menos sólidas do que pensava. Hoje considera-se um agnóstico, e a experiência de confrontar-se com a finitude se reflete em muitas passagens de Submissão, especialmente nos trechos finais.

Entre as reflexões de François, algumas falam mais alto ao leitor. Existe um criador? Ou, quem sabe, algum tipo de ordem cósmica? É possível amar e/ou ser verdadeiramente feliz? Essas perguntas, a princípio distantes do personagem, moldam as transformações em seu íntimo em harmonia com as mudanças sociais que perpassam o país – a criminalidade cai drasticamente, um efeito quase imediato da eleição de Ben Abbes; a economia também prospera. Ao mesmo tempo, mulheres são proibidas de frequentarem as universidades e passam a usar a indumentária islâmica.

A polêmica está, para ser justo com Houellebecq, não na forma como é encarado o governo muçulmano, que oscila entre consequências negativas e positivas. Está, sim, em vislumbrar um futuro que habita, ainda que indesejado, o imaginário de uma Europa que teme sua desintegração – seja ela cultural, política ou demográfica – com o aumento das populações vindas de outros continentes. O desnorteio dos personagens de Submissão é o mesmo dos governos e das sociedades que nem estendem as mãos aos imigrantes nem obstruem sua chegada. Os dados são jogados e ninguém mexe suas peças.

Por fim, não foi por acaso que Houellebecq escolheu Joris-Karl Huysmans para ser objeto de devoção e pesquisa de seu protagonista. O literato teve uma vida desregrada até aproximar-se da meia idade, quando conheceu o cristianismo e se converteu, publicando em seguida uma trilogia de romances cristãos – Là-bas (1891), En route (1895) e La cathédrale (1898). Sua vida é acompanhada de perto por François, que visita o local que lhe servia como retiro espiritual na esperança de encontrar a mesma paz. Em certa medida, a trajetória de Huysmans espelha a de François e, mais ainda, a jornada espiritual do próprio autor, que assumiu, na mesma entrevista da Paris Review citada acima, que a busca por Deus é uma necessidade legítima e o amor, humano ou divino, pode ser a tábua de salvação para uma vida.

Douglas Marques

Psicólogo curitibano, atua junto a migrantes e refugiados. Também se refugia, mas nos livros. Está concluindo especialização em antropologia cultural.