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As provas contra Temer e a cegueira ideológica

por Elton Flaubert (19/05/2017)

Apenas mafiosos e bobões negam a realidade dos fatos.

1. O que há no áudio entre Joesley e Temer

a) Joesley está falando de suas dificuldades com a justiça e do medo das delações, quando deixa claro que está pagando Cunha: “Zerei tudo, liquidei tudo e ele foi firme. Veio cobrou, eu acelerei o passo e tirei da frente”. Ou seja, lhe deu um cala-boca. Em seguida, Joesley afirma que depois de todos as atitudes tomadas, está de bem com Eduardo Cunha.

b) Temer responde: “Tem que manter isso aí, viu?”. A propina ou a boa relação? Tanto faz, as duas são a mesma coisa, pois Joesley deixou claro que a “boa relação” era o pagamento ofertado. Não há muito, a defesa de Temer afirmava a ciência do pagamento, mas alegava causas humanitárias. Agora, voltou a desconhecer?

c) Joesley conta que comprou procuradores e juízes, e recebe de Temer a seguinte resposta: “Ótimo, ótimo”. Prevaricação.

d) Joesley reclama que está tudo travado no BNDES, e Temer manda ele pressionar Meirelles para falar com o presidente. Desvio de finalidade.

e) Temer indica Loures como emissário para seus negócios.

2. O que há no áudio entre Loures, ex-assessor e braço-direito de Temer, e Joesley

a) Joesley afirma para Loures que avisou a Temer sobre o pagamento de propina a Cunha e Funaro, mas que não pode pagar eternamente.

b) Loures confirma.

3. O que há fora dos áudios

a) Na delação, Joesley prova que o encontro com Temer foi marcado no dia anterior por Loures.

b) Loures foi pego com áudio, fotos e vídeos, pegando a mala de 500 mil reais da JBS que seria enviada pelo silêncio de Cunha.

c) O site O Antagonista conseguiu com exclusividade a delação de Joesley. Nela, há mais coisas contra Temer. Algumas delas:

– Em 2010, Joesley pagou R$ 3 milhões em propina a pedido de Temer.

– Em 2012, Joesley pagou R$ 3 milhões em propina a pedido de Temer para campanha de Gabriel Chalita.

– Durante o impeachment, Temer pediu R$ 300 mil em propina para despesas.

– Joesley afirma que Wagner Rossi, ex-ministro da Agricultura, operava para Temer no Porto de Santos.

– Joesley afirma que Loures intermediava 5% de propina nas termoelétricas para Temer, rendendo-lhe R$ 50 milhões.

d) Com planilhas e notas fiscais, Joesley prova o pagamento de propina ao presidente em todas essas acusações.

*

Donde podemos concluir que há provas objetivas e indícios razoáveis para afirmamos com algum grau de certeza que o presidente é um bandido e que não pode mais ocupar o seu cargo.

Dois tipos de reações a esses fatos me chamaram atenção: uma típica de mafioso, outra típica de bobão.

O mafioso é aquele cara que quer ser o novo establishment. Ele não está preocupado com a verdade, com a justiça, com o país, com princípios, com sua alma, com nada. Ele está preocupado em construir o seu poder. Para isto, ele age basicamente de duas maneiras: a) fazendo interbadalações com seus contatos, b) e por meio de uma gramática expiatória (o problema é o de fora, este precisa ser posto e substituído, etc.). O mafioso gosta de falar em narrativas, em estratégia política, em “direita unida” ou em “esquerda unida”, e sempre criará um inimigo que será a síntese de todos os pecados. Sempre que a rivalidade ameaça o seu próprio grupo, ele falará: “o inimigo é outro”. O mafioso não se interessa pela verdade, mas da vantagem obtida para seu negócio, no caso, a construção do seu poder. Dane-se se o presidente é bandido, o que interessa é pensar estrategicamente agora. Exemplo: o discurso do Temer foi maravilhoso, deu um nó na esquerda, ele nos conduzirá para fora do Lula/18 e por aí vai.

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O bobão é o instrumento do mafioso. É o militante petista, é o militante dessa nova direita que apareceu nas redes sociais. É um sujeito diluído por suas paixões políticas. Ele realmente não vai se dar ao trabalho de averiguar a realidade, ele está impressionado demais com seus sentimentos. O petista vê aquele monte de gente acusando o Lula, e afirma: “não há provas”, “é só uma imoralidade típica brasileira, nada de ilegalidade”, “é coisa armada pelos conservadores e pelo grande capital”, “é uma conspiração da Lava Jato, porque o Lula vai ganhar em 18”, “não há nada demais nesse áudio do Messias”, “impeachment é golpe”. Nunca há provas. A única que ele aceitaria – e olhe lá – seria uma confissão passada em cartório. O direitista vê aquele monte de gente pedindo “Fora Temer”, ou pensa nas suas queridas reformas liberais, e afirma: “não há provas”, “é só uma imoralidade típica brasileira, nada de ilegalidade”, “é coisa armada pelos esquerdistas”, “é uma conspiração de Toga para abrir caminho para o Lula”, “não há nada demais nesses áudios”, “impeachment seria golpe”. Nunca há provas. A única que ele aceitaria – e olhe lá – seria uma confissão passada em cartório. A reação emocional diante dos fatos é sempre a mesma.

O mafioso despreza a verdade por vontade de poder. O outro despreza a verdade por ter tido sua consciência diluída pelas paixões políticas, ou seja, pelo materialismo, pelas esperanças vãs nesse mundo. Toda ideologia pega uma parte da verdade e constrói sua gramática de expiação contra o de fora para manter o grupo unido. Há os que mandam, e há os que vão nadando com a corrente.

Senhores, aceitem a realidade. Há provas e indícios mais do que razoáveis. Não só para tirar o mandato de Temer, mas para que possamos invadir o Planalto e expulsá-lo na base dos pontapés.

Elton Flaubert

Doutorando em história das ideias (UnB). Estuda a fundação da ONU.